O sorriso de Clarice desapareceu levemente. Ela retirou o dedo das mãos de Luan e lembrou-o com serenidade: — Bigamia é crime. Você quer ver a tia Clarice na prisão?
A expectativa no rosto de Ricardo congelou instantaneamente. Uma sombra de mágoa chegou a cruzar suas feições. Samuel, observando a interação entre os dois, já havia compreendido perfeitamente os sentimentos de Clarice. Ele levantou-se com elegância e levou Loli consigo: — Vou deixá-los conversar.
Momentos depois, ele voltou trazendo uma manta, que colocou sobre os ombros de Clarice, e disse em voz baixa: — Não converse por muito tempo, está frio lá fora. — Ao dizer isso, ele deu um leve aperto em seu ombro.
Clarice retribuiu o gesto tocando as costas da mão dele, indicando que havia entendido. A familiaridade entre os dois lembrava a de um casal que estava junto há muitos anos. Era exatamente a vida pacífica com que Ricardo sonhava agora, mas o homem parado ao lado de Clarice já não era ele.
A noite tornou-se ainda mais silenciosa. Ricardo não suportava aquele silêncio, que parecia a calmaria antes de uma sentença de morte. — Clarice... você ainda não pode me perdoar?
Clarice olhou para ele.
Perdoar?
Ela já o havia perdoado há muito tempo. O problema era que, junto com o perdão, veio a indiferença total. — Ricardo, você entendeu errado. Eu não te odeio. Mas eu também não te amo. E muito menos vou voltar a viver girando em torno de você como antes.
Ricardo a interrompeu prontamente, ansioso por provar seu valor: — Eu posso girar em torno de você! Eu prometo que vou te dar todo o conforto e não deixarei ninguém te desrespeitar.
Clarice o encarou com uma ponta de decepção, como se olhasse para um aluno que se recusa a aprender: — Ricardo, você ainda não entendeu o que eu quis dizer? Aos meus olhos, você agora não é diferente de uma formiga na estrada ou de um pássaro que passa voando. Não há mais lugar para você na minha vida. Mesmo que você traga o Luan aqui todos os dias, minha resposta será a mesma.
— Ricardo, você não acha que já passou da hora de viver sua própria vida? O que você ganha insistindo aqui? Apenas uma decepção após a outra.
Ela não conseguia entender a obsessão dele, assim como não entendera sua crueldade no passado. Ricardo sentiu um nó na garganta e não conseguiu proferir uma única palavra. Luan não entendia tudo o que era dito, mas percebeu pelo clima que as coisas não iam bem. Ele fez um bico, choramingando: — Mamãe, eu...
— Não me chame de mamãe. Chame-me de tia Clarice. Ou pode continuar me chamando de "bruxa velha", como fazia antes. Não faz diferença. — Para ela, era apenas um título; não tinha mais importância.
Ao ouvir isso, Luan sentiu-se ainda mais injustiçado, mas não ousou chorar alto, apenas mordeu os lábios com força. Clarice olhou para trás e viu Samuel com Loli na varanda do andar de cima; ao cruzarem os olhares, ele acenou para ela. Ela voltou sua atenção para Ricardo e disse francamente: — Como você pode ver, eu sou feliz agora.
Nesse confronto, Ricardo não tinha defesas. Cada palavra e cada olhar de Clarice eram golpes fatais para ele. Se nem o próprio Luan conseguia amolecer o coração dela, o que ele poderia fazer? Ricardo finalmente desistiu, sentindo-se derrotado: — ...Vou respeitar a sua vontade.
Após a partida de Ricardo, um grande peso saiu do coração de Clarice. Ela subiu as escadas ainda envolta na manta e, assim que entrou, Loli correu para abraçá-la com força, como se temesse que ela desaparecesse. Percebendo a insegurança da menina, Clarice acariciou sua cabeça e fez uma promessa: — A mamãe sempre estará ao seu lado.
Depois disso, Ricardo nunca mais voltou. Correram boatos de que um novo supermercado abrira nas proximidades com preços tão baixos que parecia caridade, mas Clarice não se deu ao trabalho de investigar.
Dois meses depois, Samuel voltou de uma viagem de negócios. Observando Clarice ocupada com as tarefas da casa, ele disse subitamente: — Vamos fazer uma cerimônia de casamento?
Clarice ficou surpresa: — Por que fazer um casamento agora? Além do mais, se fizermos isso, todos saberão. Se houver registros fotográficos, isso pode te prejudicar no futuro quando nos separarmos.
Embora a convivência entre eles fosse harmoniosa e ela tivesse sentido o coração bater mais forte algumas vezes, Clarice sempre se lembrava de que aquele casamento era apenas uma solução temporária. Por isso, a proposta de Samuel a pegou de surpresa.
Samuel levantou-se, tirou o prato das mãos dela e segurou as suas com seriedade: — Então que todos saibam. Nossa convivência tem sido maravilhosa. Eu quero dar uma chance a mim mesmo. Você aceitaria me dar essa chance?
Só então Clarice teve certeza de que ele falava com sinceridade. Ela olhou para ele, incerta se ainda tinha coragem de apostar no matrimônio. Loli espiava por trás da porta, nervosa. As mãos que seguravam as dela tremiam levemente; ele também estava nervoso.
Clarice olhou para o rosto aparentemente calmo de Samuel e depois para suas mãos trêmulas. Ela sorriu: — Sim. accepto.