Às dez da noite, Clarice estava deitada sob as cobertas, enrolando-se o máximo que podia, mas ainda assim não conseguia conter as ondas de calafrio que subiam pelo seu corpo. Sua cabeça pesava, o mundo girava e ela alternava entre febres altas e tremores de frio.
Em algum momento, ela mergulhou em um sono agitado e não soube quanto tempo se passou até despertar novamente.
Cambaleando, Clarice levantou-se para tentar pegar um pouco de água quente. No entanto, suas mãos fraquejaram e a chaleira elétrica caiu com estrondo no chão, respingando água fervente em seus pés e pernas.
A dor aguda a despertou brevemente do torpor. Instintivamente, ela foi ao banheiro para jogar água fria nas queimaduras, mas mal abriu a torneira e o mundo deu voltas novamente. Ela desabou diretamente dentro da banheira.
A última centelha de consciência antes de desmaiar foi um pensamento sombrio:
Será que vou morrer aqui deste jeito?
O destino, porém, ainda teve um pouco de piedade de Clarice. Quando ela acordou no hospital, sentiu uma mistura de alívio e uma estranha euforia por ter "nascido de novo".
Mas a benevolência do destino parou por aí. Pois, logo na porta, ela viu a figura de Ricardo, com o rosto sombrio e parado como uma estátua de gelo. Ele parecia carregar um reservatório de fúria contida.
Ricardo caminhou a passos largos até a beira da cama e, ignorando a palidez cadavérica dela, agarrou-a pelo colarinho do pijama, sacudindo-a com desprezo: — Você ficou louca? Como o seu teatrinho habitual de fazer papel de vítima não funcionou, agora resolveu usar um método tão extremo para chamar minha atenção?
— Cof... cof... — Clarice mal havia recuperado os sentidos e ainda estava debilitada pela febre. Sendo sacudida daquela forma, ela começou a tossir violentamente. Tossiu até que seus lábios perdessem a cor e seus olhos ficassem injetados de sangue.
Ricardo, no entanto, estava convencido de que era uma encenação. — Pare com essa palhaçada! Você pode enganar meus pais, mas a mim você não engana!
Com muito esforço, a tosse cessou. Clarice usou as poucas forças que tinha para afastar as mãos dele e, com o rosto pálido, proferiu cada palavra com clareza cortante: — Eu não estou fazendo cena. Ontem eu caminhei quatro horas debaixo de chuva torrencial do cemitério até em casa. Tive febre e desmaiei por exaustão. Foi um acidente.
Ela fez uma pausa, respirando com dificuldade, antes de concluir: — Se eu pudesse, preferiria que a sua atenção nunca mais caísse sobre mim pelo resto da vida.
Ela já havia sofrido o suficiente por causa dele.
Ricardo congelou por um instante, soltando o colarinho dela com hesitação. — Você... veio a pé? — ele perguntou, parecendo confuso.
Mas que diferença fazia agora se ela tinha vindo a pé ou não? Clarice ajeitou a roupa, deitou-se novamente e puxou o cobertor até o pescoço, fechando os olhos.
No segundo seguinte, Luan entrou correndo no quarto, gritando: — Papai, por que você ainda está perdendo tempo falando com essa bruxa velha? A tia Mel já está esperando faz um tempão!
Ele olhou para Clarice com raiva, como se ela fosse um monstro atrapalhando a felicidade daquela "família de três": — Com tanta tecnologia hoje em dia, você não conseguiu chamar um carro? É óbvio que está fingindo! Eu já vi isso na televisão, você é nojenta!
Ricardo sentiu instintivamente que as palavras de Luan eram cruéis demais, mas, para fugir da culpa que começava a borbulhar em seu peito, preferiu acreditar cegamente no filho. Ele soltou um riso frio: — Clarice, eu realmente te subestimei.
Do lado de fora, Melissa apareceu, apoiando-se no batente da porta com um ar de fragilidade extrema. — Ricardo... talvez seja melhor eu ir embora de táxi sozinha. A Clarice parece estar em um estado tão grave... — Enquanto falava, ela cambaleou para o lado, fingindo um desmaio iminente.
Ricardo correu para ampará-la, com o rosto transbordando preocupação. — Se está tonta, sente-se e espere por mim. Eu só vim dar uma olhada e já vamos embora.
— Humpf — Clarice soltou uma risada curta e amarga. Ele nem sequer tinha ido ao hospital por causa dela.
Melissa continuou com seu teatro: — Não, está tudo bem... é mais importante você cuidar da Clarice... Ah! — Ela soltou um gritinho de surpresa quando Ricardo a pegou no colo.
Antes de sair, ele lançou um olhar frio para a cama: — Pare de fazer esforços inúteis.
Luan seguiu o pai, fazendo caretas e debochando de Clarice enquanto saía.
Uma enfermeira entrou logo em seguida para trocar o soro e comentou com um tom de admiração: — Aqueles eram seu irmão e sua cunhada? Que relação bonita eles têm.
Clarice respondeu com voz plana: — Aquele era o meu marido, o meu filho e a amante dele.
A enfermeira ficou boquiaberta, e sua expressão mudou instantaneamente para uma de indignação: — Ah, eu sabia! Aquela mulher é insuportável. Não tinha nada de errado com ela e exigiu mil exames, agindo como se estivesse morrendo... que fingida!
A mudança brusca no humor da enfermeira fez Clarice se sentir um pouco melhor, e ela esboçou o primeiro sorriso genuíno em quase um ano.
Felizmente, o impacto da queda não fora grave. Após uma semana de observação, o hospital lhe deu alta. No dia de sua saída, ninguém apareceu para buscá-la.
Clarice olhou para o céu azul e as nuvens brancas, sentindo a brisa suave no rosto. Nunca se sentira tão leve. Era como se, subitamente, tivesse recebido a chance de recomeçar a vida sem pesos. Ela caminhou pela avenida arborizada, acelerando o passo até começar a correr levemente. A liberdade, após abandonar o fardo emocional, era indescritível.
Ao chegar em casa e abrir a porta, a chaleira ainda estava caída no chão, um lembrete de quão patética e apressada fora sua saída para a ambulância. E um lembrete maior ainda de que Ricardo não pusera os pés naquela casa nem uma única vez.
Ela não sentiu nada.
Foi até o closet e começou a separar roupas novas, ainda com etiquetas, e bichos de pelúcia. Graças ao vizinho do andar de baixo que chamara o resgate, ela não morrera ali. Como agradecimento, ela doou as roupas novas e utensílios de cozinha que nunca usara — três caixas lotadas — para a família do vizinho, que aceitou de bom grado.
O closet ficou vazio, restando apenas um casaco e poucas trocas de roupa. Ela olhou ao redor e, em uma gaveta escondida, retirou um caderno de esboços. Antes de ser a esposa de Ricardo, Clarice era uma designer de joias promissora e respeitada. Ela havia guardado tudo aquilo por causa dele.
No dia em que partisse, levaria apenas seus sonhos.
Enquanto organizava suas coisas, ouviu subitamente o grito de Ricardo vindo da porta: — Clarice?