Ricardo sabia perfeitamente bem. O pai de Melissa era um viciado que só pensava em extorquir dinheiro de qualquer lugar. Se Ricardo não tivesse intervindo no passado, o pai dela já teria vendido até os órgãos de Melissa para conseguir dinheiro rápido. Sim, aquele homem não tinha paciência para lucros a longo prazo; ele queria dinheiro na mão, custasse o que custasse.
Melissa chorava convulsivamente, abraçando as pernas de Ricardo: — Eu faço qualquer coisa que você quiser! Por favor, eu te imploro, não deixe meu pai vir. Se ele me levar, eu estarei perdida!
Mas a única resposta que obteve foi o rosto gélido e implacável de Ricardo. A campainha tocou. No mesmo instante, o rosto de Melissa ficou cinzento como a morte; ela tentou desesperadamente escapar.
Um homem com o rosto marcado por cicatrizes invadiu o apartamento, exalando um odor fétido de álcool e sujeira. Ele agarrou Melissa com força e começou a arrastá-la para fora, resmungando: — Vamos logo, todo mundo já está esperando.
Sair dali significava entrar no inferno. Melissa recusava-se a soltar o batente da porta de todas as formas, olhando para Ricardo com uma expressão deplorável, esperando uma gota de piedade. Ricardo desviou o olhar, sem demonstrar a menor emoção. Vendo que ela se agarrava à porta, o homem das cicatrizes fechou-a com toda a força contra as mãos dela.
— AHHHHHH! — O grito de agonia de Melissa ecoou pelo corredor. Seus dedos incharam instantaneamente; o dedo mindinho estava mole, quebrado. Os gritos de dor continuaram até desaparecerem no elevador.
Uma hora depois, o homem enviou um vídeo para Ricardo. Nas imagens, Melissa aparecia despida, com o olhar perdido e a mente desconexa; não havia um centímetro de sua pele que estivesse intacto. Ricardo desligou o celular em silêncio e encarou o vazio de sua casa.
Luan continuava ajoelhado perto da janela, sem ousar se mexer. Ele vira tudo claramente pelo reflexo do vidro. O chão onde estava ajoelhado estava molhado; ele havia urinado de puro terror.
O papai enlouqueceu? Como ele pôde fazer isso? Aquela era a tia Mel, que a gente tanto amava!
— Levante-se — ordenou Ricardo, friamente.
Luan não ousou desobedecer e caminhou trêmulo até ele. — Vá com este senhor.
Ricardo fez apenas um gesto. Um homem entrou pela porta e, sem dizer uma palavra, pegou Luan no colo e o levou embora. Luan gritava e esperneava, mas o homem não se abalou.
Enquanto isso, Clarice não sabia de nada disso. Naquele momento, ela preparava o café da manhã para a pequena Loli, que a ajudava na cozinha em um clima de total harmonia. Até que a campainha tocou.
Clarice abriu a porta e deu de cara com um homem estranho, que parecia ser da região. Ela perguntou, alerta: — Quem é você?
O homem espiou para dentro da casa e, percebendo que não havia nenhum homem ali, adotou uma postura folgada: — Sou o tio distante da Loli. Vim buscá-la. — Antes que Clarice pudesse responder, ele continuou: — Ouvi dizer que a velha morreu atropelada e que o seguro pagou uma nota. Já aviso: não tente ficar com o dinheiro.
Então ele já havia aparecido? Clarice colocou Loli atrás de si, encarando o suposto tio: — Como vou saber se você é quem diz ser? Preciso de documentos. Se quer levar a menina, traga uma prova de identidade validada pela delegacia.
Um documento assim não seria fácil de conseguir; ela esperava ganhar pelo menos um ou dois dias com isso. Mas o homem não a respeitava. Ele tentou puxar Loli à força e, vendo que Clarice a protegia, invadiu a casa disposto a usar a força bruta.
Clarice agarrou um espanador de penas perto da porta e acertou a cabeça dele. O homem, furioso, levantou o punho para revidar. Naquele instante, Clarice lembrou-se da agressão no beco do bar; seu corpo estremeceu, o suor frio escorreu e ela fechou os olhos por instinto.
A dor esperada não veio. Samuel as protegeu com firmeza, torcendo o pulso do homem com um movimento rápido. Com um pouco de pressão, o braço do agressor ficou imobilizado. O "tio" saiu dali praguejando e prometendo vingança.
Samuel virou-se para Clarice, verificando se ela estava ferida. — Eu estou bem, mas a questão da Loli precisa ser resolvida agora.
Clarice raramente via Samuel, então decidiu aproveitar a oportunidade: — Você aceitaria se casar comigo?