Liana permaneceu estática, com a mente em branco, até que uma voz familiar vinda de trás a trouxe de volta à realidade.
— Yasmin, pode entrar. Não fique nervosa.
Lucas afagava o topo da cabeça de Yasmin com uma ternura infinita. Quando seu olhar pousou sobre Liana, porém, foi apenas um relance frio e indiferente, como se estivesse olhando para um objeto qualquer no corredor.
O brilho de triunfo nos olhos de Yasmin era quase ofuscante. Ao passar por Liana, ela fez questão de parar e sussurrar em seu ouvido: — Você não esperava por essa, não é? Agora, quem não tem nível para ser minha rival é você.
Dito isso, ela entrou no salão de competições com a postura de uma rainha.
Liana manteve a expressão impassível, mas seus punhos estavam cerrados com tanta força que as juntas de seus dedos ficaram brancas. Ela fixou o olhar em Lucas, esperando. Mas, até que o último candidato entrasse, o homem manteve o rosto gélido, sem o menor sinal de que pretendia explicar ou se desculpar.
Para ele, destruir o sonho dela não era nada demais.
Incapaz de conter a fúria que borbulhava em seu peito, Liana caminhou decidida até ele e ergueu a mão para esbofeteá-lo. No entanto, Lucas foi mais rápido; ele segurou seu pulso com força e o arremessou para o lado com desprezo.
— Eu já te disse: não vou permitir que a Yasmin sofra — disse ele, com o olhar imperturbável. — Você tentou machucá-la várias vezes. Tirar sua vaga neste concurso é um preço muito barato que você está pagando.
— Um preço barato? — Liana rangeu os dentes, a voz trêmula de indignação. — Você tem ideia de que a orquestra está com as vagas completas? Você me tirou a última chance da minha vida!
— Você tem ideia do que eu fiz por você há seis meses...?
As palavras quase escaparam. Ela queria gritar que, seis meses atrás, já havia desistido de um concurso idêntico por ele.
Naquela época, ela estava prestes a ligar para contar sobre seus pais biológicos quando soube do acidente dele. Desesperada, ela abandonou a competição e correu para salvá-lo. O carro dele fora soterrado por um deslizamento de terra sob uma tempestade avassaladora. Os socorristas, temendo novos desmoronamentos, sugeriram desistir das buscas e pediram que ela se preparasse para o pior.
Mas ela não parou. Ignorando o perigo e a chuva cortante, ela cavou a lama com as próprias mãos durante uma noite inteira. Quando a pá quebrou, ela continuou com as unhas, até que suas mãos estivessem em carne viva, para finalmente retirá-lo de lá.
Ela cuidou dele com cada gota de sua energia, apenas para vê-lo acordar e, como primeira reação, correr para os braços de Yasmin.
Desde então, ela suportou seis meses de desprezo, olhares de asco e palavras cruéis. E agora, ele usava a autoridade de "família" para apunhalá-la pelas costas.
Por que contar agora? Para se humilhar ainda mais diante de alguém que já não se importa?
O silêncio ao redor tornou-se ensurdecedor.
— Lucas... eu nunca odiei tanto o fato de você ter sido meu irmão como odeio neste momento.
O tom dela era de uma serenidade mortal, carregado de uma decepção tão profunda que Lucas sentiu o coração ser esmagado por uma mão invisível. Por um breve momento, ele sentiu falta de ar. Nos últimos seis meses, mesmo que ele não gostasse dela, sabia que Liana o tratava como sua única família. Ouvi-la dizer aquilo...
— Você... — Ele sentiu um desconforto súbito. Queria dizer algo menos agressivo, mas seu orgulho falou mais alto, e as palavras saíram distorcidas. — Não seja tão dramática! O que foi? Agora que se acha uma grande artista, vai ser ingrata e me odiar por causa de um concurso? Não se esqueça que, se não fosse por mim, você nem teria um violino para tocar!
Mas Liana nem sequer tinha forças para discutir. Era como se toda a energia de sua alma tivesse sido drenada. Ela apenas pegou seu estojo de violino e começou a caminhar para longe, sem olhar para trás.
No meio do caminho, o som melodioso dos violinos começou a ecoar de dentro do teatro.
Ela parou do lado de fora, no vento frio do crepúsculo. Após hesitar por um momento, abriu o estojo, afinou o instrumento e começou a tocar a peça que vinha preparando há um ano.
Era o seu encerramento. Um acerto de contas consigo mesma.
A ferida em seu cotovelo ainda doía a cada movimento do arco, mas ela não parou. Sob o vento cortante, as últimas notas melancólicas dissiparam-se no ar.
A música terminara. E com ela, o ciclo de sua antiga vida.
Liana ficou parada ali por um longo tempo, de cabeça baixa. Qualquer um que visse aquela silhueta frágil sentiria a solidão que a cercava. Por fim, ela fungou baixinho e limpou as lágrimas com a manga do casaco. Guardou o violino e voltou para casa buscar suas malas.
Ao chegar no portão, deparou-se com pessoas que não esperava encontrar ali: o Sr. e a Sra. Yu, seus pais biológicos.
Eles estavam parados ao lado de um luxuoso Rolls-Royce Cullinan, parecendo esperar sob o frio há horas. A Sra. Yu segurava um buquê de flores. Ao verem Liana, o olhar ansioso de ambos iluminou-se instantaneamente. Eles se aproximaram, trêmulos de emoção.
— Liana, querida... o papai e a mamãe vieram te buscar para ir para casa.
Para alguém que passou vinte anos sentindo-se uma órfã abandonada, nada poderia ter um impacto maior do que a palavra "casa". Seus olhos se encheram de lágrimas; de repente, todas as humilhações dos últimos dias pareceram pequenas.
Ela nunca fora um "bastardo rejeitado".
— Vou pegar minhas malas. É rápido — disse ela, com um sorriso genuíno pela primeira vez em meses.
Após pegar a bagagem, Liana deixou sobre a mesa da sala o cartão bancário com trinta milhões de reais e o documento de registro familiar onde agora constava apenas o nome de Lucas. Sobre eles, um bilhete:
[A senha do cartão é o seu aniversário. É o meu presente de casamento para você. O que eu te devia está pago. Agora, estamos quites.]
Antes de sair, ela acendeu um incenso para seus pais adotivos e ajoelhou-se diante do retrato deles, batendo a testa no chão três vezes em sinal de respeito. Embora não quisesse mais nenhum vínculo com Lucas, o casal Yu a amara verdadeiramente por dez anos. Eles foram seus pais de verdade.
Nesse momento, o celular em seu bolso vibrou. Era uma foto enviada por Yasmin: ela segurava o troféu de primeiro lugar com um sorriso radiante, enquanto Lucas aparecia ao fundo, aplaudindo com orgulho.
[Eu disse que o primeiro lugar seria meu.]
[Vou te contar uma última verdade: o Lucas só vai casar comigo para garantir que você seja o meu "banco de sangue" particular. Ele concordou que, se eu precisar de qualquer emergência, ele tiraria até a última gota de sangue do seu corpo por mim.]
Liana não duvidava que ele fosse capaz disso. Mas ela não daria a eles essa oportunidade.
Ela leu a mensagem com total indiferença. Não houve resposta. Em vez disso, ela bloqueou os números de Lucas e Yasmin permanentemente.
Sentada no banco traseiro do carro, de mãos dadas com sua mãe biológica, Liana observou a paisagem de sua antiga cidade ficando para trás. Aquele fora o cenário de sua dor por vinte anos, mas a partir daquele instante, tudo não passava de tempo pretérito. Ela estava finalmente indo para casa.