A expressão de Clarice esfriou instantaneamente. Esse homem era realmente um mestre em estragar qualquer momento de paz.
Com o som de passos apressados, Ricardo chegou à porta do closet. Ao ver o vazio do cômodo, a interrogação que estava na ponta de sua língua travou por um segundo, transformando-se logo em um riso de escárnio: — Muito bem, então agora temos um truque novo? Não me avisar que recebeu alta hoje também foi de propósito? Queria que eu me sentisse culpado?
Ele continuou, sem esperar resposta: — E agora resolveu esvaziar a casa? Planeja fugir? Você ainda é uma criança de três anos? Eu já te dei uma abertura para fazermos as pazes, aprenda a aceitá-la. Dá para parar de ser tão infantil?
Clarice, que ainda não tinha dito uma palavra, já fora bombardeada com insultos. Ela apenas o encarou em silêncio e perguntou com uma calma absoluta: — Já terminou?
Essas duas palavras foram como um muro que calou os questionamentos de Ricardo. Ele a olhou com incredulidade, percebendo subitamente que ela parecia ter mudado muito. Até mesmo quando viu Melissa no hospital, ela não dissera nada, e agora nem sequer mencionava o assunto.
Antigamente, sempre que o via com qualquer mulher, Clarice demonstrava preocupação. Ela já chegara a brigar feio com ele por causa de Melissa. Por que agora estava tão serena?
Não
, pensou ele,
com certeza isso é parte do plano dela de se fazer de vítima!
Os olhos de Ricardo brilharam com desdém. — Clarice, você mudou. Antes, embora fosse um pouco irritante, você ainda tinha seu lado adorável. Agora, não sobrou nada.
Clarice continuou encarando-o com indiferença e rebateu: — O que você chama de "adorável" é a minha antiga capacidade de tolerar, sem limites, todos os seus comportamentos desonestos?
— Eu sabia! Você ainda está com raiva! Já se passou mais de uma semana e você ainda guarda esse rancor todo?
Como se tivesse finalmente encontrado a "prova" que procurava, Ricardo recuperou toda a sua arrogância. Clarice, por outro lado, não respondeu mais. Ela baixou a cabeça e voltou a organizar seus desenhos de joias.
Acreditando ter tocado em sua ferida e pensando que ainda a tinha na palma da mão, Ricardo bufou: — Então fique aí com sua raiva. Não pretendo voltar para casa nos próximos dias.
E ele realmente cumpriu o que disse. Ficou uma semana sem aparecer. Clarice adorou a tranquilidade; aproveitou o tempo para, calmamente, terminar de limpar tudo o que precisava ser descartado.
No dia do Festival das Lanternas, a casa, que outrora estava abarrotada de lembranças, agora continha apenas um sofá e uma cadeira suspensa. Por ironia do destino, eram exatamente o mesmo modelo que Melissa havia postado em suas redes sociais.
Como seu celular quebrado ainda não fora substituído — ela planejava aguentar essa última quinzena antes de recomeçar do zero —, Clarice decidiu levar uma pilha de pequenos objetos que havia separado para um bazar de caridade. Para evitar conhecidos, escolheu um parque a dois distritos de distância.
O bazar estava animado quando, de longe, ela avistou três figuras familiares se aproximando.
Melissa fingiu surpresa: — Clarice? O que você está fazendo aqui? O que é tudo isso que está vendendo?
Ricardo franziu a testa, pensando em que tipo de confusão Clarice estava se metendo agora, mas ao olhar para os objetos na banca, suas pupilas se contraíram bruscamente: — Clarice, essas são as nossas coisas! Você está vendendo os nossos pertences?
Luan também reconheceu alguns itens e avançou para pegá-los: — Esse é o meu carrinho de coleção!
Antes que ele pudesse tocá-lo, Clarice segurou sua mão com firmeza e disse com um sorriso gentil: — Deixe-me corrigir uma coisa. Este não é o
seu
carrinho. Este é o carrinho que
eu
comprei.
— Este é o caleidoscópio comemorativo que
eu
comprei, este é o porta-retratos de cristais que
eu
comprei... — Ela listou cada item como quem conhece tesouros preciosos e olhou para Ricardo, suavizando o tom: — E todas essas coisas foram as que vocês desprezaram no passado, dizendo que meu gosto era cafona. Qual o problema de eu vendê-las para caridade agora?
Ricardo sentiu como se não conhecesse mais a mulher à sua frente. Seus olhos pararam em um porta-retratos maior e ele estremeceu: — Esse era o lugar da nossa foto de casamento. Onde está a foto que estava aí dentro?
Clarice seguiu o olhar dele e fingiu estranhamento: — Havia uma foto? Para mim, este porta-retratos sempre esteve vazio.
— Clarice! Não passe dos limites! — gritou Ricardo.
Melissa, percebendo que toda a atenção de Ricardo estava voltada para Clarice, sentiu-se insatisfeita. Com um gesto afetado, ela entrelaçou o braço no de Ricardo e disse à Clarice: — Clarice, não entenda mal. O Ricardo apenas não quer que o casamento de vocês se destrua.
Era impressionante como uma amante podia ser tão petulante. Clarice sentiu até uma ponta de admiração pelo descaramento de Melissa.
— Alguém que realmente não quer que seu casamento se destrua não permitiria que outra mulher segurasse seu braço na frente da própria esposa.
Assim que as palavras foram ditas, Ricardo pareceu ter sido queimado por um brasa e soltou rapidamente o braço de Melissa.
Clarice já estava guardando suas coisas com agilidade. Ela lançou um olhar de repulsa para os dois e disse: — Graças a vocês, meu negócio foi arruinado. Podem continuar com o seu passeio amoroso, eu vou procurar outro lugar.