Havia muito tempo que Cecília não se permitia tamanha liberdade. Naquela festa do pijama, ela acabou bebendo várias taças de vinho. Após uma intensa guerra de travesseiros, seu ânimo atingiu o auge; ela estava tão eufórica que sentia vontade de cumprimentar até um gato de rua que passasse.
Esse estado de alegria estendeu-se até o fim da festa. Depois de acompanhar os dois últimos vizinhos — que mal conseguiam parar em pé de tão bêbados — até suas casas, ela voltou caminhando para casa cantarolando.
De longe, avistou uma silhueta borrada parada à porta, segurando uma caixa.
Tão tarde assim, com o meu aniversário já terminando, quem mais viria?
Ao se aproximar e reconhecer o rosto, o sorriso de Cecília desapareceu instantaneamente, e seu tom de voz tornou-se gélido:
— O que você está fazendo aqui?
Ao captar a mudança brusca no humor dela, um brilho de dor atravessou os olhos de Ricardo. Sua voz soou rouca:
— Ceci... feliz aniversário.
Cecília não respondeu. Caminhou em direção à porta sem desviar o olhar, destrancou a fechadura e fez menção de entrar. Ricardo, achando que ela não o ouvira, chamou-a novamente:
— Ceci, feliz aniversário. Este é o presente que preparei para você.
O tom dele foi alto o suficiente para que a Sra. Cavalcanti, dentro da casa, ouvisse e gritasse de longe:
— Quem é, Ceci? É você que chegou?
Não querendo que seus pais soubessem da presença de Ricardo, ela respondeu apressadamente:
— Sou eu, mãe! Só estou pegando um pouco de ar fresco, já entro.
Dito isso, ela se virou para encarar Ricardo uma última vez, sendo curta e grossa:
— Eu não preciso de nada vindo de você.
O brilho nos olhos de Ricardo extinguiu-se gradualmente. Mesmo assim, ele forçou um sorriso amargo e continuou insistindo:
— Eu sei que você não quer me ver. Mas eu prometi no passado que prepararia um presente para cada um dos seus aniversários. Não quero quebrar minha promessa, Ceci... por favor, aceite.
Enquanto falava, ele abriu a caixa. Ao ver o colar de pedras preciosas, deslumbrante e magnífico, Cecília permaneceu em silêncio por um longo tempo.
No seu aniversário de dezesseis anos, seus pais lhe deram um colar. Ricardo, ao vê-lo, comentara surpreso que sua família possuía uma joia de herança com um design muito semelhante. Para provar, ele chegara a ir em casa buscar a peça e, com um ar de superioridade, dissera a ela na época:
— Viu como o da minha família é muito mais bonito que o seu? Mas vou te avisar: minha mãe pretende dar isso para a futura nora, então contente-se apenas em olhar.
Naquela época, Ricardo vivia com o nome de Isadora nos lábios. Cecília acreditou que ele estava insinuando que jamais a amaria, que não havia possibilidade de ficarem juntos. Aqueles sentimentos que ela ainda não tivera coragem de expressar acabaram enterrados no fundo do coração.
Mesmo depois, quando passaram a dividir a mesma cama e ela ouviu tantas palavras sedutoras e sentiu seu coração disparar inúmeras vezes, ela nunca ousou confessar que o amava há anos. Ela nunca esqueceu o sorriso desdenhoso no rosto dele ao erguer aquele colar, nem o tom de absoluta certeza em sua voz.
Por isso, ver aquela joia novamente trazia uma sensação de estranhamento. Havia lembranças do passado, sim, mas já não restava nenhuma faísca de emoção.
Ela recuou alguns passos, aumentando a distância entre eles. Sua voz era clara e suave, porém inabalável:
— Pare de fazer essas coisas inúteis, Ricardo. Nós terminamos há muito tempo. Este colar — e qualquer outra coisa que você tente me dar no futuro — eu não aceitarei jamais.
Terminada a frase, ela se virou e entrou em casa sem olhar para trás. O vento frio do outono soprou, fazendo Ricardo estremecer. Ele observou a silhueta dela desaparecer e sentiu como se algo estivesse sendo arrancado de seu corpo.
Toda a frustração e a dor reprimidas por tanto tempo finalmente desmoronaram e transbordaram:
— O que eu preciso fazer para você me perdoar?! Estivemos juntos por mais de vinte anos, você vai mesmo cortar relações comigo de forma tão drástica?
— Ceci! Não importa quantas palavras cruéis você diga, eu nunca vou desistir! Vou provar que só existe você no meu coração. Nesta vida, tem que ser você!
Ele gritou até a voz falhar. Mas Cecília não olhou para trás nem por um segundo.