De volta ao hotel, os três membros da família Cavalcanti permaneceram sentados na sala por um longo tempo, em um silêncio compartilhado. Nos braços de sua mãe, o coração de Cecília foi se acalmando gradualmente.
Sabendo que seus pais estavam profundamente preocupados, e para tranquilizá-los, ela pediu um jantar e, com um sorriso, tomou a iniciativa de confortá-los:
— Pai, mãe, tudo isso já passou. Eu realmente superei. Por favor, não fiquem com essas fisionomias tristes, está bem?
Vendo o quanto ela era madura e compreensiva, o casal acariciou as mãos da filha, com os olhos transbordando compaixão.
— Ceci, já que você diz que superou, eu não quero te pressionar com perguntas para não te fazer reviver memórias dolorosas. Mas eu preciso que você me diga a verdade: além do que já sabemos, que outras humilhações você sofreu enquanto estava com o Ricardo? — perguntou a Sra. Cavalcanti.
Cecília hesitou por um momento. Ela relembrou os altos e baixos de todos esses anos e os eventos que precederam sua partida de Xangai, sem saber por onde começar. A maior parte de sua mágoa vinha do desamparo e da hesitação ao descobrir que Ricardo estava brincando com seus sentimentos. E sentimentos são coisas nebulosas, impossíveis de serem julgadas apenas como certas ou erradas.
Ela ponderou por muito tempo e, finalmente, concluiu que havia um episódio que realmente exigia um desfecho legal. Então, ela contou a eles o que havia acontecido na boate, na noite anterior à sua partida.
Ao ouvir o relato, o Sr. Cavalcanti bateu na mesa, furioso, enquanto a Sra. Cavalcanti empalidecia de pavor retroativo. O casal não suportou tamanha afronta e, imediatamente, comprou passagens de volta para a China.
— Incitação à tentativa de estupro é crime! Ceci, fique tranquila. Nós não vamos deixar impunes aqueles que tentaram te ferir — declarou o pai.
Após uma noite de descanso, a primeira atitude da família Cavalcanti ao chegar em Xangai foi ir até a boate para recuperar as imagens das câmeras de segurança e, em seguida, dirigir-se à delegacia para registrar a ocorrência. Com as provas contundentes em mãos, a polícia deteve todos os envolvidos no mesmo dia para interrogatório.
A princípio, Isadora não entendia o que estava acontecendo, mas ao ver Cecília na delegacia, seu rosto perdeu a cor. Antes mesmo do interrogatório oficial começar, ela correu em direção a Cecília, tentando uma tática de intimidação por puro nervosismo.
— Você não tinha imigrado? O que significa você aparecer aqui agora?
— Significa que vim ajustar as contas. Você sabe muito bem o que fez, não sabe? — respondeu Cecília.
Um lampejo de pânico cruzou o rosto de Isadora, mas ela continuou a negar desesperadamente:
— Eu não fiz nada! Com que direito você me calunia assim?
Cecília não tinha paciência para discussões inúteis.
— Se é calúnia ou não, as imagens das câmeras de segurança dirão. Não cabe a você definir a natureza do que aconteceu.
Não demorou para que Isadora fosse confrontada com os vídeos nítidos, que a fizeram recordar cada detalhe daquela noite. Ao ouvir dos policiais que seria processada, ela perdeu completamente a pose arrogante e começou a pedir desculpas.
— Me desculpe... Naquela noite, eu estava cega de ciúmes, não estava raciocinando direito e acabei cometendo um erro. De qualquer forma, nada de grave aconteceu com você, então por que não deixamos isso para lá?
Ao ouvir aquilo, Cecília soltou uma risada gélida. Naquela época, ela estava tão devastada pelos acontecimentos sucessivos que só queria fugir de Xangai, e não teve tempo de lidar com o crime.
"Nada de grave"? Se ela não tivesse alcançado aquele cinzeiro de cristal, quem poderia garantir que ela sairia viva daquela boate? Diante de tamanha gravidade, Isadora não demonstrava nenhum remorso real, apenas queria minimizar as consequências. Cecília jamais permitiria que isso acontecesse.
— Guarde essas palavras para o tribunal. Eu irei até o fim com este processo.
Essa frase jogou Isadora no abismo. Ao pensar na possibilidade de ser condenada, ser presa e ter seu futuro brilhante destruído, ela perdeu o juízo e passou a implorar ao Sr. Cavalcanti.
— Professor Cavalcanti, eu imploro, tenha piedade por consideração ao nosso passado! O senhor sabe o quanto eu lutei para chegar onde estou. Por favor, seja generoso e me dê mais uma chance! Eu imploro!
Diante daquela que fora uma de suas alunas mais promissoras chorando e implorando aos seus pés, o Sr. Cavalcanti permaneceu impassível. Ele apenas disse uma frase:
— Você é a minha maior decepção!