Incapaz de conter o turbilhão de emoções que a sufocavam, Liana murmurou um pedido de desculpas e levantou-se apressada. Ela precisava do isolamento do banheiro para conseguir respirar e recuperar a pouca compostura que lhe restava.
Quando finalmente se acalmou e retornou ao reservado, o ar parecia ter se tornado espesso. O clima era sombrio.
Os pais de Yasmin a encaravam com olhares carregados de um desprezo visceral, uma mistura de asco e hostilidade explícita. Ao lado deles, Lucas mantinha os olhos fechados, pressionando as têmporas com os dedos trêmulos, exalando uma irritação latente.
— Liana, isso caiu da sua bolsa. Você poderia nos explicar o significado disso? — Yasmin levantou-se e arremessou uma foto sobre a mesa, bem diante dela.
— O que o Lucas te fez para você tratá-lo assim? Você tem noção de que, se isso vazar, a carreira dele estará arruinada para sempre?!
Liana sentiu o sangue fugir de seu rosto ao ver a imagem. Na foto, Lucas dormia profundamente em um sofá e ela, com uma delicadeza quase sagrada, encostava os lábios suavemente no canto da boca dele.
No verso, estava escrito:
“Feliz aniversário para mim! A Lia sempre vai amar o Lucas. Espero que fiquemos juntos para sempre.”
Aquele fora o primeiro aniversário dela depois que decidiram ficar juntos. Ele passara cinco meses gravando sem parar e correu de volta apenas para vê-la; exausto, desmaiou de sono logo após entregar o presente. Ela registrara o momento escondida e selara ali seu desejo mais profundo.
Eram dois jovens lindos que claramente se amavam, mas sob a lente fria do parentesco adotivo, aquela imagem era uma prova de que ela cruzara uma linha imperdoável.
— Que sem-vergonha! Como pode nutrir sentimentos tão sórdidos pelo próprio irmão?! — a mãe de Yasmin, uma mulher de valores rígidos, revirou os olhos com puro nojo. — Seus pais não deveriam ter te resgatado! Eles eram professores respeitados, e você mancha a honra da família dessa forma? Você não tem vergonha?
— Isso é depravação moral! — o pai de Yasmin, também educador, desviou o olhar como se a simples presença dela o contaminasse. — Lucas, com uma irmã dessas, como podemos confiar a nossa Yasmin a você?
— Pai, mãe, não culpem o Lucas — Yasmin interveio, fingindo uma maturidade benevolente. — Ele certamente não fazia ideia de que a Liana era capaz de algo tão baixo...
Sob o peso de todos aqueles olhares, Lucas, que permanecera em silêncio por um longo tempo, finalmente abriu os olhos. Sua expressão era de puro asco.
— Liana... você não sente nojo de si mesma?
Foi como se uma lâmina serrilhada tivesse sido cravada no peito de Liana, abrindo uma ferida que a impedia de respirar. Ela tentou articular uma resposta, mas o som morreu em sua garganta. Um zumbido constante, como o de mil facas, torturava seus ouvidos, martelando sobre a dor de seu coração.
Ela sempre soube que um dia o mundo poderia apontar o dedo para ela, mas jamais imaginou que, entre essas pessoas, estaria Lucas.
Desde que se apaixonaram, ela se esforçara para ser o mais distante possível em público. Esmagava qualquer brilho de afeto em seu olhar, temendo que um deslize pudesse destruir tudo o que ele construíra.
Nos aniversários de morte de seus pais adotivos, a culpa a consumia. Eles a criaram como filha, e ela retribuíra levando o filho biológico deles a quebrar tabus morais. Ela sentia que os dois, onde quer que estivessem, a odiariam.
Naquela época, o antigo Lucas sempre lia seus pensamentos.
— Eu sei do que você tem medo, mas não tema — ele costumava dizer, abraçando-a com tanta força que parecia querer fundi-la ao seu próprio corpo. — Se nossos pais soubessem, eles apenas desejariam a nossa felicidade.
— E mesmo que o mundo inteiro descubra, não importa — ele prometia. — Eu carregarei todo o peso. Eu enfrentarei todos os boatos e insultos por nós dois.
Mas agora, a promessa fora substituída por uma única palavra cuspida com desprezo:
"Nojo"
.
A ficha finalmente caiu: Lucas era um covarde. Um mentiroso completo.
Liana fechou os olhos com força, forçando as lágrimas a voltarem para o abismo de sua alma. Toda a sua agonia transformou-se em um riso seco e sem vida. O último resquício de hesitação em seu coração morreu naquele instante.
Ao abrir os olhos novamente, eles pareciam um lago de águas paradas. Mortas.
Lucas, porém, sentiu algo estranho. Sob aquela superfície estática, ele percebeu uma onda de decepção tão vasta que o deixou sem ar por um segundo.
— Você...
Ele fez menção de caminhar em direção a ela, mas hesitou quando viu Liana pegar a foto e rasgá-la em mil pedaços, sem um pingo de piedade.
— Quem disse que eu gosto de você?
— Eu te detesto, Lucas. Eu te odeio mais do que qualquer coisa neste mundo.
A voz dela era de uma calma absoluta, mas o coração de Lucas deu um salto violento e descontrolado, como se estivesse ouvindo a sentença de uma morte anunciada.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Liana deu as costas, sem olhar para ele uma última vez, e saiu do restaurante.
Ela voltou para casa, recolheu os pedaços do violino destruído e tudo o que estivesse ligado a Lucas: fotos, presentes, bilhetes. Sem qualquer hesitação, jogou tudo dentro de um latão de ferro no quintal.
Com um fósforo, ela ateou fogo em vinte anos de história e sentimentos. E assistiu, em silêncio, enquanto tudo virava cinzas.