Ao cair da tarde, os Almeida providenciaram um carro para levar todos ao restaurante. Os três jovens acomodaram-se no mesmo veículo.
Durante todo o trajeto, Ricardo, sentado ao meio, demonstrava um cuidado extremo com Isadora. Ele ajustava a temperatura do ar-condicionado, oferecia-lhe uma manta, abria a garrafa de água e alcançava tudo o que ela precisasse.
À esquerda, Cecília observava o entusiasmo da conversa entre os dois e, em silêncio, desviou o olhar para a paisagem que passava pela janela.
No meio do caminho, uma chuva torrencial começou a cair. A visibilidade na estrada era precária e, em um declive, o motorista foi ofuscado pelos faróis altos de um carro que vinha na direção oposta. Sem tempo para reagir, o veículo perdeu o controle e colidiu violentamente contra a mureta de proteção.
No instante crucial do impacto, o reflexo de Ricardo foi proteger Isadora em seus braços.
BUM!
O vidro da janela estilhaçou-se em mil pedaços. Cecília, que estava do lado atingido, foi coberta por estilhaços e sangue. Uma dor dilacerante percorreu seu corpo; sentia como se cada osso estivesse sendo esmagado.
Com a consciência oscilante, ela viu a porta do lado direito se abrir.
Ricardo, em um estado de agitação extrema, carregou Isadora para fora do carro. Ele ligava desesperadamente para o hospital enquanto a confortava com palavras doces e suaves. Parecia ter esquecido completamente que havia outra pessoa no veículo. Ele sequer olhou para trás.
Quando a ambulância chegou, os paramédicos sugeriram priorizar o ferido em estado mais grave. No entanto, diante da escolha entre Cecília, caída em uma poça de sangue, e Isadora, paralisada pelo susto, Ricardo hesitou por apenas alguns segundos antes de decidir levar Isadora primeiro.
Observando o vulto da ambulância se distanciar, o foco nos olhos de Cecília se perdeu lentamente. As lágrimas, enfim, transbordaram, misturando-se ao sangue em seu rosto.
Ricardo, Ricardo...
Vinte anos de convivência não valeram um único olhar de Isadora para você!
Suas pálpebras tornaram-se pesadas e a dor insuportável começou a se dissipar em uma névoa cinzenta. Ela não conseguiu esperar pela próxima ambulância; sua visão escureceu e ela desmaiou completamente.
Não soube quanto tempo se passou até ouvir vozes confusas ao seu redor. Ao abrir os olhos, viu sua mãe, que levava a mão ao peito em um gesto de alívio e gratidão.
— Graças a Deus, Ceci! Você finalmente acordou. Se a ambulância tivesse demorado mais um pouco, você teria perdido sangue demais... o estoque do hospital mal daria conta. Como é possível que, estando os três no mesmo carro, a menina dos Menezes tenha tido apenas um arranhão na mão e você tenha ficado nesse estado?
O Sr. Cavalcanti também relaxou, tomando um gole de água.
— Ora, foi por causa da proteção do Ricardo, claro. Na hora do perigo é que se conhece o verdadeiro sentimento. A moça ficou emocionada com o gesto dele. Acabei de visitá-los no quarto ao lado; o Ricardo estava dando comida na boca dela. Pelo olhar apaixonado dos dois, eu diria que esse namoro já é praticamente certo.
Cecília ouvia tudo em silêncio. Esperou que terminassem os comentários para perguntar, com a voz rouca:
— Quanto tempo eu dormi? Os papéis da imigração ficaram prontos?
— Você dormiu por dois dias inteiros, quase nos matou de susto! — respondeu a mãe. — Não se preocupe com a papelada, em uns vinte dias tudo estará resolvido. Agora foque apenas em se recuperar.
Ao saber que faltava menos de um mês, Cecília sentiu uma onda de alívio e libertação.
Nos dias seguintes, ela ouvia constantemente das enfermeiras os mimos que Ricardo fazia para Isadora. Ele não saía do lado dela nem por um segundo; se ela tossisse durante a noite, ele se preocupava e corria buscar água quente. Ele testava a temperatura de todos os remédios e sempre tinha doces à mão, temendo que a "sua Isadora" sentisse o gosto amargo. Para que ela não ficasse entediada, buscava todos os tipos de passatempos para entretê-la.
Cecília escutava tudo sem dizer uma palavra.
Certo dia, enquanto uma enfermeira a levava para um exame de rotina, ela ouviu um alvoroço no corredor. Ao passar pelo quarto vizinho, viu Ricardo segurando um enorme buquê de rosas, declarando-se para Isadora.
— Isa, eu me apaixonei por você à primeira vista há oito anos. Aqueles encontros no colégio... eu planejava cada um deles para me aproximar de você. Eu decorei cada preferência sua, conheço seus sonhos. Naquela época, não tive a chance de me declarar. Você aceitaria me dar essa oportunidade agora?
Ao ouvir o tom carregado de ansiedade e esperança dele, Cecília lembrou-se de que, um mês antes de Isadora partir para o exterior, Ricardo já preparava aquela declaração. O destino os desencontrou naquela época, mas o momento apenas tardou alguns anos.
Ao ouvir Isadora dizer "sim", Cecília esboçou um sorriso leve e pediu à enfermeira que seguisse para a sala de exames. No instante em que ela virou o corredor, uma salva de palmas entusiasmada ecoou pelo hospital.
Ricardo virou o rosto ao ouvir o barulho e, por um breve segundo, avistou a silhueta solitária e frágil de Cecília sumindo ao longe. Seu sorriso vacilou por um instante e um sentimento estranho e inquietante surgiu em seu peito.
Mas aquele desconforto durou apenas um piscar de olhos, logo sendo inundado por uma alegria avassaladora. Ele estendeu os braços e, de forma pública e orgulhosa, envolveu Isadora em um abraço apaixonado.