《Ela Foi Embora, e o Amanhã Parou》Capítulo 5

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O Sr. e a Sra. Almeida estavam prestes a abrir a boca quando Cecília se antecipou:

— Ninguém. Você ouviu mal.

Os dois mais velhos lançaram-lhe um olhar de estranhamento. Ricardo, sem notar o clima pesado entre os pais, segurou Cecília pelo braço e a conduziu até o carro.

— Já que você apareceu, imagino que a conversa tenha acabado, certo? Ótimo. Venha comigo a um lugar.

O trajeto foi marcado por um silêncio absoluto. Quando o carro parou, Cecília percebeu que ele a havia levado a uma luxuosa loja de grife. Ele começou a apontar para uma infinidade de roupas, sapatos e bolsas, ordenando que as vendedoras trouxessem tudo para ela provar, uma a uma.

Ela franziu o cenho, confusa e exausta:

— Para que tudo isso? Por que eu tenho que provar?

Ricardo a empurrou em direção ao provador com um tom autoritário:

— Apenas prove. Não discuta.

Antes que Cecília pudesse protestar novamente, as vendedoras já haviam fechado a porta e começado a abrir as caixas. A cada conjunto que ela vestia, Ricardo tirava uma foto e, logo em seguida, ela era empurrada de volta para o provador.

O ciclo se repetiu dezenas de vezes. Cecília provou mais de cem peças; suas forças estavam no fim e seus pés sangravam devido ao atrito dos saltos altos. Finalmente, ela afastou a vendedora e, caminhando com dificuldade, aproximou-se de Ricardo.

— Eu não preciso que você me compre nada disso para se desculpar... — começou ela, com a voz grave.

— Com exceção daquele vestido bordô, embale tudo e entregue para a senhorita Isadora Menezes, na mansão da Montanha das Nuvens — interrompeu Ricardo, dirigindo-se à gerente.

As palavras de Cecília morreram em sua garganta. Ela observou o movimento decidido dele ao passar o cartão de crédito e perguntou com a voz rouca:

— Você me trouxe aqui para provar tudo isso... só para dar de presente para a sua namorada?

Ricardo assentiu com indiferença, um leve sorriso brincando em seus lábios.

— Exato. Queria dar uns mimos para ela, mas tinha medo de não acertar no gosto ou no tamanho. Como vocês têm biotipos parecidos, usar você como modelo foi a escolha perfeita. Não tem erro.

Ele guardou o cartão e continuou, sem olhar para ela:

— Agora vamos à confeitaria, à joalheria e à loja de cosméticos no andar de cima. Quero que você prove os doces e teste os produtos para mim. Para a Isa, eu só aceito o que for de melhor qualidade.

Ao ouvir aquele roteiro planejado sem o seu consentimento, Cecília não conseguiu mais conter a fúria que queimava em seu peito.

— Ricardo Almeida! Eu não sou um objeto para você usar e bajular a sua namorada!

Ricardo, que nunca a vira perder a paciência daquela forma, ergueu o rosto surpreso e deparou-se com os olhos dela injetados e marejados.

— Você tem noção? Eu nunca te vi como uma "parceira" casual. Quando eu te abraçava, quando te beijava... até quando íamos para a cama... eu estava falando sério! Você tem todo o direito de não me amar, mas não tem o direito de me humilhar desse jeito!

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Sua voz falhou em um soluço trêmulo. Ricardo ficou estático, uma mistura complexa de emoções atravessando seu rosto. Ele tentou formular uma explicação, mas Cecília já havia dado as costas e partido.

Observando aquela silhueta pequena ser engolida pela multidão do shopping, os olhos de Ricardo oscilaram por um segundo. Mas, logo em seguida, sua expressão voltou à frieza habitual.

Ao chegar em casa, Cecília pegou suas malas e começou a organizar seus pertences. Durante o jantar, ela ouvia esporadicamente os pais comentarem sobre o que acontecia na casa vizinha.

— Soube que o Ricardo fechou o parque de diversões por três dias para comemorar o aniversário da Isadora — comentou o Sr. Cavalcanti. — Dizem que as rosas vieram de jatinho da Europa. Ele realmente não está medindo esforços.

— E parece que ele a levou para conhecer o patriarca dos Almeida há dois dias — acrescentou a mãe. — Ele comprou do próprio bolso algumas antiguidades raras para que a Isadora entregasse como se fosse presente dela. O velho ficou encantado, não para de elogiar a moça.

Sempre que o assunto era a família Almeida, Cecília permanecia em silêncio. Embora seu coração ainda sentisse um leve tremor, a dor aguda havia desaparecido. Ela se isolou do mundo exterior, recusando todos os convites para festas ou jantares onde pudesse encontrar Ricardo.

Em algumas madrugadas, Ricardo, embriagado, enviava mensagens fingindo que nada havia acontecido, pedindo que ela fosse buscá-lo. Ela nunca respondeu.

No círculo de amigos, entre um drinque e outro, a curiosidade começou a surgir.

— E aí, Rico? Cadê aquela sua "sombra"? Por que a Ceci não está mais te seguindo ultimamente?

Ricardo deu de ombros, fingindo desdém:

— Está fazendo bico, birra de criança. Não deem atenção, daqui a pouco passa e ela volta correndo.

Porém, o tempo passou e Cecília continuou em silêncio absoluto. Ela parou de visualizar e de responder qualquer tentativa de contato. Na véspera de seu próprio aniversário, Ricardo não aguentou mais e enviou um convite formal por e-mail.

Desta vez, Cecília finalmente respondeu. Apenas duas palavras:

"Não vou."

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