Na manhã seguinte, assim que Cecília desceu as escadas, deparou-se com Ricardo. Ele estava sentado no sofá com uma expressão sombria e um tom de voz rígido.
— Cecília Cavalcanti!
Cecília percebeu imediatamente que ele estava de péssimo humor. No entanto, ela não tinha a menor intenção de mimá-lo ou acalmá-lo como fazia antes; sua atitude foi, no máximo, indiferente.
— Ah, bom dia.
Ela pegou sua bolsa e continuou, sem olhar para ele:
— Estou de saída para um encontro com meu namorado, então não poderei te dar atenção. Sinta-se à vontade.
A fúria que Ricardo vinha remoendo há dias explodiu instantaneamente. Ele se levantou num salto e agarrou o pulso dela, seus olhos nublados por uma névoa de raiva.
— Que história é essa de namorado? De onde ele surgiu?
Cecília não respondeu. Ela sustentou o olhar dele sem demonstrar um pingo de medo. O fogo no peito de Ricardo ardeu ainda mais forte e ele, inconscientemente, apertou o pulso dela com mais força.
— Ficou muda? Fala!
Cecília tentou se desvencilhar da mão dele, que já deixava marcas avermelhadas em sua pele. Sua voz permanecia gélida:
— O que isso te importa? Você não acha que está querendo controlar demais a minha vida?
Antes que a briga escalasse, a Sra. Cavalcanti desceu as escadas e interveio, afastando os dois.
— Ora, o que é isso? Essa menina está apenas implicando com você, Ricardo. Ela anda tão ocupada ultimamente que não teria tempo nem para respirar, quanto mais para arrumar um namorado. Se ela for namorar, será daqui a algum tempo. Vocês cresceram juntos, não briguem por bobagem.
Diante da presença da mais velha, ambos contiveram o temperamento e se sentaram. Assim que a Sra. Cavalcanti saiu de casa, Ricardo percebeu que tinha passado dos limites. Com a razão voltando ao lugar, ele franziu o cenho ao lembrar das palavras da vizinha.
A tia disse que ela anda "ocupada"? O que está acontecendo? Por que ela teria que esperar "algum tempo" para namorar?
Sem pistas, ele voltou-se para Cecília:
— Então você estava mentindo para mim?
Cecília lançou-lhe um olhar fugaz e sentou-se em um canto afastado.
— Você quer alguma coisa?
Percebendo que ela estava mudando de assunto, Ricardo relaxou um pouco, achando que era apenas uma tática para provocá-lo. Ele então foi direto ao ponto:
— Por que você não vai ao meu aniversário? Eu enviei o convite.
— Estou ocupada. Não tenho tempo.
Ao ouvi-la ser tão fria, a irritação de Ricardo voltou a subir e ele aumentou o tom de voz sem perceber:
— Ocupada com o quê? O que pode ser mais importante do que o meu aniversário? Nos outros anos, você não era a pessoa que mais ansiava por essa comemoração?
Cecília tomou um gole de água, sua voz sem qualquer oscilação emocional:
— As coisas mudaram, Ricardo. Agora você tem uma namorada. Esse tipo de cobrança você deve fazer à Isadora, não a mim, que sou apenas uma estranha.
Por algum motivo, ouvir a palavra "estranha" causou um desconforto profundo no peito de Ricardo. Ele cruzou as pernas e entrelaçou as mãos, tentando manter a autoridade.
— Eu não quero saber. Este ano você tem que ir. Você se lembra de que, há alguns anos, me prometeu realizar três desejos? O primeiro foi tricotar um cachecol, o segundo foi me acompanhar naquela escalada na neve... Ambos já foram cumpridos. Agora, eu vou usar o meu terceiro desejo: você é obrigada a comparecer à minha festa de aniversário.
Desta vez, Cecília não retrucou. Ela apenas baixou a cabeça. Esse silêncio incomodou Ricardo ainda mais, tornando sua voz mais dura:
— Ou você já esqueceu o motivo de ter me prometido esses desejos?
Cecília se lembrava perfeitamente.
Três anos atrás, eles foram à praia e foram pegos por uma maré traiçoeira. Ela teve uma cãibra na perna e foi arrastada para o mar profundo. Ricardo, sem pensar duas vezes e arriscando a própria vida, mergulhou para resgatá-la. Ele conseguiu levá-la à areia, mas ficou tão exausto que quase se afogou no processo.
Ela quase desmaiou de tanto chorar à beira do leito hospitalar dele, chegando a pensar que não suportaria viver se ele morresse. Quando ele acordou, enxugou as lágrimas dela com uma doçura infinita.
— Chorando tanto assim? Quem não soubesse, diria que eu bati as botas — brincou ele na época.
— Eu estou morrendo de preocupação e você fica dizendo essas coisas agourentas! — Cecília deu um tapinha nele, irritada, enquanto ele pedia clemência entre risos e carinhos.
— Tudo bem, tudo bem. Se você está com tanta pena de mim, então me prometa realizar três desejos e ficaremos quites.
Lembrando do passado, Cecília perdeu a voz. O quarto mergulhou em um silêncio prolongado até que ela finalmente deu sua resposta:
— Está bem. Assim que eu cumprir esse terceiro desejo...
O toque do telefone de Ricardo interrompeu a conversa. Ele atendeu enquanto se levantava para sair.
— Ótimo que aceitou. Amanhã, você tem que estar lá. Sem falta.
Observando a silhueta dele desaparecer pela porta, Cecília completou a frase que ficou suspensa no ar:
— ... nós não teremos mais nenhum contato.