Na manhã seguinte, Clarice acordou cedo, lavou-se e vestiu um terno preto formal. Olhando-se no espelho, o rosto pálido parecia apropriado para uma visita ao cemitério.
Ao chegar na sala, Luan soltou um estalo de língua desdenhoso. Ele segurava uma tigela de comida inacabada e esbarrou nela de propósito. O caldo sujou toda a sua roupa. "Que sujeira", debochou ele.
Clarice olhou para o filho, outrora tão doce, agora transformado naquela criança sem educação. Sentiu tristeza e pesar. Ela lembrou-se de quando, para conseguir o melhor professor para Luan, enfrentou uma chuva torrencial e teve febre por três dias. Pensou que seus esforços guiariam o filho pelo caminho certo, mas Melissa conseguiu destruir tudo com poucas palavras.
Clarice agarrou Luan antes que ele saísse e ordenou friamente: "Peça desculpas."
Luan, que nunca a vira com aquele olhar, assustou-se. Ao se recuperar, gritou furioso: "Eu não vou te pedir desculpas! Antigamente, bruxas como você eram queimadas vivas!"
"PAFT!"
O som do tapa ecoou na sala. Luan, com a marca vermelha no rosto, olhou para Clarice incrédulo: "Você teve coragem de me bater?"
Ricardo correu para proteger o filho e rugiu: "Por que você bateu no Luanzinho?"
Clarice baixou a mão e respondeu com indiferença: "Sou a mãe dele. É meu dever educá-lo."
"Não preciso que você o eduque!", retrucou Ricardo sem hesitar.
Clarice sorriu internamente. "Não se preocupe, logo não precisará mesmo."
Seu tom era calmo e frio, totalmente diferente do habitual. Ricardo sentiu um calafrio. "O que você quer dizer com isso?"
Ela não respondeu, apenas lembrou: "Temos que ir."
No caminho, Clarice sentou-se no banco de trás, em silêncio absoluto, como uma passageira estranha. Ricardo a observava pelo retrovisor, convencido de que ela estava realmente brava. Normalmente, após uma briga, ela tentaria fazer as pazes. Dessa vez, ela nem notou que eles estavam comendo sobras e até batera no filho.
Lembrando-se de como ela parecia solitária na noite anterior, Ricardo pegou uma caixa no porta-luvas e a jogou para o banco de trás durante um sinal vermelho. Clarice, que descansava de olhos fechados, assustou-se ao ser atingida. "Você ficou louco?"
Após seis anos suportando Ricardo, aquele desrespeito fora a gota d'água.
O rosto de Ricardo escureceu. "É o seu presente de aniversário de casamento e você me pergunta se estou louco?"
"Você manda mensagens sobre cemitério e fica com essa cara de enterro só para eu te pedir desculpas? Pois bem, estou pedindo. O que mais você quer?"
O sinal abriu e ele voltou a dirigir. Clarice olhou pelo retrovisor. Do que ele estava reclamando? Ela nunca pedira desculpas dele. Por que ele sempre impunha seus próprios pensamentos a ela para depois repreendê-la?
Clarice baixou o olhar, sem querer discutir. Abriu a caixa com uma das mãos. Dentro, havia um anel de diamante, brilhante, mas comum. Ela o reconheceu: era um modelo rejeitado de uma marca famosa. Em suma, algo que fora cancelado após o lançamento por falta de qualidade. Enquanto isso, no vídeo de ontem, Melissa usava um modelo exclusivo da mesma marca, símbolo de amor eterno.
Durante cinco anos, os humores de Ricardo não eram por causa do trabalho ou do estresse. Ele não dava presentes porque "não era romântico". Ele simplesmente não a amava.
"Click."
Clarice fechou a caixa e a jogou de volta no banco. Se era algo rejeitado, ela também não queria.
A cinco quilômetros do cemitério, o celular de Ricardo tocou. Ele parou o carro imediatamente, atendendo na frente de Clarice: "Agora? Mas eu estou..."
Seja o que for que disseram do outro lado, o rosto endurecido de Ricardo suavizou. "Tudo bem, estou indo agora."
Clarice cruzou os braços, esperando a desculpa esfarrapada. Como previsto, ele se virou: "Tenho uma emergência na empresa. Vá sozinha ao cemitério."
Clarice não era cega; vira o nome "Mel" na tela. Por causa de uma mulher, ele se recusava a visitar o túmulo dos próprios pais. "Você vai me largar aqui, no meio do nada, para eu ir a pé visitar os seus pais? Ricardo, quem está enterrado ali são seus pais biológicos. Que tipo de emergência em pleno Ano Novo é mais importante que as pessoas que te criaram?"