Ferido pelas palavras de Clarice, Ricardo advertiu: "Eles também eram seus pais. É pedir demais que você vá sozinha? Você já é bem grandinha para conseguir um táxi."
Antigamente, ele nunca chegaria a esse extremo de negligência, mas agora nem se importava com a segurança dela. Clarice não discutiu. Saiu do carro e bateu a porta com força. Ricardo não hesitou um segundo antes de fazer o retorno e partir, deixando uma nuvem de fumaça no rosto dela.
No mesmo instante, o celular de Clarice vibrou. Melissa enviara uma mensagem vitoriosa: "Vencer você é fácil demais."
As palavras causaram náuseas em Clarice. Ao subir o histórico, viu inúmeras mensagens de assédio e ostentação de Melissa. Clarice nunca respondera antes por estar devastada, mas agora sentia-se livre. Digitou: "Desejo felicidades ao novo casal antecipadamente."
Ela sabia que, assim que o divórcio saísse em um mês, Ricardo se casaria com o seu primeiro amor. O desejo era sincero, assim como o desejo de que a vida de casados deles fosse um desastre.
Melissa, inexplicavelmente irritada, começou a insultá-la. "Sua desavergonhada, se não fosse por você, eu já estaria casada com ele. Você acha que ele te ama? Não se ache tanto. Você sabia? O Luanzinho me diz todo dia que quer que você morra para eu ser a mãe dele!"
Clarice estancou. Ela não sabia dessa última parte. Como uma criança podia ser tão cruel? Mas a tristeza logo se dissipou. Cruel ou não, ele logo deixaria de ser filho dela. Ela colocou o celular no modo não perturbe e seguiu caminho.
Após uma hora de caminhada, chegou ao cemitério. O administrador, que já a conhecia, estranhou vê-la sozinha. Clarice não explicou muito. Pegou as flores e foi até o túmulo. O casal na foto ainda era jovem. Clarice lembrou-se do acidente. No dia em que conheceu Ricardo, ele trouxera Melissa como um protesto silencioso. O pai de Ricardo dirigia, tentando animar o ambiente, enquanto Clarice e Melissa estavam no banco de trás. No momento do impacto com o caminhão, Clarice só teve tempo de puxar Ricardo para longe, mas o ferro retorcido decepou seus dedos anelar e mindinho antes de ela desmaiar.
Ao acordar, Ricardo chorava de ódio e lhe disse: "Vamos nos casar." Melissa desaparecera. Por muito tempo, Ricardo a culpou pela morte dos pais, embora tenham tido dois anos de aparente doçura depois.
Clarice colocou as flores no túmulo e sussurrou: "Pai, mãe, esta é a última vez que os chamo assim. Estou exausta de estar ao lado do Ricardo. Agora que o grande amor dele voltou, ele será feliz. Não se preocupem. Ele não pôde vir hoje, mas eu virei todos os anos."
Ela ficou ali sentada por um tempo. O vento soprou uma pétala de flor em seu rosto. Seriam eles suspirando por ela?
Ao meio-dia, Clarice começou o caminho de volta após uma refeição simples com o administrador. No meio do trajeto, o céu escureceu e começou a chover torrencialmente. Não havia táxis nem árvores para se proteger. Quatro horas depois, ela chegou ao centro da cidade, encharcada e exausta. Através da vitrine de um restaurante, viu Ricardo, Luan e Melissa sentados juntos, rindo como uma família feliz.
Ela, do lado de fora, parecia uma mendiga. Clarice percebeu que Ricardo não ligara uma única vez desde manhã. Ela pegou seu celular, que fora danificado pela água, e tentou ligar. Completou a ligação. Dentro do restaurante, Ricardo olhou para o aparelho com desdém e desligou.
Clarice viu a tela do celular apagar definitivamente. Assim como o coração de Ricardo, não importava o quanto ela tentasse, nunca aqueceria. Ela retirou o chip, jogou o aparelho no lixo e caminhou lentamente em direção à casa que logo deixaria de ser sua.