Clarice e Samuel trocaram um olhar rápido e, em um acordo silencioso, decidiram esconder a notícia de Luan por enquanto.
— Vou lá ver o que aconteceu. Você fica em casa e tenta manter a Luan calma — disse Samuel rapidamente. Com suas pernas longas, ele saiu a passos largos.
Clarice ficou inquieta, cuidando da menina até o anoitecer, quando Samuel finalmente retornou. Ele olhou para Clarice e balançou levemente a cabeça negativamente. No mesmo instante, os olhos de Clarice se encheram de lágrimas. Desde que chegara, a avó de Luan sempre a tratara com muito carinho; como uma senhora tão amável pudera partir assim, tão de repente?
Samuel explicou a situação em voz baixa: — Foram alguns jovens da cidade em motocicletas. Não reduziram a velocidade. Todos já foram detidos.
Era uma notícia impossível de esconder por muito tempo. Antes de dormir, Luan ainda pedira a Clarice que a acordasse cedo para não perder a chegada da avó. Mas a avó não voltaria mais. Clarice olhou para a menina adormecida, incapaz de proferir palavras tão cruéis.
Samuel, percebendo o dilema dela, disse atenciosamente: — Deixe que eu conto para ela.
Ele passou por Clarice, acordou Luan suavemente e explicou tudo o que havia acontecido com uma voz baixa e calma. Luan ouviu em silêncio, as lágrimas escorrendo lentamente. Como já era noite, ela não ousou chorar alto, apenas soluçava de forma contida. Samuel a abraçou com ternura, afagando suas costas como um pai protetor e firme como uma montanha. Após quase uma hora de pranto, a menina adormeceu de exaustão.
Clarice sentou-se na soleira da porta, observando a lua crescente no céu, com uma expressão indecifrável. Samuel sentou-se ao lado dela, sem intenção de invadir seu espaço: — A Luan tem uma boa resiliência emocional.
Tendo perdido os pais cedo, a menina já conhecia a dor da despedida, por isso era resiliente. Mas Clarice preferia que ela nunca tivesse precisado desenvolver essa força. Ela soltou um longo suspiro, sentindo uma profunda tristeza.
O funeral foi organizado pelos moradores locais, mas, sempre que surgia uma dúvida, todos recorriam a Samuel e Clarice. Naqueles dias, Samuel parecia ter deixado seus compromissos de lado para cuidar de tudo com dedicação. No dia do sepultamento, Luan chorou copiosamente. Em um dia que não deveria haver vento, surgiu uma brisa suave que, naquele início de primavera ainda gélido, trazia um toque de calor e consolo.
Após se despedir dos vizinhos, Clarice ia agradecer a Samuel, mas, ao se virar, viu um homem mais velho segurando a mão de Luan. Clarice aproximou-se imediatamente, puxou a menina para trás de si e alertou o homem: — Fique longe da Luan.
O homem, no entanto, não demonstrou medo; pelo contrário, começou a analisar Clarice de cima a baixo com um olhar extremamente vulgar. Clarice instintivamente procurou por algo que pudesse servir de arma, e pelo canto do olho viu Samuel por perto. Ela quase gritou por ele, mas no último segundo lembrou-se da expressão de esquiva de Ricardo no passado. Se até o próprio marido se sentia constrangido em ajudá-la, ela não queria incomodar um estranho.
Enquanto pensava nisso, Samuel já estava ao lado delas, ameaçando com voz grave: — Não me force a perder a paciência.
Ao ver o porte físico de Samuel, o homem recuou na hora, soltou um xingamento e se afastou. Mas parecia que não pretendia desistir. Afinal, Clarice estava ali sozinha e Luan agora era uma órfã sem teto; se aquele homem tivesse má intenção, encontraria outra oportunidade. O mais assustador era que ele talvez não fosse o único com tais pensamentos. Aquele lugar remoto tinha ar puro e silêncio, mas também abrigava mentes atrasadas.
Clarice percebeu que aquele lugar não era mais seguro. Precisavam se mudar para a cidade. Samuel antecipou-se: — Tenho uma casa na cidade. Vocês podem se mudar para lá primeiro. Eu já atualizei todo o sistema de segurança.
Surpresa com tamanha consideração, Clarice não fez cerimônia e aceitou com um aceno de cabeça. Mas logo surgiu outro problema. O número de "pretendentes" pedindo a mão de Luan em casamento começou a crescer — de jovens a velhos, de pessoas sãs a deficientes mentais. O pior era que Clarice não era a guardiã legal da menina e não tinha o direito formal de recusar por ela.
Um dos pretendentes rejeitados chegou a ameaçar: — Esperem até eu trazer o tio distante dela. Aí vocês vão ter que aceitar, querendo ou não.
Aquilo era verdade. Ela precisava resolver a questão da guarda antes que esse suposto parente aparecesse. Mas a guarda legal não era algo fácil de conseguir; mesmo para um processo de adoção, as exigências eram rigorosas, como ser casado e não ter filhos.
Clarice encontrou-se em um impasse difícil.