Em uma fração de segundo, os airbags do carro foram acionados. Lucas girou o corpo instintivamente, protegendo Liana com o próprio peso.
Assim que abriu os olhos, sua primeira reação foi procurar por ela para garantir que estivesse segura. Para seu desespero, ela estava presa entre o assento e o airbag; seu rosto estava pálido e era evidente que ela se ferira em algum lugar.
— Está tudo bem, está tudo bem... Lia, não tenha medo, eu estou aqui.
Ele lutou para se desvencilhar do banco do motorista, ignorando a dor aguda que sentia no ombro e no pescoço. Sua única prioridade era libertar Liana.
— Dói! — No momento em que seus pés tocaram o chão, Liana soltou um grito de dor. Seu tornozelo estava severamente esfolado e sangrava sem parar.
Com os celulares destruídos e sem tempo para pensar, Lucas a colocou nas costas e começou a subir a encosta em direção à estrada. Ao passar pelo carro que os atingira, ele percebeu que a pessoa que causara o acidente era Yasmin.
Metade do corpo dela estava para fora, mas suas pernas permaneciam presas nas ferragens. Ao ver Lucas, ela gritou em prantos: — Socorro! Lucas, me salva! Está doendo muito!
Contudo, Lucas sequer diminuiu o passo. Ele passou por ela sem olhar para trás. Ao ver que fora ignorada, o pedido de ajuda vulnerável de Yasmin transformou-se instantaneamente em uma torrente de insultos e maldições.
— Lia, aguente firme. Já vai parar de doer, vou te levar para o hospital agora mesmo.
Liana estava silenciosa em suas costas. Temendo que ela tivesse algum ferimento interno invisível ou que perdesse a consciência, Lucas não parava de falar para manter a atenção dela: — Lia, não guarde para você. Se doer, grite!
Nesse momento, começou a nevar. Liana afundou o rosto no pescoço dele. Sua voz soou abafada, mas ela não gritou de dor.
— Lucas, eu te odeio.
Sentindo o calor do corpo dele, Liana lembrou-se da noite após a morte de seus pais adotivos. Era inverno. Lucas saíra no meio da noite para procurar qualquer emprego que pudesse sustentá-los, nem que fosse lavando pratos. Ela acordara sobressaltada e, ao notar que ele não estava, o pavor de ser abandonada a fez correr descalça para a rua, chorando.
Quando Lucas a encontrou, ela estava encolhida em uma calçada, soluçando de frio. Ele tirou os próprios sapatos e calçou os pés sujos dela, cobriu-a com seu casaco e a carregou de volta para casa. Aquela fora a primeira vez, desde que se tornaram família, que agiram como irmãos de verdade, sem brigas.
Mas ela jamais imaginaria que acabaria se apaixonando por ele. E menos ainda que sofreria tanto, estivesse com ele ou longe dele. Ela realmente o odiava por isso.
Era a segunda vez que ela dizia que o odiava. Quando estava sem memória, Lucas sentia apenas um desconforto ao ouvir isso. Agora, ao ouvir novamente, era como se ele tivesse engolido todo o fel do mundo; o gosto era de uma amargura insuportável.
— Lia, por favor, não me odeie. Eu realmente sei que errei. Me perdoe, por favor?
— Lembra de quando eu te irritava de propósito e escondi o violino de brinquedo que a mamãe te deu? Você chorou a noite inteira. Quando fui descoberto e te pedi desculpas, você me perdoou.
— Desta vez... você não pode me perdoar de novo?
Como ela não respondia, ele continuou: — A última vez que te carreguei na neve foi na noite em que nossos pais partiram. Naquela noite, prometemos que jamais nos separaríamos. Você precisa cumprir sua palavra.
Ele repetia obsessivamente os eventos do passado e as promessas antigas, como se apenas as memórias pudessem amolecer o coração dela. Liana permanecia em silêncio absoluto em suas costas.
Há dez anos, a menina em suas costas agarrava suas roupas com força, com medo de soltá-lo, chorando:
"Irmão, não me deixe. Eu serei útil, eu vou te obedecer em tudo..."
Mas, enquanto a Liana de quinze anos, vulnerável e sem segurança, implorava para não ser abandonada, a Liana de vinte e cinco anos respondeu com uma voz gélida e calma:
— Lucas, se nossos pais estivessem vivos, eles jamais aprovariam que eu ficasse com um homem como você.