À noite, Cecília abriu o aplicativo de viagens para pesquisar passagens diretas de São Paulo para a Espanha. Assim que finalizou o pagamento, Ricardo apareceu no quarto trazendo Isadora consigo.
— Ceci, tenho uma ótima notícia! A Isa aceitou namorar comigo. Sou um amigão, não sou? Você é a primeira a saber.
Olhando para as mãos dos dois firmemente entrelaçadas, Cecília apenas assentiu com um tom de voz contido:
— Meus parabéns.
Isadora, radiante de felicidade, sorriu timidamente:
— Obrigada pelos votos, Cecília. Sua mãe disse que seu ferimento foi feio... como você está se sentindo? Trouxe uma canja de peixe para você, tente tomar um pouco.
Enquanto falava, ela gesticulava para que Ricardo servisse a sopa imediatamente. Ao vê-lo obedecer prontamente a cada comando dela, Cecília estancou por um instante antes de reagir.
— Obrigada, mas não precisa. Eu dispenso o peixe.
Ao ouvir isso, a expressão de Ricardo gelou instantaneamente. Ele a encarou com clara insatisfação:
— A Isa passou horas na cozinha preparando isso pessoalmente. Eu nem queria dividir com você, para falar a verdade. Ela se preocupou com o seu estado e eu, a contragosto, aceitei trazer um pouco, e é assim que você agradece? Sendo mal-agradecida?
Enquanto despejava as palavras, ele encheu uma tigela e a empurrou contra as mãos dela, insistindo para que bebesse ali mesmo. Cecília tentou explicar, mas ele segurou seu pulso com força.
No meio do empurra-empurra, a tigela virou, e o caldo quente derramou-se diretamente sobre os seus ferimentos.
— Ah!
A dor foi tão aguda que o suor frio brotou em sua testa. Seu rosto se contorceu, tornando-se pálido como papel. Isadora, assustada e cheia de culpa, puxou alguns lenços para tentar limpar o estrago.
Ricardo, temendo que Isadora se queimasse, puxou-a rapidamente para trás de si:
— Isa, não se envolva nisso. Ela sempre foi casca-grossa, não é nada de mais. Não se sinta culpada.
A mão de Cecília, que segurava o lenço, tremeu violentamente. Seu peito se apertou.
No segundo seguinte, o Sr. Cavalcanti entrou no quarto. Ao ver o ferimento da filha sangrando novamente, entrou em pânico e chamou a enfermeira. A Sra. Cavalcanti, embora estivesse com o coração partido, recolheu a sopa e explicou pacientemente a Isadora:
— Isadora, querida... a Ceci é alérgica a frutos do mar e peixes. Ela não pode tomar isso. Agradecemos muito a sua gentileza, mas ela realmente não pode.
Ricardo ficou paralisado, sua expressão tornando-se visivelmente desconfortável.
— Por que você não disse nada antes?
Olhando para a gaze manchada de vermelho, Cecília sentiu o gosto amargo da decepção. Antigamente, ele lembrava de cada restrição alimentar dela. Sempre que iam a um restaurante, ele enfatizava ao garçom: nada de frutos do mar, nada de cebola, nada de coentro.
Mas agora, com Isadora, o mundo dele girava em torno de outra pessoa. Naturalmente, não havia espaço para detalhes tão pequenos. O coração de um homem só é grande o suficiente para guardar uma pessoa: aquela que ele mais ama.
Após um longo silêncio, ela respondeu com um sorriso amargo:
— Você não me deu a menor chance de abrir a boca.
Um silêncio fúnebre dominou o quarto. Isadora parecia prestes a desabar em lágrimas de culpa. Ricardo, querendo poupá-la de mais desconforto, não disse mais nada e a levou embora dali.
Devido a uma infecção no ferimento, Cecília precisou de mais três dias no hospital antes de receber alta.
A data da mudança se aproximava e a casa dos Cavalcanti estava um caos com os preparativos. Como os pais não podiam se ausentar, enviaram Cecília à casa dos Almeida com um presente generoso de despedida.
Assim que ela entrou, o Sr. e a Sra. Almeida a cercaram com pedidos de desculpas.
— Ceci, nos perdoe, por favor. Depois de tantos anos de amizade, o Ricardo só protegeu a Isadora naquele acidente e ignorou você... Ficamos muito mal por você ter se machucado tanto. Vamos exigir que ele lhe peça perdão pessoalmente.
Cecília balançou a cabeça e os confortou com doçura:
— A senhorita Menezes é a namorada dele, é natural que ele a proteja primeiro. Eu estou bem, não aconteceu nada grave. Não se preocupem, tios.
Ao verem que ela não guardava mágoas, os Almeida relaxaram. Após alguns minutos de conversa trivial, Cecília tocou no assunto principal e comunicou que sua família estava de mudança definitiva para o exterior.
A notícia pegou os vizinhos de surpresa.
— Assim, tão de repente?
— Houve uma reestruturação nos negócios do grupo. Na verdade, estamos nos preparando há seis meses, mas só agora tudo foi confirmado. Meus pais fizeram questão que eu viesse avisar vocês pessoalmente.
Com a partida de amigos de uma vida inteira, os Almeida não esconderam a tristeza:
— E vocês pretendem voltar algum dia?
Cecília sorriu. Sua voz soou cristalina na sala silenciosa:
— Desta vez, quem for embora, não voltará mais.
Nesse exato momento, Ricardo, que acabara de chegar, abriu a porta e franziu o cenho ao ouvir o final da frase.
— Quem é que não volta mais?