Clarice descia a montanha carregando seu pequeno cavalete nas costas, cumprimentando as senhoras que encontrava pelo caminho. O ar puro da montanha era revigorante e parecia ter acelerado a cicatrização de suas feridas, tanto físicas quanto as da alma.
Inicialmente, ela pensara em comprar um novo celular e um chip assim que chegasse ali, mas percebeu que não sentia a menor necessidade. O sinal na região era péssimo e, como não tinha ninguém a quem quisesse contatar, acabou simplesmente esquecendo o assunto.
Assim que chegou à sua pequena casa, viu uma silhueta tímida espiando junto à porta.
— Luanzinha, você veio de novo? — Clarice perguntou, estendendo as frutas que colhera na montanha.
A pequena Luan aceitou as frutas com um sorriso recatado e perguntou suavemente: — Posso ficar na sua casa hoje, tia?
— Claro que pode.
Ao receber a permissão, o rosto da menina iluminou-se instantaneamente, tornando-se radiante. Luan era uma garotinha que ela conhecera logo que chegara; vivia apenas com a avó idosa, que vendia ervas medicinais no mercado local para sustentar as duas. Não sobrava dinheiro para a escola.
Clarice, com seus recursos limitados, fazia o que podia: ensinava a menina a ler e escrever o básico. Como Luan tinha quase a mesma idade de seu filho (o outro Luan), Clarice não podia evitar a comparação: enquanto seu filho biológico era arrogante e vivia no luxo, essa menina era doce, mas passava privações. Isso só fazia aumentar sua ternura pela pequena.
Ela conduziu a menina para dentro, e Luan sentou-se comportadamente em seu lugar de costume. — Tia, o tio Samuel vem hoje também. Podemos jantar todos juntos?
O "tio Samuel" era o vizinho de Clarice. Um homem misterioso que saía cedo e voltava tarde. Antes de Clarice chegar, era ele quem ocasionalmente cuidava de Luan. Clarice só o vira rapidamente em raras ocasiões e ele não parecia ser dali; suas roupas e postura lembravam mais a elite de uma metrópole. No entanto, Clarice não tinha interesse na vida alheia e nunca fizera perguntas.
— Acho que o seu tio Samuel não vai conseguir chegar a tempo para o jantar...
Na verdade, ele nunca jantara com elas, mas, por algum motivo, a menina insistia na ideia de reuni-los à mesa. Clarice foi para a cozinha preparar a comida quando, de repente, ouviu o grito entusiasmado de Luan: — Tio Samuel! A tia disse que você pode jantar com a gente!
Hein? A esta hora?
Curiosa, Clarice saiu da cozinha e deu de cara com o homem no portão. Antes fora apenas um vislumbre, mas hoje ela pôde ver claramente suas feições: ele exalava a aura de um cavalheiro culto de família nobre. Ela sentiu um pouco de desconforto, e ele parecia compartilhar da mesma sensação.
Apenas a pequena Luan não estava nem um pouco constrangida; ela pegou a mão de Samuel e o puxou para dentro, animadíssima: — Tio Samuel, finalmente te peguei!
Como ele já estava dentro de casa, não fazia sentido expulsá-lo. Clarice limpou as mãos no avental e sorriu: — Vou preparar mais dois pratos, então.
Meia hora depois, três pessoas que eram praticamente estranhas estavam sentadas à mesa como se fossem uma família. Era uma situação estranhamente bizarra, mas permeada por um acolhimento peculiar.
Samuel comia de forma lenta e refinada; mesmo uma tigela de cerâmica comum parecia um item de luxo em suas mãos. Luan estava visivelmente elétrica, tagarelando sobre as curiosidades da floresta, agindo de forma totalmente diferente da menina tímida que era na rua. O homem apenas ouvia em silêncio, sorrindo ocasionalmente em resposta, mas sem dizer muito.
Terminado o jantar, Luan assumiu a tarefa de lavar a louça, deixando Clarice e Samuel sentados na sala em um silêncio embaraçoso. O homem sorriu e estendeu a mão para se apresentar: — Meu nome é Samuel.
Clarice retribuiu educadamente: — Eu sou a Clarice.
Samuel olhou para o cavalhete atrás dela: — Você é pintora?
Era a primeira vez que alguém a chamava assim. Clarice balançou as mãos negativamente: — Não, não. Eu era designer de joias... agora pinto apenas por diversão.
Samuel abriu a boca para dizer algo, mas uma senhora da vila entrou correndo, gritando desesperada: — Aconteceu uma tragédia! Uma tragédia! A avó da Luanzinha foi atropelada por um carro!