Augusto já havia compreendido parte da história de Liana após o sequestro. Ao ouvir menções sobre "registro familiar" e "vinte anos", não foi difícil deduzir a natureza da relação entre eles.
Aquele homem diante dele era o irmão da família que adotara Liana. Como ele ousava nutrir sentimentos tão deturpados e imorais por ela?
Ao lembrar do que Liana dissera sobre a transfusão de sangue forçada, Augusto sentiu a raiva borbulhar em seu peito, misturada a uma dor profunda por ela. Aquela criança que, anos atrás, era orgulhosa demais para se gabar dos elogios dos professores, devia ter sofrido indescritivelmente para mudar tanto.
Talvez algum termo tivesse atingido o ponto sensível de Lucas, ou talvez a visão de outro homem protegendo Liana o tivesse deixado fora de si; assim que Augusto terminou de falar, o punho de Lucas voou diretamente contra o rosto do pianista.
— O que acontece entre eu e ela não é da conta de um estranho como você!
Augusto não recuou e contra-atacou no ato. Os dois se envolveram em uma briga violenta, e todas as tentativas de Liana de separá-los foram inúteis. Após várias trocas de golpes, ambos exibiam cortes e hematomas no rosto.
Após desferir mais um soco, Augusto soltou um riso de escárnio: — O quê? Você sabe que cometeu atos vergonhosos e imorais, e por isso não suporta que ninguém os mencione em voz alta?
Ao ver que Lucas, enfurecido, avançava para bater novamente, Liana colocou-se rapidamente na frente de Augusto.
PAFT!
Aquele tapa que ela não dera na porta do teatro finalmente atingiu o rosto de Lucas com força total.
— Chega! Lucas, eu estou te avisando: eu não vou te perdoar. Não importa o quanto você faça cena ou tente me forçar, nada vai mudar o que aconteceu!
Dito isso, ela virou-se imediatamente para examinar os ferimentos de Augusto. — Você está bem? Suas mãos doem?
Ele era um pianista; as mãos eram seu bem mais precioso. Ela não podia permitir que ele se machucasse por causa dela.
O contraste entre a preocupação dela com o outro e a frieza com ele foi um golpe devastador para Lucas. Ele rangeu os dentes, com os olhos injetados de sangue. — Lia... eu sei que você está com raiva, mas como pode se preocupar com ele e não comigo?!
— Não importa se eu sou seu irmão ou o homem da sua vida, eu sou sua família! Vivemos juntos por vinte anos! Você...
— Lucas, que direito você tem de dizer que é minha família?!
Desta vez, o rosto de Liana tornou-se totalmente gélido, desprovido de qualquer paciência. — No ensino médio, você tem coragem de negar que instigou a Yasmin a me perseguir e me humilhar? Você tem ideia do medo constante em que eu vivia? Você sabe que, durante os três anos de colégio, eu não consegui fazer um único amigo por sua causa?
— Vir agora me falar de família... você não acha isso uma ironia cruel?
Lucas estancou no lugar, chocado. Ele não sabia como ela descobrira aquilo. — Não, Lia... me escuta, deixe-me explicar. Não foi do jeito que você está pensando, eu fiz aquilo para...
— Chega! Eu não quero ouvir! — O último resquício de paciência de Liana desapareceu. — Não importa o que você pensava na época; o fato é que você ajudou aquela mulher a me destruir.
— Se você realmente preza pelo tempo que passamos juntos, nunca mais me procure! Eu não quero te ver. Cada explicação sua só me causa mais repulsa!
Dito isso, ela partiu novamente com Augusto, sem olhar para trás.
Lucas observou a silhueta dela se afastando, sentindo como se seu coração estivesse sendo retalhado. Nem mesmo há dez anos, quando seus pais faleceram, ele se sentira tão impotente e miserável.
O celular em seu bolso começou a tocar persistentemente. Era Yasmin. Ela ligara inúmeras vezes durante o dia, e ele não atendera nenhuma.
Lucas fixou o olhar naquele nome. Ao recordar tudo o que ela fizera contra Liana nos últimos meses, seu olhar melancólico transformou-se em uma escuridão absoluta.
A verdadeira culpada. Ele jamais a deixaria impune.
Ele atendeu a ligação. — Você está livre amanhã? Tenho um presente para te dar.
Ele jamais desistiria de Liana. Mas, já que ela estava furiosa, ele começaria limpando o caminho, punindo cada pessoa que ousou tocá-la. Era hora de revelar verdades que estavam enterradas há muito tempo.
Só então, ele acreditava, ela voltaria para ele.
O encontro foi marcado na casa de Yasmin — a mansão que Lucas comprara para ela. Ao ouvir as batidas, Yasmin abriu a porta com um sorriso radiante. — Você veio! Entre logo, meus pais prepararam seus pratos favoritos.
Diante do entusiasmo dela, Lucas permaneceu inexpressivo. Sem dizer uma única palavra, ele estendeu a mão e arrancou, com violência, o colar de prata com o pingente de cadeado de vida longa (Changming Suo) do pescoço dela.
— Ai! Isso dói! Lucas, o que você está fazendo?
O movimento fora bruto, e a corrente de prata arranhara a pele delicada do pescoço de Yasmin. Mas Lucas apenas guardou o objeto no bolso, sem perguntar onde doía — uma atitude completamente oposta ao cuidado que sempre demonstrara.
Yasmin sentiu um calafrio. Desde o fim do concurso, o comportamento de Lucas estava estranho, mas hoje ele emanava uma frieza que ela nunca vira antes.
Foi então que ela percebeu que, atrás dele, havia vários policiais.