Samuel assumiu uma postura de legítimo marido e alertou Ricardo com firmeza: — Não volte a assediar a minha esposa.
Os dois entraram no carro de mãos dadas, trocando olhares e sorrisos gentis. Ricardo observava o carro se afastar com um olhar vago; sentia como se um pedaço de seu coração tivesse sido arrancado. Só agora a ficha caía: Clarice realmente havia se distanciado dele. Ele passara todo esse tempo enganando a si mesmo.
Após o casamento, Clarice e Samuel agilizaram os trâmites da guarda. Agora, Loli era oficialmente filha deles perante a lei. No dia em que a documentação foi aprovada, os três prepararam um banquete em casa para comemorar. A menina estava radiante, e sua timidez habitual fora substituída por uma alegria contagiante.
— Papai! Mamãe! — chamava ela em voz alta.
Clarice já fora mãe antes e ouvira a menina chamá-la assim por algum tempo, então estava acostumada. Samuel, por outro lado, nunca fora pai; sua expressão era uma mistura de estranheza, timidez e um certo embaraço.
Clarice colocou o último prato na mesa e deu um tapinha no ombro dele: — Você vai se acostumar com o tempo.
Samuel sorriu levemente: — É que, de repente, sinto um peso enorme de responsabilidade. Sinto que preciso sustentar e proteger este lar.
Clarice não sabia se ele estava brincando ou falando sério, mas não queria que ele se sentisse pressionado. Ela disse com seriedade: — Você não precisa carregar nenhum fardo. Esta foi uma decisão minha, e eu me responsabilizo por qualquer problema que surgir. Apenas seja você mesmo. Sou muito grata pelo que fez; eu te devo um grande favor.
Ela falou solenemente e brindou com ele, usando chá no lugar de vinho. Samuel ouviu com um olhar complexo e, sem dizer nada, virou o copo de uma vez.
Após o jantar, os três relaxaram nas cadeiras, observando o céu estrelado. Havia quanto tempo ela não desfrutava de uma noite tão pacífica? Clarice sentia uma gratidão imensa por ter tido a coragem de assinar o divórcio; se não fosse por aquela fuga, ela jamais saberia que a vida poderia ser tão livre e vasta.
— Mamãe, é aquele menino de outro dia — disse Loli de repente.
Clarice olhou para baixo e viu um vulto pequeno junto ao portão do jardim, quase camuflado pela escuridão. Fazia tempo que não via Luan. Ele estava visivelmente mais magro, com o rosto corado e marcas vermelhas nos braços e pernas expostos; parecia ter passado por um período de grande sofrimento.
Assim que seus olhares se cruzaram, a angústia de Luan transbordou. Ele correu em direção a Clarice e se jogou em seus braços, soluçando alto: — Mamãe! Buááá... você não sabe o quanto o papai me maltratou... buááá...
Ele era como uma torneira aberta; as lágrimas logo encharcaram o ombro de Clarice. Sendo seu próprio filho, o laço de sangue falou mais alto. Clarice sentiu o nariz arder de emoção e o abraçou de volta, afagando suas costas carinhosamente. Levou um tempo até que Luan se acalmasse.
Loli aproximou-se e fez uma careta: — Homem que é homem não chora por qualquer coisa. Que vergonha!
Envergonhado pelo comentário, Luan escondeu o rosto no peito de Clarice. Ele parecia mudado; se fosse antigamente, já teria começado a insultar a todos. Por que estava tão obediente hoje? Ricardo mencionara que o enviaria para uma escola; pelo visto, fora uma instituição de correção de comportamento. Pelo menos, fora uma mudança positiva vinda de Ricardo.
Clarice pegou um lenço para secar as lágrimas de Luan, mas seu tom de voz já não tinha a mesma doçura de antes: — Onde está o seu pai?
Luan desviou o olhar, sentindo-se culpado. Então ele estava por perto. Clarice soltou um suspiro de exaustão. Samuel tomou a iniciativa: — Peça para ele entrar e se sentar um pouco.
Momentos depois, os cinco estavam sentados à mesa em um silêncio absoluto. Ricardo sentia-se um intruso na casa de outra pessoa, atrapalhando a harmonia daquela família de três; o desconforto era evidente.
— Ham... o Luanzinho sentiu sua falta, por isso o trouxe para te ver — disse Ricardo, usando uma desculpa conveniente. Mas Clarice sabia que, se o pai não tivesse insistido, o menino talvez nem se lembrasse dela.
— Ele já me viu — respondeu ela, friamente.
Luan, percebendo o clima tenso entre os dois, tentou ajudar o pai: — O papai castigou severamente aquela mulher malvada que ficava semeando discórdia!
Na escola, ele aprendera o quão desprezível Melissa era e estava profundamente arrependido. Clarice não esperava por isso e olhou para Ricardo. Ele apressou-se em responder: — Melissa teve o que mereceu.
O uso do nome completo indicava que ela fora descartada definitivamente. Mas isso não importava mais para Clarice. Ela levantou o olhar com indiferença: — Entendo. Agora você pode ficar tranquilo para procurar uma nova mãe para o Luan. Ele está tão bem comportado que qualquer uma iria adorá-lo.
Luan esticou sua mãozinha, segurando um dedo de Clarice, e perguntou com uma expectativa ansiosa: — E você... você também gosta de mim?