O inverno rigoroso se dissipou, dando lugar ao calor suave da primavera.
A família Cavalcanti recebeu notícias de seu advogado na China.
Após várias instâncias, apelações da defesa e o julgamento final, o crime de incitação de Isadora Menezes foi confirmado, e ela foi legalmente condenada à prisão.
Para a vítima, a punição merecida dos culpados foi, sem dúvida, o melhor consolo. Por coincidência, esse dia também era o aniversário do Sr. Cavalcanti.
A Sra. Cavalcanti cozinhou um banquete, e os três ergueram seus brindes em celebração.
Já fazia quase meio ano que viviam na Espanha, e Cecília estava totalmente adaptada.
Embora ainda houvesse desafios, descobrir coisas interessantes em sua nova jornada tornara-se um prazer constante. Ela fizera novos amigos e, aos poucos, encontrara sua verdadeira paixão.
Nesse dia especial, ela anunciou com alegria uma decisão importante para seus pais:
— Pai, mãe, eu decidi. Vou montar uma banda com uns amigos. Serei a guitarrista e já terminamos nossa primeira composição original. Nossa estreia será na semana que vem e, em nome de todos da banda, convido vocês formalmente para estarem na plateia!
O Sr. Cavalcanti, vindo de uma linhagem de músicos, ficou extremamente emocionado ao ver a filha seguir esse caminho:
— Que maravilha! Ceci, se tiver qualquer dificuldade na composição, basta pedir. Eu te ensinarei tudo o que sei e apoiarei seu sonho com todas as minhas forças!
A Sra. Cavalcanti aplaudiu, com os olhos brilhando de orgulho:
— Seu pai sempre quis que você seguisse os passos dele, mas pensávamos que você era jovem e tinha infinitas possibilidades. Não queríamos te prender a regras e tradições, por isso nunca tocamos no assunto. Agora que você escolheu esse caminho por vontade própria, vá em frente sem medo. Nós seremos sempre o seu porto seguro!
Sentir a confiança e o apoio da família era tudo o que Cecília precisava. Nas semanas seguintes, ela praticou arduamente até a madrugada todos os dias.
Na véspera do show, para garantir que estaria no seu melhor estado, ela voltou para casa cedo.
Ao entardecer, as nuvens no horizonte estavam tingidas de cores vibrantes e a brisa soprava suave.
Ela desceu do carro com a guitarra nas costas e, ao levantar a cabeça, deparou-se inesperadamente com alguém que não via há muito tempo.
Em dois meses, Ricardo Almeida havia definhado ainda mais.
Estava tão magro que as órbitas dos olhos pareciam encovadas e seu semblante estava sombrio, como se estivesse sob uma nuvem eterna.
À primeira vista, Cecília sequer o reconheceu; só percebeu quem era ao ouvir sua voz:
— Ceci... quanto tempo. Como você está?
Assim que as palavras saíram, Ricardo percebeu o quão inadequadas soavam.
O rosto à sua frente, vibrante e com o brilho de um sorriso nos olhos, era idêntico ao da Cecília de dezoito anos.
Ela estava ótima. Diferente dele, que vivia afundado em um mar de culpa e arrependimento sem fim.
E a realidade era exatamente essa. O olhar que Cecília dirigiu a ele já não continha a frieza deliberada ou a indiferença forçada de antes.
O que restava era apenas a calma e a serenidade de quem olha para um estranho.
Ela realmente havia deixado tudo para trás — o amor, o ódio, as mágoas e as fúrias eram agora coisas do passado.
— Estou muito bem — respondeu ela de forma simplória.
Vendo que ela ia partir novamente, Ricardo, em um gesto de desespero, ergueu as cartas preciosas diante dela:
— Ceci, eu encontrei as cartas que você me escreveu na adolescência... naquela época você...
Ao ver aqueles papéis levemente amarelados pelo tempo, as memórias seladas de Cecília oscilaram por um breve instante.
Mas, após um momento de surpresa, ela usou apenas uma frase para selar sua posição:
— O passado é o passado. O agora é o agora.
— Mas você disse que, se eu tivesse um pingo de carinho por você, você me esperaria para sempre! Agora eu só tenho você no meu coração... me dê só mais uma chance, por favor! — A voz de Ricardo embargou ao final.
Cecília não disse nada. Ela apenas pegou todas as cartas de suas mãos.
Então, sob o olhar incrédulo dele, rasgou pessoalmente aquelas cartas repletas de memórias em pedaços miúdos.
— Pronto. Agora tudo foi zerado. Não temos mais nenhuma conexão. Por favor, não volte a me procurar ou me incomodar.
Ela abriu as mãos, e os fragmentos de papel voaram como flocos de neve, desaparecendo no vento em um instante.
Sem olhar para a expressão dele, Cecília caminhou decidida para dentro de casa.
Após a porta se fechar, o crepúsculo escureceu e as luzes do jardim se acenderam uma a uma.
A luz quente iluminava as flores de begônia em plena floração, que balançavam suavemente com a brisa noturna.
Da sala, vinha o som suave de um piano. Ao ouvir o ritmo alegre, os passos de Cecília tornaram-se ainda mais leves.
— Chegou, querida? Como estão os preparativos para o show de amanhã? — perguntou a Sra. Cavalcanti com doçura.
Cecília largou a guitarra, aproximou-se dos pais e respondeu com entusiasmo:
— Aguardem e verão!
Ela estava pronta para brilhar em seu novo palco.
Pronta para abraçar o futuro radiante que a esperava.
FIM