Três dias após o sequestro, Valentina finalmente apareceu.
— Sinto muito, Pietro. Só recebi a notícia agora. Já mandei investigarem tudo. Fique tranquilo, eu não vou perdoar quem ousou te machucar.
Ao ouvir Valentina fingir ser a salvadora enquanto era a própria carrasca, Pietro sentiu apenas uma dormência profunda. Ele não era um bom ator, então preferiu se esconder sob os lençóis para que ela não visse o ódio estampado em seu rosto.
Nos dias seguintes, Valentina permaneceu ao lado dele sem sequer trocar de roupa, fingindo uma dedicação absoluta. Até a jovem enfermeira comentou, sorrindo:
— Sua namorada é maravilhosa. Acho que só a namorada do Iago se compara a ela.
Notando a dúvida no olhar de Pietro, a enfermeira continuou: — Você não soube? Há alguns dias, o rosto do Iago foi ferido em uma briga. A namorada dele, uma mulher misteriosa e poderosa, alugou um andar inteiro do hospital para ele se recuperar. — Ela olhou para Valentina e murmurou: — Pensando bem, a namorada do Iago se parece um pouco com a sua.
Pietro quase soltou uma risada de desprezo. Como não seriam parecidas? Eram a mesma pessoa! Ele tentou se conter, mas não resistiu e encarou Valentina:
— Diga-me uma coisa... essa namorada misteriosa do Iago não seria você?
A mão de Valentina, que descascava uma tangerina, parou por um instante. — Pietro, não comece. Não invente coisas sem fundamento.
Pietro mordeu o lábio e fixou o olhar nela. — Então me dê seu celular. Quero ver.
Após um breve duelo de olhares, Valentina entregou o aparelho. Sem que ela percebesse, Pietro instalou um software de escuta. Ele havia sofrido demais; a culpada precisava pagar. Antes, ele só queria fugir dela. Agora, não aceitava sair de mãos vazias; ele queria que ela fosse punida.
Após três entradas e saídas do hospital, Pietro finalmente voltou à base da equipe A.Y. Todos os jogadores o cercaram com entusiasmo, como se as brigas anteriores nunca tivessem existido. Ele os observava com frieza, tentando entender qual era o jogo da vez.
— "Dê um doce e ele voltará a trabalhar por nós de bom grado." — A voz de Valentina veio pelo fone de ouvido, através do software espião.
— "Mas, querida, você passou dias no hospital com ele e agora até organizou essa recepção. Está começando a gostar dele de verdade?" — Era a voz de Iago, num tom ciumento e manhoso.
— "Não seja bobo," respondeu Valentina com um suspiro. "Desde aquele acidente de carro onde você me salvou, eu me apaixonei por você à primeira vista. Você é o único homem da minha vida."
Pietro paralisou e levantou-se bruscamente. Quando Valentina sofreu aquele acidente anos atrás, quem a salvou foi
ele
. Quando foi que o herói passou a ser o Iago?
Pietro lembrava-se bem. Na época, ele ainda não fazia parte da A.Y. Ele apenas presenciou o acidente; Valentina estava sufocando com o próprio sangue, à beira da morte. Ninguém tinha coragem de ajudar, mas ele, que conhecia o básico de primeiros socorros, interveio e a estabilizou. Como tinha uma competição importante, partiu assim que a ambulância chegou.
Só hoje Pietro descobriu que seu ato heroico fora usurpado por Iago, e que Valentina o amava por causa dessa mentira. Ele sentiu vontade de correr até ela e gritar a verdade. Mas, quando a encontrou no corredor, as palavras travaram. Tudo aquilo era ridículo demais. O que adiantaria esclarecer agora?
Depois de tudo o que ela fez contra ele, Pietro preferia ver o rosto dela quando descobrisse a verdade no futuro e percebesse o erro fatal que cometeu.
— Nada — respondeu ele, simplesmente.
Valentina não desconfiou. Ela balançou alguns papéis. — Ótimo que te encontrei. Preciso que assine isto. Seu contrato com a A.Y. está vencendo. Elaborei um novo, dê uma olhada.
Pietro baixou os olhos para o documento. Era uma renovação. Sem hesitar, ele pegou a caneta do bolso e assinou seu nome com rapidez e firmeza. Valentina sorriu satisfeita. — Então continue seu trabalho. Não vou te atrapalhar.
Assim que ela se afastou, Pietro passou os dedos pela ponta da caneta, exibindo um sorriso enigmático. Valentina não sabia que aquela caneta continha um componente químico especial: a tinta desapareceria completamente em poucas horas, sem deixar qualquer rastro.
Após assinar o "contrato", Pietro não conseguiu dormir. Saiu para caminhar nos arredores da base. A brisa noturna acalmou seus pensamentos, mas, ao seguir por uma trilha perto do lago, ouviu vozes em uma discussão acalorada.
— Eu não te avisei para não vir me procurar aqui?! — Era Iago.
— Deixe de conversa e me dê dez milhões logo — respondeu um homem desconhecido.
— Eu não tenho tanto dinheiro! Você já gastou tudo o que eu tinha!
— Então peça para sua namorada. Ela não é a herdeira da família Valentina? Ela com certeza tem. Se não pagar, eu conto para ela que você só se aproximou por causa do dinheiro dela!
Pietro viu Iago e o estranho discutindo. Ele tentou se afastar silenciosamente, mas Iago o viu e empalideceu instantaneamente.