Talvez a notícia da morte de Luna tenha abalado Bernardo mais do que ele gostaria de admitir. Isso explicava por que ele agia de forma tão atípica na frente de Bianca ultimamente.
Após o almoço, os dois foram para o convés apreciar a vista. Era início de verão, o sol brilhava intensamente e as correntes do Atlântico rolavam em ondas douradas e cintilantes.
Bianca estava radiante como uma criança. — Uau, Bê, olha só! Tem peixes pulando ali adiante?!
Tanto Luna quanto Bernardo olharam na direção indicada e viram inúmeros peixes-voadores saltando da superfície dourada para respirar. À primeira vista, pareciam pequenos espíritos saltitantes do oceano.
Luna também ficou hipnotizada pela cena. Aproveitando sua condição de espírito, ela se apoiou no parapeito do navio para enxergar melhor. Nesse momento, um marinheiro alemão se aproximou e disse sorrindo: — Se tiverem sorte, talvez consigam ver baleias e golfinhos!
A partir de então, Bianca passou o restante do trajeto ansiosa para ver um golfinho ou uma baleia. Isso trouxe à mente de Luna as lembranças de sua própria lua de mel com Bernardo. Foram os quinze dias mais mágicos de suas vidas.
Naquela época, ele alugara um iate apenas para levá-la ao mar para ver golfinhos. Antes de partirem, Luna estava preocupada: — Querido, e se não tivermos sorte? E se não virmos nenhum?
Ele respondeu com uma convicção absoluta: — Não se preocupe. Nós com certeza vamos ver. Ele falava com tanta certeza que parecia que ele mesmo comandava o oceano.
Luna partiu cheia de esperança, mas as horas passavam e os golfinhos não apareciam. Ela começou a se sentir desanimada, mas temendo que ele ficasse ainda mais frustrado, tentou consolá-lo: — Tudo bem, não tem problema se não virmos hoje.
Bernardo, com o rosto sério, insistiu: — Vamos esperar mais um pouco. Ao ver aquela teimosia, Luna sentiu vontade de rir e um imenso carinho ao mesmo tempo. Para sua surpresa, justamente quando o sol começava a se pôr, várias silhuetas arredondadas surgiram saltando das águas.
Luna quase pulou de alegria: — Golfinhos!!
A expressão tensa de Bernardo finalmente relaxou. Com o pôr do sol às suas costas, ele sorriu para Luna, com um olhar de leve triunfo que não combinava com sua postura habitualmente reservada. — Eu disse que veríamos.
Sim, eles eram sortudos. E Luna sentia-se sortuda por tê-lo tido ao seu lado durante os melhores anos de sua vida.
...
A noite caiu. Luna sentia-se constrangida; ela não queria estar no mesmo quarto que o casal. No entanto, como sua alma estava vinculada a Bernardo, o máximo que conseguia era ficar parada junto à porta, onde podia ouvir claramente a conversa lá dentro.
Bianca perguntou a Bernardo: — Bê, sinto que você passou o dia inteiro distraído. Você não gosta de andar de navio?
Bernardo pareceu hesitar antes de explicar: — Talvez faça muito tempo que não subo em um, estou me sentindo um pouco enjoado.
Bianca imediatamente demonstrou preocupação: — Então deixe-me massagear suas têmporas. — Está bem — ele anuiu.
O quarto ficou em silêncio por um instante. Ouviu-se um estalo; a luz havia sido apagada. Logo em seguida, sons de uma respiração ofegante e íntima começaram a surgir.
Luna sentiu um sobressalto. Ela tentou se afastar várias vezes, mas era puxada de volta por aquela linha invisível. Sem alternativa, ela se agachou junto à porta, cobrindo os ouvidos com força, sofrendo em silêncio.
Contudo, pouco tempo depois, a luz do quarto acendeu novamente. A voz surpresa de Bianca ecoou: — O que houve, Bê?
A respiração de Bernardo estava pesada. Ele disse em voz baixa: — Bianca, você está grávida, precisa descansar. Vou sair um pouco para tomar um ar no convés.
Bianca respondeu com decepção: — Tudo bem, então. Mas não demore a voltar. — Eu não vou.
No segundo seguinte, a porta se abriu. Bernardo saiu apressado e, após fechar a porta suavemente, caminhou inquieto até o convés.
Luna observou o vinco profundo em sua testa; ela sabia que ele estava em conflito novamente. Bernardo respirou fundo e murmurou para si mesmo, como se estivesse perdido: — ...Quem sou eu?
Luna, embora já estivesse morta, sentiu como se seu coração tivesse dado um solavanco doloroso.