As estações passaram, e três anos se esgotaram desde que Beatriz foi recomendada ao Ministério da Cultura.
Durante esse tempo, ela enfrentou preconceitos e resistências, mas fincou o pé e consolidou seu espaço através de pura competência. O que começou como um estágio de assistente transformou-se em uma posição de confiança: ela agora era a secretária especial da Diretora Rosa.
Dona Rosa, que inicialmente olhava para Beatriz com o ceticismo de quem vê alguém chegando por "indicação", agora não poupava elogios à sua pupila e a levava para onde quer que fosse.
"Bia, você está aqui há três anos. Já pensou em mudar de cargo? Sinto que essa função de assistente está ficando pequena para o seu talento."
Dona Rosa era uma senhora de sessenta e poucos anos, o epítome da rigidez e da disciplina. Ela não se importava com sobrenomes ou contatos; para ela, o que valia era a entrega. Sua sinceridade era cortante, e não era raro ver funcionários mais jovens saindo de sua sala em lágrimas.
Por isso, ela era o terror dos novatos. No entanto, agora ela bebia seu chá calmamente e sorria para Beatriz: "Você já amadureceu o suficiente. Se precisar de uma promoção ou transferência, é só falar. Eu deposito muita fé em você."
Beatriz, que organizava alguns documentos, estancou e balançou a cabeça instintivamente.
"Diretora, eu estou muito bem onde estou."
Ela estava genuinamente satisfeita com sua vida. Embora todos dissessem que Dona Rosa era uma pessoa intragável, Beatriz descobriu nesses três anos que ela era apenas exigente. No fundo, era uma mulher generosa; no último Natal, foi Dona Rosa quem a acolheu em sua própria casa para a ceia.
Ali, Beatriz conheceu um calor humano que nunca experimentara em sua vida passada. Ela se sentia plena: tinha comida, moradia, um salário digno e, acima de tudo, paz. Por isso, quando a diretora sugeriu uma mudança, sua primeira reação foi o medo.
"Eu fiz algo de errado? Posso melhorar, se for o caso..."
Dona Rosa olhou para ela com aquela expressão de "quem quer dar um puxão de orelha": "Sim, você tem algo de errado. Sabe o quê?"
"O quê?!" Beatriz deu um salto, sem saber onde enfiar as mãos de tanto nervosismo.
A diretora levantou-se e deu um peteleco carinhoso naquela "cabeça de vento".
"Você é medrosa demais. Como posso me aposentar tranquila e deixar o meu lugar para você um dia se você não assume sua própria força?"
"Eu quero que você ganhe experiência de liderança, mas olhe só para você... Geralmente é tão firme, mas na frente de um superior vira um passarinho assustado."
Beatriz esquivou-se de leve e segurou o braço da senhora, balançando-o como uma filha faria com a mãe: "É que a senhora impõe muito respeito! Eu gosto de ficar aqui, não quero sair do seu lado."
"Mas você precisa. O General Matos também comentou que gostaria de vê-la em um cargo fixo de carreira; a função de assistente tem um teto muito baixo para o seu futuro. O que você vai fazer quando eu me aposentar? Ficar estagnada aqui?"
Dona Rosa tirou um formulário da gaveta: "Esta é uma transferência para o Ministério das Relações Exteriores. Desta vez, você será a responsável por organizar a apresentação cultural da nossa delegação. Se o desempenho for excelente, você será transferida oficialmente como um talento de elite."
Beatriz pegou o papel, com os olhos subitamente marejados. "Diretora Rosa, eu..."
"Chega, chega de sentimentalismo. O futuro pertence aos jovens!", brincou a diretora, tentando enxotá-la da sala. "E pare de me olhar assim! O jovem Xavier está lá fora esperando por você há um bom tempo. Vocês dois já não são mais crianças, deviam resolver logo essa situação."
Ao ouvir o nome de Xavier, o rosto de Beatriz ferveu em um tom carmim.
"O Coronel Xavier... ele só vem tratar de assuntos de trabalho."
Dona Rosa revirou os olhos com deboche.
"Trabalho? Ele consegue 'missões de trabalho' de Brasília até aqui toda semana só para te ver. Você acha que eu sou boba? Vá logo, não quero ficar sentindo o cheiro de romance no ar, isso me dá azia."
Nesse momento, alguém bateu à porta.
"Assistente Farias, tem alguém procurando pela senhora."
Dona Rosa provocou: "Vá logo, corra!"
Beatriz assentiu timidamente, com o rosto ainda queimando. "Eu volto para terminar de organizar isso mais tarde."
Guardou o formulário de transferência na gaveta e saiu apressada do gabinete. Enquanto caminhava pelo corredor, seu coração batia descompassado. Desde o seu segundo ano na capital, a relação entre ela e Xavier (Xavier Xavier) tinha se tornado cada vez mais ambígua.
No início, Beatriz tentou ignorar, convencendo-se de que não estava ali para viver romances. Mas a persistência de Xavier era tão gentil e, ao mesmo tempo, tão audaciosa, que ela não pôde evitar o balanço do próprio coração. Ela queria focar na carreira, mas seu peito parecia ter vontade própria; bastava saber que ele estava por perto para o ritmo cardíaco acelerar.
Calma! Eu já sei que você gosta dele, pare de pular tanto!
, ela ralhou mentalmente com o próprio coração.
Ignorando os olhares dos colegas, ela correu até a sala de visitas. Ao empurrar a porta, exclamou com expectativa: "Xavier..."
Mas as palavras morreram em sua boca. Ela estacou, paralisada pelo choque.
"Augusto Amaral?! O que você está fazendo aqui?!"