Na manhã seguinte, a família Cavalcanti preparou as malas com a intenção de ir esquiar. Cecília sentiu um alívio ao não ver Ricardo na porta de casa; ela empurrou sua mala em direção ao porta-malas do carro com leveza.
Assim que guardou seus pertences, ouviu o Sr. Cavalcanti exclamar:
— O que é isso aqui? Ceci, algum vizinho esqueceu o presente de aniversário na nossa porta?
Ao virar-se e ver a caixa familiar, Cecília franziu levemente o cenho. Ela caminhou apressadamente, pegou a caixa e a entregou ao governante da casa, enviando em seguida o endereço da família Almeida no Brasil e instruindo-o a despachá-la de volta para o país de origem.
O Sr. e a Sra. Cavalcanti ficaram ainda mais curiosos e passaram o trajeto inteiro perguntando quem havia enviado o presente. Vendo que não conseguiria sustentar uma mentira, Cecília acabou confessando a verdade e aproveitou para contar sobre as mensagens de felicitação que recebera do Tio e da Tia Almeida no dia anterior.
O interior do carro mergulhou em silêncio por um momento, até que o Sr. Cavalcanti assentiu pesadamente:
— Eu e sua mãe também estávamos pensando em como lidar com a família Almeida depois de tudo isso. Embora seja um assunto de vocês, jovens, você é nossa filha e, por direito e razão, devemos estar firmemente ao seu lado. Tínhamos decidido que, se você optasse por cortar relações com eles, respeitaríamos sua vontade; afinal, agora estamos a milhares de quilômetros de distância.
— Mas, já que você refletiu e decidiu traçar uma linha apenas com o Ricardo, nós entendemos seu lado. Eles são, afinal, seus mais velhos; não guardar rancor de inocentes mostra que você tem maturidade. Seu pai e eu estamos orgulhosos.
Aquela foi a primeira vez, desde que tudo veio à tona, que a família se sentou para conversar sobre o assunto com calma. Sentir o apoio incondicional dos pais trouxe um calor reconfortante ao coração de Cecília. Ela se aninhou nos braços da mãe e começou a falar sobre o roteiro da viagem, retomando o tom alegre.
A família recuperou o bom humor e seguiu para a estação de esqui. Por estar fora de prática há muito tempo, Cecília levou vários tombos logo nas primeiras descidas. Embora tenha recuperado a habilidade aos poucos, ao final do dia, sentia dores incômodas nas pernas.
Ao chegar ao hotel e ver seus joelhos roxos e inchados, ela soltou um ganido de dor e imediatamente procurou por farmácias próximas no celular. O ponto de atendimento médico mais próximo ficava a mais de cinquenta quilômetros.
Olhando para a distância e para o céu escuro lá fora, ela ficou hesitante. Após ponderar, decidiu comprar os remédios apenas no dia seguinte; para aquela noite, usaria alguns ovos quentes para fazer compressas.
Depois de trocar de roupa, Cecília saiu do quarto mancando levemente, em direção ao restaurante. O elevador parou exatamente no seu andar. Ao ouvir o sinal sonoro, ela levantou o olhar e seus olhos encontraram um par de orbes conhecidos.
Era Ricardo Almeida, novamente. No instante em que o viu, o rosto de Cecília gelou:
— Você está me perseguindo.
Não era uma pergunta, mas uma acusação. Vendo que ela estava brava, Ricardo entrou em pânico e começou a explicar de forma desconexa:
— Ceci, eu só... eu estava preocupado com você...
— Preocupado? Meus pais estão comigo, por que você estaria preocupado? Além disso, que direito você tem de se preocupar comigo? Não tente romantizar um comportamento de perseguição.
Ricardo ficou sem palavras, engasgado. Quando ela entrou no elevador, ele a seguiu apressadamente.
— Eu errei, Ceci, não fique brava. Eu vi que você se machucou na pista de esqui, então fui especificamente comprar remédios para você. Não brinque com a sua saúde, por favor.
Ouvir aquilo vindo de Ricardo soou como uma piada para Cecília. A cicatriz em sua testa daquele acidente de carro ainda era visível; o corte em seu braço causado pelo lustre tinha dez centímetros; os calos em seus calcanhares, que sangraram por causa de centenas de sapatos de salto alto, ainda estavam lá.
Por causa dele, ela sofrera inúmeras feridas físicas e emocionais, e ele nunca dissera uma única palavra de conforto, permanecendo sempre indiferente. Agora, por causa de um machucado leve que sequer sangrava, ele aparecia fingindo preocupação e ostentando um afeto profundo.
Ela sequer olhou para a sacola que ele estendia. Assim que a porta do elevador se abriu, saiu caminhando decidida. Aquela atitude de total indiferença feriu o peito de Ricardo, mas ele não desistiu, seguindo-a de perto.
Ao vê-la pedir alguns ovos cozidos no balcão, ele adivinhou a intenção dela e seu tom tornou-se mais ansioso:
— Ceci, eu comprei remédios de verdade. Por que você se recusa a aceitar minha gentileza? Precisa mesmo descontar sua raiva em mim dessa forma?
Cecília soltou uma risada leve, com um olhar de absoluta determinação:
— Descontar raiva? Nós não temos relacionamento nenhum, por que eu gastaria minha raiva com você? Eu apenas, puramente, não quero ter nenhum tipo de contato com você.