A noite caiu. Clarice colocou Luanzinha para dormir e sentou-se sozinha na soleira da porta, perdida em pensamentos. Por que Ricardo viera até ali? Qual era o seu objetivo? Ele ainda achava que ela era a mesma pessoa de antes, que voltaria para ele com apenas algumas palavras de carinho?
Seu olhar vagou pela rua até encontrar uma silhueta familiar do outro lado.
— Clarice, precisamos conversar seriamente — disse Ricardo, parado do outro lado da estrada, com uma voz sincera.
Parecia que, após passar um dia detido na delegacia, ele finalmente havia baixado a guarda. De qualquer forma, uma conversa era inevitável. Clarice levantou-se e caminhou até ele, mantendo uma distância considerável.
— Diga — respondeu ela, curta e grossa.
A atitude distante dela o deixou sem saber como começar. Ricardo nunca estivera tão hesitante. Clarice observou sua aparência desleixada, com a barba por fazer, e sentiu um breve torpor. Quantas vezes ela sonhara em ver Ricardo tão desesperado por ela? Agora o desejo se realizava, mas era tarde demais.
— Clarice, eu errei. Eu não deveria ter tido nenhum tipo de contato com a Melissa. Eu vi o que você postou... eu realmente não sabia que ela falava aquelas coisas de você pelas costas. Se eu soubesse antes...
Clarice o interrompeu imediatamente: — Se você soubesse antes, teria apenas pedido uma desculpa superficial e pronto. Eu te conheço bem demais. Se veio aqui para dizer essas bobagens, pode parar. Se veio para me convencer a voltar, também pode esquecer. Minha vida aqui é ótima e livre; sou muito mais feliz do que jamais fui ao seu lado.
Ela continuou, com a voz firme: — Estar ao seu lado é como estar em uma prisão, em um túmulo. Ricardo, você me faz sentir sufocada.
Essas eram palavras que ela havia repetido mentalmente inúmeras vezes, mas que sempre engolira para tentar salvar um casamento que já estava em ruínas. Agora, finalmente podia dizê-las sem qualquer medo ou reserva.
Ricardo ouviu a acusação, paralisado e sem palavras. Então, estar ao lado dele causava tanta dor a ela? Ele, que sempre se sentira orgulhoso e seguro pela paciência e tolerância que ela demonstrava.
Clarice cruzou os braços e olhou para ele com frieza, dando o ultimato final: — Não venha mais aqui. Não tenho nenhuma expectativa em relação a você e não temos nenhum futuro juntos.
Ela virou-se e fechou a porta, deixando Ricardo do lado de fora.
Ricardo permaneceu parado na estrada deserta, sentindo o vento gelado da madrugada, enquanto revia em sua mente a frieza de Clarice em contraste com a doçura de antigamente. Fora ele quem, pouco a pouco, destruíra a pessoa que mais o amara. Era o seu castigo.
Ele começou a refletir sobre como chegaram a esse ponto e percebeu que tudo começara com a volta de Melissa. Desde que ela retornara, ele agira como se estivesse sob um feitiço, negligenciando completamente sua casa e sua família.
De repente, ele lembrou daquela noite sangrenta em que Clarice fora esfaqueada. Ele vira o sangue jorrando do abdômen dela; ele poderia ter ligado para a ambulância primeiro, mas Melissa dissera que estava tonta, e ele simplesmente ignorou a esposa. No hospital, ao ouvir o médico dizer que ela quase morrera de hemorragia, ele sentira o corpo gelar.
E mesmo assim, ele a deixara sozinha no hospital por duas semanas. Sabendo que ela mal conseguia se levantar, não contratou sequer um cuidador. Como ela teria passado aqueles dias sozinha? O que ela teria pensado enquanto lutava contra aquele agressor naquela noite?
Relembrando tudo, Ricardo percebeu o quão estúpido e cruel ele havia sido. Se Melissa não o tivesse distraído, se Melissa não tivesse insistido que o ferimento de Clarice era superficial e sem importância, como ele poderia ter sido tão negligente?
Foi tudo culpa da Melissa!
Seu celular tocou. Era Melissa, com sua voz frágil e doce: — Ricardo, onde você está? Queria te levar um lanche, mas não tem ninguém na sua casa.
O olhar de Ricardo tornou-se sombrio e gélido: — Estou voltando agora. Espere na porta.
Embora a viagem de volta levasse pelo menos três horas, para Ricardo, fazer Melissa esperar ali seria apenas o mais leve dos castigos.