Do outro lado da cidade, Augusto Amaral ainda não sabia que havia sido afastado de suas funções. Após passar o dia inteiro cuidando de Isabela Rios na enfermaria, ele subitamente se lembrou de que sua "verdadeira" esposa estava sozinha e sem assistência.
Carregando uma quentinha com o que havia sobrado do almoço de Isabela, Augusto apressou o passo em direção ao quarto de Beatriz. Seu íntimo borbulhava de irritação e prepotência.
Por que Beatriz não podia simplesmente ter ficado no vilarejo servindo à minha mãe? O que ela veio fazer na capital? Só serve para me dar dor de cabeça!
Ele pensava com amargura:
Eu até simulei minha morte em combate para escapar dela, como é que ainda não consegui me livrar dessa mulher?
No entanto, assim que empurrou a porta, deu de cara com um quarto vazio. Não havia nem sinal de Beatriz Farias.
O pânico começou a se instalar. Ele agarrou uma enfermeira que passava pelo corredor: "Onde está a paciente que estava aqui?"
"A Dona Beatriz já foi embora. Teve alta hoje cedo", respondeu a enfermeira de forma direta.
Augusto ficou ainda mais desnorteado. "Ela estava gravemente ferida! Como pôde ter alta?"
A enfermeira olhou para ele com estranheza: "O que a alta dela tem a ver com o senhor, Coronel? Ela não era apenas a 'prima louca' que o estava perseguindo?"
O rosto de Augusto obscureceu. "Como não tem a ver? Ela é minha..."
As palavras travaram em sua garganta. Todos na vila militar e na capital sabiam que sua esposa era Isabela Rios. Beatriz, oficialmente, não era nada dele.
A angústia corroeu seu peito. Foi a primeira vez que Augusto sentiu um arrependimento real por ter mentido de forma tão desmedida.
Nesse momento, Isabela Rios aproximou-se, caminhando lentamente. "O que houve? A Beatriz está te incomodando de novo?"
Augusto passou a mão pelo cabelo, visivelmente tenso. "A Beatriz sumiu."
Um brilho de satisfação cruzou o olhar de Isabela, mas ela reprimiu a alegria e fingiu preocupação: "Para onde uma mulher como ela iria? Ela não conhece nada aqui em Brasília, só sabe nos dar trabalho."
Ouvindo isso, a preocupação de Augusto aumentou. A capital era um labirinto perigoso para alguém do interior; Beatriz era ingênua, poderia facilmente ser enganada ou sequestrada.
Em meio ao nervosismo, ele se virou para sair e procurá-la. Isabela, porém, segurou seu braço: "Não se preocupe, Augusto. Ela é adulta, não vai se perder. Provavelmente pegou o primeiro ônibus de volta para a roça."
"Aquela mulher é um problema. Saiu correndo sem nem olhar para o filho. Uma mulher deveria estar em casa servindo ao marido, e ela nem do Thiago cuidou."
"Ficou alguns dias aqui na capital e já fez um escândalo que a vila inteira está comentando. Que vergonha para a família Amaral! Gente do interior realmente não tem classe."
Augusto parou e olhou para ela com frieza. O tom de Isabela o incomodou profundamente. "Por acaso nós dois também não viemos do interior? O que te faz pensar que é tão superior?"
Isabela percebeu que falou demais e tentou consertar: "Eu não quis dizer isso... Só quis dizer que ela não sabe se comportar, eu..."
"Chega!", rosnou Augusto. "Fique aí descansando. Eu vou encontrá-la!"
Ele saiu às pressas, sem olhar para trás. Isabela observou sua partida com os olhos faiscando de ciúmes.
Beatriz Farias!
Eu e o Augusto somos os que passamos mais tempo juntos, somos o par perfeito! Eu não vou entregar o meu homem para você!
Isabela bateu o pé, furiosa. Pensando no segredo da identidade roubada, um plano sinistro começou a tomar forma em sua mente. Ela jamais permitiria que Beatriz permanecesse na capital; se ficasse, a farsa seria descoberta cedo ou tarde.
Decidida, ela desceu até o pátio e foi em direção a um
Orelhão
(telefone público).
"Pai? É a Isabela. A Beatriz Farias apareceu na capital. Se você não quiser ficar sem dinheiro para suas apostas, dê um jeito nela para mim!"