《A Promessa Esquecida: Quando a Memória Apaga o Amor》Capítulo 7

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Naquela noite, Liana recebeu uma mensagem de Yasmin, carregada com a arrogância típica de quem saboreia a vitória.

[Nesta rodada, eu venci de novo.]

Liana encarou a tela com uma expressão vazia. Ela sempre fora uma pessoa cautelosa; jamais deixaria algo que pudesse levantar suspeitas solto em sua bolsa.

Aquela foto... Yasmin a encontrara vasculhando suas gavetas quando invadiu seu quarto dias atrás. Ela guardara o trunfo para exibi-lo no momento mais oportuno, com o único objetivo de humilhá-la publicamente.

E, de fato, ela conseguira.

Mas agora que os dias de Liana ao lado de Lucas estavam contados, a opinião alheia já não lhe causava o menor impacto.

Faltando apenas quatro dias para sua partida, Liana foi cedo para o conservatório. Ela precisava focar na prática do violino, preparando-se para o concurso internacional de música que tanto aguardara.

Ela praticou com uma concentração absoluta até o crepúsculo, quando foi abruptamente interrompida por uma voz carregada de desdém.

— Você realmente acha que tem dignidade suficiente para participar deste concurso?

Liana olhou para Yasmin, que ostentava um sorriso triunfante e provocador. Sem querer prolongar o contato, Liana começou a guardar o violino no estojo para ir embora, mas foi segurada com força pelo pulso.

— O que foi? Eu disse alguma mentira? — O olhar de Yasmin era puro desprezo. — Alguém capaz de algo tão incestuoso e doentio ainda sonha em entrar para a Orquestra de Viena? Você se acha digna?

— Mais digna do que alguém falsa e dissimulada como você! — Liana desvencilhou-se com um puxão violento. — Não se esqueça: com o seu nível técnico atual, você não tem competência nem para ser minha rival.

O primeiro lugar naquele concurso garantia uma vaga na prestigiada Orquestra Filarmônica de Viena. Embora o público as visse como as duas grandes favoritas, Liana sabia bem a verdade: o abismo entre elas era vasto. Não que Yasmin fosse medíocre, mas o nível de Liana era simplesmente inalcançável.

Atingida em seu ponto fraco, Yasmin estancou, o rosto ficando rígido por um segundo antes de soltar uma gargalhada estridente.

— Ah, é mesmo? Você está tão orgulhosa assim? E se eu te contasse que, no segundo ano do ensino médio, quando te acusaram de roubar o dinheiro da turma... foi o Lucas quem me mandou colocar as notas na sua gaveta? E aqueles boatos sobre o seu caráter... foi ele quem me deu a ideia de espalhá-los.

O quê?

As pupilas de Liana se contraíram. Levou alguns segundos para que seu cérebro processasse a informação. — Você tem provas do que está dizendo?

Ela se recusava a acreditar. Naquela época, a relação dela com Lucas estava florescendo; não havia lógica para ele arquitetar algo tão cruel contra ela.

Yasmin, prevendo a reação, pegou o celular e deu o play em um áudio antigo.

“Lucas, eu proibi todo mundo de falar com a Liana... você não vai ficar bravo comigo, vai?”

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“Claro que não. Quem mandou ela ser abusada e roubar o seu primeiro lugar no concurso?”

“Se você ainda estiver irritada, coloque o dinheiro da mensalidade da sala na gaveta dela... ou diga que ela não tem moral e vive saindo com qualquer um na rua.”

A voz no áudio era inconfundivelmente a dele. Mas as palavras eram tão gélidas que Liana sentiu o corpo congelar, como se tivesse sido sepultada viva sob uma camada de gelo.

Então, durante aqueles três anos de sofrimento e humilhação no colégio, a mão que a empurrava para o abismo era a dele.

Mas... por quê?

Se Lucas a odiava tanto, ele poderia tê-la deixado à própria sorte após a morte dos pais. No entanto, ele escolheu sustentá-la, pagar seus estudos, incentivá-la na música...

— Porque, para ele, eu sempre fui a pessoa mais importante — Yasmin disse, lendo a confusão no rosto de Liana. — Se eu estivesse infeliz, ele me vingaria de qualquer jeito, mesmo que os pais dele tivessem implorado no leito de morte para ele cuidar de você.

— Por que você acha que ele nunca percebeu que você sofria bullying? Você realmente acreditou que ele te via como uma irmã de verdade?

As memórias de Liana retrocederam. Ela lembrou de quando foi acusada de roubo e a escola chamou o responsável; Lucas nem sequer lhe fez perguntas. Lembrou de quando quebrou o braço e teve que usar gesso por semanas; ele nunca perguntou como acontecera.

Ela pensava que ele estava apenas ocupado demais tentando ganhar dinheiro para o sustento deles. Jamais imaginou que ele sabia de tudo.

E que, desde o início, ele sempre escolhera Yasmin.

— A culpa é toda sua — Yasmin aproximou-se novamente, com um sorriso angelical que escondia uma malícia doentia. — Um bastardo rejeitado deveria apenas sumir ou morrer, em vez de ficar se agarrando à vida e desfrutando da felicidade que pertencia à filha legítima de outra pessoa!

Aquelas palavras atingiram o nervo mais exposto de Liana. Durante vinte anos, o trauma de ter sido "abandonada" pelos pais biológicos a assombrou. A insegurança de ser alguém descartável era sua maior ferida.

Incapaz de suportar mais um segundo, Liana ergueu a mão para desferir um tapa, mas, antes que o golpe a atingisse, Yasmin deixou-se cair pesadamente no chão. Ao cair, ela puxou o estojo do violino, que acabou batendo contra as costas de sua própria mão.

Lucas, que acabara de chegar e presenciara a cena, correu como um louco. Ele empurrou Liana com tamanha força que ela foi arremessada ao chão, esfolando o cotovelo no piso áspero.

Mas ele só tinha olhos para Yasmin.

— Lucas... minha mão está doendo tanto... será que eu nunca mais vou conseguir tocar violino? — Yasmin soluçava, embora não houvesse sequer uma marca vermelha em sua pele.

Mesmo assim, Lucas estava transtornado de preocupação e fúria. Ele encarou Liana com um ódio mortal.

— Liana! Que coração perverso você tem! O que a Yasmin te fez para você agredi-la desse jeito?

O olhar dele transbordava desprezo, como se ela fosse um monstro imperdoável. — Eu estou te avisando: se a mão dela sofrer qualquer lesão permanente, eu vou fazer questão de que você pague com a sua!

No entanto, assim que as palavras saíram, ele sentiu uma pontada aguda no coração ao ver os olhos de Liana marejados e vermelhos. Foi uma dor súbita, como se ele tivesse cometido um erro terrível ao falar com ela daquela forma.

Esse sentimento vinha acontecendo com frequência ultimamente. Sempre que via a tristeza profunda no olhar dela, ele sentia um impulso incontrolável de parar de gritar e, de alguma forma, protegê-la.

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