Sem tempo sequer para se despedir da mãe, Augusto Amaral pegou seu paletó e correu para fora de casa. Um turbilhão de ansiedade e preocupação, como nunca sentira antes, dominava seu peito.
Beatriz nunca tinha saído do vilarejo em toda a sua vida. Se ela estava magoada e não voltou para casa, para onde mais poderia ter ido? Pensamentos sombrios cruzaram sua mente, mas ele balançou a cabeça negativamente para afastá-los.
Não pode ser. Eu não posso ter tanto azar assim. Ela foge de casa uma única vez e já é sequestrada por traficantes? Impossível. Ela deve estar escondida em algum lugar.
Com esse pensamento, ele começou a correr pelo vilarejo. Foi até a margem do rio onde costumavam namorar e visitou o antigo "esconderijo secreto" deles. Após caminhar mais de dez quilômetros, desorientado, Augusto chegou ao túmulo da Vovó Helena, a avó de Beatriz.
Ele se lembrou de quando ela dizia, anos atrás, que se algum dia ele a fizesse sofrer, ela viria até o túmulo da avó para "dedurá-lo". A avó era a única parente real dela, a única que a amava de verdade.
Na época, ele até brincou: "Você não tem medo? Aqui é o meio do nada, um lugar isolado." Beatriz, com os olhos marejados, respondeu: "Claro que não. Vovó sempre foi tão boa para mim, por que eu teria medo dela?"
Diante daquela imagem de fragilidade que despertava proteção, ele a abraçou e prometeu que nunca a deixaria ter motivos para reclamar com a avó; prometeu que cuidaria dela por toda a vida.
Mas quantos anos haviam se passado? A "vida inteira" que ele prometera foi curta demais.
Augusto olhou para o túmulo de terra, visivelmente abandonado, e agachou-se lentamente. Com os olhos vermelhos e a voz rouca, perguntou ao vento: "Vovó Helena, a Bia veio visitar a senhora?"
Apenas o som suave da brisa respondeu.
"Ela é mesmo uma neta ingrata... veio te ver e nem limpou as ervas daninhas!", ele murmurou, tentando manter um sorriso forçado. "Ela veio, não veio? Ela não está perdida, certo?"
Augusto não tinha coragem de olhar diretamente para a lápide. Seria por causa de sua negligência momentânea que ele a perdera para sempre? Ele não ousava pensar nisso, nem dizer mais nada. Saiu apressado, sentindo-se desestruturado, e voltou para o centro do vilarejo.
Ao passar pela antiga casa da família Farias, ele parou. O quintal, outrora vibrante, estava em ruínas, tomado pelo mato. Augusto entrou em silêncio. A casa estava coberta de poeira. Olhando para aqueles objetos antigos, as memórias brotavam como água de mina.
Aproximou-se da mesa, abriu uma gaveta e retirou o antigo diário de Beatriz. Ao folhear algumas páginas, a ficha finalmente caiu. Ele percebeu quanta sujeira tinha cometido todos esses anos e quantos anos de espera tinha imposto àquela mulher!
Lágrimas molharam o papel. O olhar de Augusto tornou-se subitamente determinado. Ele a encontraria, nem que tivesse que passar o resto da vida procurando. Ele devia isso a ela!
Nesse exato momento, a porta foi escancarada com um estrondo. Augusto encarou os homens que entravam com total desconfiança: "O que é isso?! O que vocês querem?!"
O líder do grupo não se intimidou: "Augusto Amaral? Você está sendo acusado de crime de bigamia e de acobertar criminosos. Terá que nos acompanhar agora mesmo!"
Augusto lutou contra eles: "O que estão fazendo? Vocês devem estar enganados! Como eu teria cometido um crime? Eu sou o Coronel Amaral do Distrito Militar! Verifiquem seus dados!"
O oficial soltou um riso de desprezo: "É exatamente você que estamos procurando. Como funcionário público e militar, o seu crime é ainda mais grave por conhecer a lei e desrespeitá-la! Vamos! Você achou que ninguém saberia das suas baixezas? E ainda tem a audácia de vir importunar na casa da vítima? Você está louco!"
"Não resista. Sua cúmplice, Isabela Rios, já confessou tudo. Você achou que se escondendo na roça escaparia? Prepare-se para o xadrez!"
Augusto tentou dizer mais alguma coisa, mas a equipe da corregedoria não deu chances. Ele foi levado diretamente para uma sala de interrogatório.
Uma pilha de evidências foi espalhada diante dele. A luz ofuscante da sala deixava seu rosto pálido, sem uma gota de sangue. Augusto lia linha por linha, e sua expressão tornava-se cada vez mais desesperada.
"É um mal-entendido... isso tudo é um erro!"
O interrogador sorriu friamente: "Erro? Que tipo de erro faz um homem saber que a mulher na sua cama não é sua esposa legítima e, ainda assim, manter a farsa?"
"O quê? Você não sabe distinguir quem é Isabela Rios e quem é Beatriz Farias? É assim que você exerce o cargo de Coronel?!"
"Augusto Amaral, aconselho que confesse tudo agora para tentar uma redução de pena. Caso contrário, o seu futuro será muito sombrio."
Augusto tremia da cabeça aos pés. Ele sabia que, se confessasse, sua vida estaria acabada para sempre.