《A Promessa Esquecida: Quando a Memória Apaga o Amor》Capítulo 1

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“Lucas vai recuperar a memória em cerca de dez dias, só precisa esperar mais um pouco.” A voz do médico do outro lado da linha soava confiante, garantindo que, desta vez, seria definitivo.

Mas Liana já ouvira aquela mesma promessa seis meses atrás. E, durante todo esse tempo, Lucas continuava sem o menor rastro das lembranças do passado deles.

“Eu não vou mais esperar,” murmurou ela, com o olhar perdido e a voz quase num sussurro.

Ela já havia dado sua palavra aos pais biológicos: em dez dias, estaria na capital para a cerimônia de reconhecimento. Sequestrada por inimigos da família quando tinha apenas cinco anos, levou quase duas décadas para que o destino os unisse novamente.

Desta vez, ao cruzar aquela porta, ela jamais voltaria para esta cidade.

Momentos após desligar o telefone, a porta do quarto foi escancarada com um estrondo.

Lucas invadiu o ambiente, o rosto gélido e o olhar transbordando desprezo. Sem qualquer preâmbulo, disparou: “Liana, é apenas um pouco de sangue para a Yasmin, não vai te tirar a vida! Por que essa resistência agora? Não seja tão egoísta!”

Egoísta?

Mesmo com o coração já calejado e a decisão de partir tomada, Liana sentiu uma dor aguda e dilacerante subir pelo peito. Seus olhos arderam instantaneamente.

Yasmin, a protegida de Lucas, precisava de uma cirurgia cardíaca de emergência, mas o estoque de sangue do tipo raro do hospital estava em nível crítico.

Dias atrás, por consideração a ele, Liana aceitou ser a doadora reserva.

Mas ela sofria de hipoglicemia severa e acabou desmaiando no meio da coleta anterior. Lucas viu tudo com os próprios olhos. Naquele momento, porém, sua única reação foi envolver Yasmin com doçura em seus braços, enquanto ordenava friamente ao médico que não interrompesse a extração, ignorando a palidez cadavérica de Liana.

Ele temia o menor desconforto de Yasmin, mas não se importava se Liana viveria ou morreria naquela maca.

E, ainda assim, aos olhos dele, ela era a egoísta.

Liana engoliu o nó na garganta, lutando contra as lágrimas. “Eu simplesmente não quero mais! Se ela vive ou morre, o que isso tem a ver comigo?”

Aquelas palavras foram como lançar uma tocha em um rastro de gasolina. O olhar de Lucas tornou-se perigoso, como o de um inimigo mortal. “Isso não é uma escolha sua. Hoje você vai para aquele hospital, queira ou não!”

Sem dar tempo para reação, ele a segurou pelo braço com uma força bruta e a arrastou para fora de casa.

No hospital, Liana foi pressionada contra a cadeira de coleta.

O médico, desconfortável com a cena, perguntou se ela estava ali por livre vontade. Antes que ela pudesse abrir a boca, Lucas inclinou-se e sibilou em seu ouvido, com a voz carregada de veneno:

“Não se esqueça que, se a minha família não tivesse te resgatado e permitido que você desfrutasse de todo o luxo que pertencia à minha irmã por todos esses anos, você já estaria morta há muito tempo! Você me deve isso, Liana. Pague sua dívida.”

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Liana paralisou, o corpo ficando rígido. Vinte anos atrás, a família dele perdeu a filha biológica de cinco anos. No mesmo dia fatídico, a mãe de Lucas, em meio ao desespero da perda, encontrou e adotou Liana.

Ela foi o consolo para uma dor insuportável. Mas Lucas, desde então, passou a culpá-la silenciosamente pela ausência da verdadeira irmã.

Após um silêncio que pareceu uma eternidade, Liana soltou uma risada amarga e sem vida.

Tudo bem. Se era uma dívida que ele queria cobrar, ela pagaria até o último centavo de sua alma.

Ela fechou os olhos, sua voz agora num tom de uma serenidade assustadora. “Pode tirar o sangue, doutor. Tudo o que for necessário.”

Quando a agulha fria perfurou sua pele, Liana sentiu o suspiro de alívio de Lucas. Ele estava satisfeito com sua rendição. Uma lágrima solitária escapou e escorreu por seu rosto.

Ela sabia que, naquele instante, Lucas comemorava a vitória de tê-la dobrado e já direcionava toda a sua ansiedade para a sala de cirurgia onde Yasmin entraria.

