Após a sua morte, Luna não passou por um período de agonia. Talvez o fim seja o refúgio natural para quem sofre de depressão.
No instante em que afundou no oceano, a alma de Luna se desprendeu. Todo o sofrimento acumulado foi extraído de seu corpo junto com seu espírito, como se fios de dor fossem desatados um a um.
Luna sentiu-se, finalmente, livre em corpo e alma.
Ela imaginou que seria levada para uma reencarnação, ou que, no mínimo, não seria mais obrigada a presenciar o romance entre Bernardo e Bianca. Contudo, as mãos do destino foram cruéis: sua alma ficou inexplicavelmente atada aos dois.
Mas não importava. Luna agora era um espírito; sem coração, não havia como sentir dor. Havia apenas uma estranha sensação de vazio.
...
Na manhã seguinte, Bernardo e Bianca embarcaram no cruzeiro "Amor Verdadeiro". Luna acabou pegando uma carona gratuita naquela luxuosa embarcação.
Durante o embarque, o comissário explicava: "Este cruzeiro percorre a rota da Ásia-Pacífico, passando por países como Austrália, Nova Zelândia e Japão."
"Os passageiros podem escolher livremente em qual país desembarcar para desfrutar de suas férias. Desejamos a todos uma excelente viagem!"
Bianca estava radiante: "Bê! Em qual país você quer descer?"
Bernardo sorriu: "Já que entramos no navio, vamos seguir até o destino final."
Bianca concordou entusiasmada: "Eu também pensei nisso! Sintonia total!"
Dizendo isso, ela o puxou para procurar a cabine deles. Luna, por sua vez, flutuou até o convés para observar a paisagem.
Sentiu uma pontada de melancolia. No passado, ela também sonhara em viajar. Durante os tempos de escola, não havia tempo; após o casamento, tanto ela quanto Bernardo estavam mergulhados no trabalho.
Lembrou-se de quando ele, percebendo o exaustão dela, acumulou todas as suas tarefas de uma vez.
Ele dissera a Luna: "Assim que eu terminar essa correria, terei um mês inteiro de férias. Poderemos ir para onde você quiser."
Luna aceitou feliz. Ele trabalhou arduamente até o fim; faltava apenas aquela última viagem a negócios para que pudesse cumprir a promessa. Mas a notícia que chegou foi a do acidente.
Depois que ele partiu, Luna perdeu qualquer vontade de viajar. Agora, ironicamente, estava realizando esse desejo por "cortesia" de Bianca.
Talvez fosse realmente o destino. Eles tinham um amor profundo, mas uma sorte escassa. Luna sorriu tristemente, com os olhos marejados.
Ao meio-dia, ela seguiu o casal até o restaurante. O serviço era buffet, e como o navio partira da Europa, o cardápio era predominantemente ocidental, repleto de bifes e massas.
Bernardo pediu que Bianca se sentasse e foi buscar o almoço. Ao vê-lo pegar um bife ao ponto para malpassado, o coração de Luna vacilou.
Pois aquele era exatamente o ponto preferido dela.
Ela não pôde deixar de murmurar, em vão: "Grávidas não podem comer carne malpassada."
Luna aprendera muito sobre as restrições alimentares da gestação quando esteve grávida. Mas, obviamente, Bernardo não podia ouvi-la e entregou o prato a Bianca.
Ao ver a carne, Bianca fez um bico de descontentamento: "Bê, grávidas não podem comer carne crua."
"Além disso, eu sempre preferi carne bem passada. Nunca como nada sangrando."
Bernardo travou por um instante, ficando mudo de surpresa. Ele rapidamente puxou o prato para si.
"Desculpe, Bianca. Eu como este. Vou buscar um novo para você."
Ele se retirou apressado. Luna, observando a expressão de decepção no rosto de Bianca, sentiu uma estranha compaixão. No início, Luna sentira ciúmes da existência dela, mas parando para pensar, Bianca não sabia de nada e seu amor por Bernardo era genuíno.
Logo, Bernardo retornou com um bife bem passado e uma salada variada.
Ele colocou o prato diante de Bianca e disse: "Perguntei ao garçom e ele disse que brócolis e cenoura fazem muito bem para gestantes."
Bianca era fácil de agradar e logo recuperou o bom humor. Bernardo, porém, parecia culpado por sua própria distração: "Sinto muito mesmo."
Bianca riu com generosidade: "Tudo bem, não costumamos comer comida ocidental com frequência, não te culpo."
Luna suspirou ao ver o olhar perdido de Bernardo. Na verdade, Bernardo também nunca gostou de comida ocidental.
Quem amava esse tipo de comida era Luna Simões.