Clarice se afastou carregando sua grande sacola. Ricardo não foi atrás dela, e ela também não esperava que ele o fizesse. Com Melissa ao lado, como ele encontraria espaço mental para qualquer outra pessoa?
Quando Clarice terminou de vender tudo o que restava, já havia escurecido. Era o dia do Festival das Lanternas, e todas as casas pareciam vibrar em festa. Não querendo se entregar à melancolia, ela decidiu ir a um bar que sempre admirou, mas que nunca tivera a chance de visitar. O lugar tinha um estilo artístico e literário; ela já o mencionara a Ricardo uma vez, mas ele dissera que aquele tipo de ambiente "não era para gente de bem".
Ao cruzar a porta do bar, Clarice percebeu que não era um lugar barulhento como os outros; pelo contrário, sob uma música suave, o ambiente exalava um certo charme e intimidade. Ela escolheu uma mesa no canto, mas mal se sentou e viu um apresentador subir ao palco, pedindo silêncio.
— Hoje, nesta data tão especial, recebemos uma convidada muito especial. Vamos dar as boas-vindas!
Sob aplausos calorosos, alguém surgiu de trás das cortinas. Era um rosto que Clarice conhecia muito bem. Melissa, com um sorriso doce, percorreu o salão com o olhar. Ao notar Clarice no canto, ela hesitou por um segundo, mas logo abriu um sorriso ainda mais radiante e falou ao microfone: — Olá a todos, eu sou a Melissa. Há um ano, eu era cantora residente aqui, e foi neste exato lugar que encontrei o homem da minha vida.
Ela olhou diretamente para Ricardo. O refletor seguiu o seu olhar. Uma no palco, o outro na plateia, trocando olhares distantes que faziam parecer o casal mais apaixonado e predestinado do mundo. As pessoas ao redor começaram a comemorar, e o apresentador convidou Ricardo a subir ao palco. Luan, batendo palmas, empurrou o pai para cima.
O homem, sempre sério e inexpressivo, agora exibia um toque de timidez juvenil e as bochechas levemente coradas. Clarice, encolhida em seu canto, observava a cena de braços cruzados, em silêncio. Ela, a esposa legítima com certidão de casamento assinada, parecia agora apenas uma desconhecida testemunhando a felicidade alheia.
— Ricardo, obrigada por ter me ajudado naquela época. Meu coração nunca mudou — disse Melissa, com os olhos brilhando como se estivesse prestes a chorar. Ricardo, com o olhar transbordando ternura, esticou a mão para limpar uma lágrima no canto do olho dela.
— Beija! Beija! — o coro começou a subir no bar.
Melissa lançou um olhar triunfante para Clarice. Naquela data especial de união familiar, seu marido e seu filho, em público, não negavam nem recusavam o amor de outra mulher.
Que perda de tempo
, pensou Clarice. Ela baixou o olhar e virou o copo de bebida de uma só vez. Enquanto todos celebravam aquele "amor de destino", ela se levantou silenciosamente e saiu.
No palco, Ricardo olhava para Melissa, que parecia exatamente a mesma de suas lembranças, mas, por algum motivo, sua mente voou para a Clarice que o olhara com repulsa naquela manhã. Em um momento de distração, ele viu pelo canto do olho um vulto familiar.
Clarice? O que ela está fazendo aqui?
Ele não a avisara para não frequentar esses lugares? Enquanto pensava nisso, Ricardo notou um homem com atitudes suspeitas seguindo Clarice para fora do bar. Sem pensar duas vezes, ele desceu do palco e correu em direção à saída.
Melissa, que ainda saboreava o prazer da vingança e a luz dos holofotes, achou que finalmente convenceria Ricardo, mas ele hesitou e, sem dizer uma palavra, saiu correndo.
Ele vai atrás da Clarice?
, pensou ela, furiosa.
Logo agora que o clima estava perfeito!
Cega pela raiva, Melissa disparou atrás dele. Na plateia, o burburinho era geral, ninguém entendia o que estava acontecendo.
O vento da noite estava frio. Clarice apertou o colarinho do casaco; a bebida de antes agora queimava em seu estômago vazio. Talvez por não estar acostumada a beber, sua cabeça começou a girar. Após alguns passos, sentiu o mundo dar voltas. Ela parou, encostando-se na parede para recuperar o equilíbrio.
Uma voz estranha surgiu: — E aí, gatinha... sozinha?
Clarice virou-se em alerta, tentando se afastar. O homem usava um boné que escondia o rosto e já avançava para agarrá-la. Ela resistiu com todas as forças, mas a força do estranho era assustadora.
— Clarice! — era a voz de Ricardo.
Naquele momento de desespero, ela esqueceu o divórcio e os ressentimentos, gritando por socorro: — Ricardo! Socorro, me ajuda!
O agressor se assustou e estava prestes a soltá-la. Porém, logo atrás de Ricardo, outra pessoa surgiu e soltou um gemido de dor, caindo no chão. Melissa segurava o tornozelo, chorando de forma dramática: — Ricardo... meu pé...
— Papai! O pé da tia Mel virou! Rápido, leva ela para o hospital! — gritou Luan, desesperado.
O agressor, percebendo a distração, recuperou o ímpeto e apertou o pulso de Clarice com força, olhando desafiadoramente para Ricardo. Qualquer pessoa com o mínimo de discernimento saberia qual situação era urgente.
Clarice fixou os olhos em Ricardo. O homem parecia dilacerado pela dúvida, mas, por fim, deu meia-volta. Ele pegou Melissa no colo e gritou para Clarice enquanto se afastava: — Não tenha medo! Eu vou chamar a polícia para você!
Luan completou, com uma voz cheia de ressentimento: — Ela é só uma bruxa velha, papai! Por que você se importa com ela?
Os três desapareceram na escuridão da noite. Clarice ficou ali, paralisada pela incredulidade.