Jamais passaria pela cabeça dele enxugar aquela lágrima.

Houve um tempo, porém, em que as coisas eram diferentes. Quando ela era criança e tinha febre alta, chorando de medo de agulhas, era ele quem a envolvia num abraço apertado, pedindo ao médico que tivesse cuidado, sofrendo cada picada como se fosse em si mesmo.

Foi ele quem escolheu esquecer que a amava.

Seis meses atrás, Lucas sofreu um grave acidente e a amnésia apagou o homem que ele se tornara. Suas lembranças dela retrocederam ao tempo em que eram apenas "irmãos" por obrigação e ele nutria um ressentimento profundo por ela.

Os dez anos de cumplicidade absoluta após a morte dos pais deles foram varridos como poeira ao vento.

Dois órfãos que tiveram tudo roubado por parentes gananciosos e foram jogados na rua. Eles sobreviveram em um cortiço úmido, dividindo o pouco que tinham para não sucumbir à fome. Naquela época, ela tinha quinze anos e Lucas, dezenove.

No pior momento daquela vida, eles tinham apenas duzentos reais no bolso. Sobreviveram àquele mês porque Liana passou os dias catando recicláveis sob o sol e a chuva, enquanto dividiam uma única tigela de macarrão instantâneo à noite.

Eles foram a única âncora um do outro em um oceano de escuridão. Até que, anos depois, Lucas se tornou um ator de sucesso e a vida finalmente floresceu em ouro.

Contudo, conforme o tempo passava, Liana percebeu que seu sentimento havia mudado de natureza. O amor floresceu sob o disfarce de um vínculo proibido, uma paixão secreta que a consumia por dentro.

Três anos atrás, a mídia o flagrou com uma mulher em clima de intimidade. Liana, devastada pelo ciúme e pela dor, tentou afogar as mágoas no álcool e acabou desabando nos braços dele, chorando copiosamente.

“Lucas, eu não quero ser sua irmã... Por favor, não olhe para outras mulheres... Você não poderia... gostar...”

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Foi o único lampejo de coragem em sua vida marcada pela insegurança. Mas, mesmo trêmula, ela não conseguiu terminar a frase: “gostar de mim”.

O medo de ser rejeitada e perder seu único refúgio, ou de manchar a carreira dele, falava mais alto.

Para sua surpresa, Lucas soltou um longo suspiro naquela noite. “Você sempre foi uma chorona... o que vai ser de você se eu não estiver por perto?” Ele sorriu, um sorriso cheio de uma ternura que ela nunca esqueceria. Então, segurou o rosto dela com delicadeza e a beijou com uma intensidade que tirou seu fôlego.

“Lia, não chore. Não existe outra mulher. Aquilo foi só um plano para entender o que você sentia. Eu te amo, muito mais do que um irmão deveria amar.”

Quanta luz ela sentiu naquela noite, e quanta sombra carregava agora por Lucas ter esquecido cada palavra, cada toque. Vinte anos de história, as memórias mais preciosas da vida dela, tratadas por ele como lixo.

E o golpe final: esse amor era um segredo absoluto. Não havia um único contrato, uma foto pública ou uma testemunha para provar a Lucas que, um dia, ele a amou mais do que a própria vida.

Nos últimos seis meses, ela tentou de tudo. Recontou histórias, levou-o a lugares antigos, mas só recebeu impaciência e desdém.

Ontem mesmo, ele explodiu: “Dá para calar a boca? Sinceramente, não acho que esquecer as coisas sobre você seja uma grande perda.”

Aquelas palavras foram o veredito final. No dia seguinte, ele assumiu publicamente o namoro com Yasmin e a pediu em casamento diante de todos, apenas para que ela se sentisse "segura" antes da cirurgia.

Liana esperou por seis meses como uma sombra, assistindo à intimidade dele com outra. Mas ela nunca imaginou que o homem que prometeu casar-se com ela entregaria a aliança para sua maior inimiga.

Quem guarda as lembranças é quem carrega o fardo da dor.

Por isso, ela não queria mais que ele recuperasse a memória. O Lucas dela já estava morto.

A agulha foi finalmente retirada. A ferida no braço latejava, mas não se comparava ao vazio em seu peito.

Liana olhou fixamente para as costas de Lucas, que já corria em direção ao centro cirúrgico sem olhar para trás.

“Lucas,” ela pensou, com uma calma gélida, “será que algum dia você vai entender o peso do que está jogando fora?”

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