Quando Clarice acordou no hospital, já era o amanhecer do dia seguinte.
O médico explicou a situação com o cenho franzido: — Seus ferimentos anteriores ainda não haviam cicatrizado e agora você levou mais duas facadas. Se um pedestre não tivesse te socorrido a tempo, você teria morrido por hemorragia. Na próxima vez, peça para sua família cuidar de você, não se arrisque sozinha.
Socorrida por um pedestre?
Ricardo estava logo ali na frente, o que ele estava fazendo?
Clarice lembrou-se daquela noite no bar e balançou a cabeça para o médico com um sorriso amargo: — Eu não tenho mais família.
— Clarice, eu não entendo como você ainda tem cara de pau de continuar rastejando atrás do Ricardo.
Melissa surgiu na porta, não se sabe há quanto tempo estava ali, com os braços cruzados e um olhar vitorioso. Ela parecia estar perfeitamente bem. Entrou no quarto com passos elegantes enquanto dizia: — Ontem eu só tive um pequeno desmaio e o Ricardo nem olhou para você, me trouxe direto para o hospital. Se eu fosse você, já teria assinado o divórcio há muito tempo.
— É com essa falta de vergonha que você se manteve ao lado dele todos esses anos? Clarice, eu realmente te subestimei, você é dura de matar, hein?
Cada palavra de Melissa transbordava deboche e desprezo. Ela esperava que Clarice explodisse de raiva. Mas estava enganada. Clarice agora não sentia mais nada.
Diante da provocação, Clarice apenas respondeu calmamente: — Já que você sente tonturas, deveria descansar mais. Se vai fingir desmaios, tente ser mais convincente. Não vá deixar que ele descubra a verdade um dia e acabe com o seu sonho dourado.
— Você...!
Melissa ia retrucar quando ouviu passos no corredor. Ela caminhou rapidamente até a beira da cama e, de propósito, jogou-se no chão: — Clarice, eu só queria saber como você estava, não precisava me empurrar! O que eu fiz de errado?
Ricardo e Luan chegaram à porta bem no momento em que ela dizia isso. O homem não conteve o ímpeto; entrou no quarto a passos largos, levantou Melissa com ternura e olhou furioso para Clarice: — O que você pensa que está fazendo?! Você arranja confusão na rua e agora quer descontar na Melissa?
Luan correu e desferiu um soco diretamente no abdômen de Clarice: — Pessoa má!
O golpe atingiu exatamente onde estavam os pontos das facadas. Clarice sentiu uma dor lancinante e o sangue começou a manchar rapidamente o lençol. Tremendo violentamente, ela apertou o botão de emergência para chamar a enfermeira.
Ricardo ficou paralisado diante da cena, e um lampejo de arrependimento cruzou seu rosto por um instante.
A enfermeira chegou às pressas. Ao refazer o curativo e saber o que havia acontecido, ela mal conseguiu se conter. Olhou para Ricardo e disse: — Você é o pai da criança, não sabe dar educação? Socar um ferimento desses... se ela tiver uma hemorragia grave e morrer, você vai assumir a responsabilidade?
Os lábios de Ricardo tremeram, mas ele não disse nada. Melissa, fazendo-se de boazinha, tentou aliviar o clima com um sorriso: — A criança é pequena, não conhece a própria força.
Luan, sentindo-se protegido, escondeu-se atrás de Melissa. A enfermeira cerrou os olhos, reconhecendo-a: — Você é aquela amante, não é? A que fez todos os exames possíveis e não tinha absolutamente nada? Fingir desmaio tem limite, não ache que todo mundo é idiota.
Essas palavras não deveriam ter sido ditas por ela, mas a indignação era maior. O rosto de Melissa empalideceu de susto, e Ricardo lançou um olhar inquisitivo para ela. Em pânico, ela disparou: — Clarice, por mais que você me odeie, não deveria instigar os funcionários do hospital a mentirem assim! — E começou a fungar, fazendo-se de vítima.
Ricardo imediatamente se colocou ao lado dela, olhando friamente para Clarice: — Você realmente me decepcionou. Peça desculpas à Melissa.
Clarice, que acabara de levar duas facadas, que quase morrera porque o marido não a socorrera, agora era obrigada a pedir desculpas à amante que inventara uma mentira descarada. Era patético. Ela cerrou os lábios e fechou os olhos, deixando clara a sua posição.
Ricardo soltou as palavras com peso: — Se não pedir desculpas a ela, não espere que eu venha te ver nunca mais.
Dito isso, ele virou as costas e saiu. E ele realmente cumpriu a promessa. Durante as duas semanas seguintes, Ricardo não apareceu nenhuma vez. Melissa, por outro lado, enviava fotos e vídeos diariamente mostrando a vida harmoniosa e feliz daquela "família de três". Clarice nem sequer se dava ao trabalho de abrir as mensagens; apenas salvava tudo em uma pasta.
No dia em que o acordo de divórcio finalmente se tornou efetivo, Clarice insistiu em receber alta. Voltou para casa, pegou o pouco que restava de suas coisas e comprou sua passagem. Antes de sair, programou um e-mail com todos os vídeos e fotos salvos para ser enviado automaticamente.
Ao cruzar a porta pela última vez, ela deixou o acordo de divórcio assinado no lugar mais visível da casa.
Adeus, casa que me sufocou de dor.
Adeus, pai e filho que me fizeram sofrer tanto.
Para nunca mais os ver.