Luna observava os dois, entregues àquele beijo apaixonado, sentindo como se tivessem cavado um buraco em seu peito por onde soprava um vento gelado e doloroso.
Naquele instante, ela compreendeu: o futuro que planejou com Bernardo Fontes nunca chegaria.
Sem sequer se despedir, Luna fugiu da empresa em meio ao caos de suas emoções.
De volta ao hotel, ela abriu a mala e começou a empacotar todos os vestígios de Bernardo que trouxera consigo, decidida a despachá-los de volta para o seu país.
A secretária assistia a tudo com espanto.
"Senhora, a senhora não disse que encontraria o momento certo para mostrar tudo isso ao patrão e ajudá-lo a recuperar a memória?"
Luna olhou para a foto de casamento dos dois e seus olhos lentamente se inundaram.
"Ele já tem um novo amor e parece estar vivendo muito feliz."
"Além disso, o Vovô Fontes morreu naquele naufrágio sete anos atrás. Bernardo e o avô eram tudo um para o outro... Se ele se lembrar de mim, ele terá que carregar também a dor da perda do avô."
"É melhor deixar como está. Deixar que esse erro continue sendo a verdade dele."
A secretária, com os olhos marejados, perguntou: "Mas e a senhora? Como fica?"
"A senhora passou sete anos sobrevivendo à base de remédios, apenas esperando pela volta dele."
"Ele era o seu único remédio..."
Luna olhou para a luz do sol que atravessava a janela, mas não respondeu.
Originalmente, sua viagem à Alemanha deveria durar apenas três dias. Mas, por causa de Bernardo, esse tempo se estendeu por mais de duas semanas.
Desde o reencontro, a dose de seus antidepressivos havia aumentado consideravelmente. Os efeitos colaterais eram pesados, deixando-a constantemente sonolenta, sem energia e sem apetite.
Apesar disso, a hospitalidade do Grupo Lins era impecável. Sempre que Bianca a convidava para sair, Luna reunia todas as suas forças para ir.
Pois, onde Bianca estivesse, Bernardo também estaria.
No fundo, ela só queria passar mais um pouco de tempo perto dele.
Naquela tarde, o telefone de Luna tocou. Era Bianca.
"Srta. Simões, sou eu."
O coração de Luna deu um salto: "Ber... Sr. Fontes?"
Bernardo respondeu do outro lado, com um tom estritamente profissional.
"A Srta. Simões está disponível? Minha esposa quer ir a um shopping aqui perto e gostaria que você nos acompanhasse."
Luna respirou fundo, sentindo um gosto amargo. "Sim, estou."
"Certo. Nos vemos lá", disse ele, desligando logo em seguida.
Embora Luna estivesse tentando aceitar a situação, ouvir Bernardo se referir a outra pessoa como "minha esposa" ainda era como um punhal cravado em seu coração.
Quando eles eram recém-casados, ele a apresentava a todos com um orgulho radiante:
"Esta é a minha esposa, Luna Simões."
Agora, aquele que jurou amá-la apenas por toda a vida a havia esquecido por completo.
Luna trocou de roupa e foi ao shopping encontrar o casal.
Bianca, animada, escolheu dois vestidos de modelos idênticos, um azul e outro rosa, e perguntou a Luna e Bernardo qual era o mais bonito.
Luna e Bernardo responderam em uníssono:
"O azul."
"O azul."
Bianca ficou surpresa por um momento, mas logo abriu um sorriso generoso. "Srta. Simões, seu gosto é idêntico ao do meu marido!"
"Ele também ama azul. Sempre que me compra roupas, escolhe essa cor."
Bernardo olhou para Bianca e disse suavemente: "Você fica bem de azul."
Radiante, Bianca levou o vestido azul para o provador.
Luna deu um sorriso melancólico.
Bernardo também costumava dizer que azul era a cor que melhor lhe caía. Pois, no dia em que se conheceram, ela usava um vestido azul.
Ele dizia: "Naquele dia o céu estava limpo, mas você era mais cristalina que o horizonte."
Desde então, ele passou a amar o azul.
Luna não pôde deixar de olhar para o homem ao seu lado, que mantinha uma distância deliberada dela.
Ela não resistiu e perguntou em voz baixa: "Como você e a Srta. Lins se conheceram?"
Bernardo respondeu com indiferença: "Ela me resgatou do mar sete anos atrás. Foi amor à primeira vista da parte dela, e ela me cortejou por muito tempo."
"Ela é pura e ingênua. Tentou me ajudar a encontrar minha família, mas não houve notícias. Como eu não sabia de onde vinha, não me sentia no direito de retribuir o que ela sentia."
Luna sentiu um nó na garganta, sua voz saindo rouca: "E depois... por que você aceitou?"
Bernardo baixou o olhar para a aliança em seu anelar.
Cada palavra que ele disse a seguir foi firme e cristalina:
"Porque eu a amo. Por isso, estou disposto a abrir mão do passado. Só o que me importa é valorizar o futuro ao lado dela."
As lágrimas de Luna transbordaram, impossíveis de conter.
Naquele momento, ela teve que admitir para si mesma:
O Bernardo que a adorava e a protegia morreu, de fato, naquele naufrágio há sete anos.