No dia seguinte, Cecília foi despertada pelo som incessante das notificações de Ricardo.
Eram dezenas de mensagens perguntando que horas ela chegaria.
Sentiu um amargor subir pela garganta.
Ricardo, você tem noção do quão cruel está sendo?
Com as mãos trêmulas, ela digitou uma resposta curta e direta: “Não estou me sentindo bem hoje. Não vou.”
Não demorou muito para que batidas soassem à porta de seu quarto. Eram seus pais.
— Ceci, querida, mesmo que você tenha tido algum desentendimento com o Ricardo, não faça isso agora — disse o Sr. Cavalcanti. — Vá se trocar e vá para a casa dos Almeida. Você não imagina o quanto ele está levando a sério esse encontro. Ele é apaixonado por essa moça da família Menezes há anos. Assim que soube que ela voltou ao Brasil, pediu pessoalmente para eu intermediar o encontro.
— Pois é — completou a Sra. Cavalcanti. — A Isadora foi minha aluna de piano por um tempo. Eu tive que ir pessoalmente à casa deles para conseguir essa reunião. Dos presentes ao jantar, tudo está sendo planejado com o maior rigor. Eles querem você lá para que a Isadora não se sinta deslocada, tendo outra moça da mesma idade por perto. O Ricardo está realmente investindo o coração nisso. Vocês são tão amigos, como você pode não ajudá-lo?
Cecília sentiu o sangue fugir do rosto. Ricardo, ao perceber que ela não iria, teve a audácia de ligar para os pais dela!
Engolindo o choro diante da insistência esperançosa deles, ela se arrumou e desceu.
As casas eram próximas. Dez minutos depois, ela estava diante da porta dos Almeida. Ao abrir o armário de sapatos no hall de entrada, deparou-se com o vazio.
Suas pantufas de coelhinho não estavam lá.
Ela procurou em todos os cantos, até que, por um impulso amargo, olhou na lixeira do lado de fora. Lá estavam elas.
E não apenas as pantufas. Havia seu copo, sua escova de dentes, sua toalha, seu pijama...
Tudo o que pertencia a ela.
— Senhorita Cavalcanti, o patrãozinho mandou descartar tudo isso. Por favor, use estas sapatilhas descartáveis por enquanto — disse a empregada, sem jeito.
Cecília ficou em silêncio por um longo tempo, encarando o lixo.
Como as famílias Cavalcanti e Almeida eram amigas de longa data, ela frequentava aquela casa diariamente, muitas vezes pernoitando. Ricardo havia preparado um quarto exclusivo para ela, com itens escolhidos a dedo, sempre com o tema de coelhinhos que ela tanto amava.
Ele costumava dizer que a casa dos Almeida era a casa dela, que ela nunca deveria se sentir uma estranha.
Escondidos dos pais, eles haviam se abraçado e se beijado naquele hall, entrelaçado os dedos sob a mesa de jantar e compartilhado momentos de intensa paixão no escritório.
Agora que Isadora Menezes estava lá, ele tivera medo de que sua "paixão platônica" entendesse errado.
Então, ele simplesmente apagou todos os vestígios da existência dela.
Cecília precisou de vários minutos para acalmar o coração antes de calçar os protetores de sapatos e entrar.
Ao cruzar a sala, viu Ricardo descascando frutas para Isadora. Os dois riam, cúmplices.
Ele estava impecável em um terno de cetim sob medida, o cabelo perfeitamente alinhado e exalando um perfume caro. Tinha aquela aura de "vilão charmoso" que sempre atraía olhares.
Nos tempos de escola, as garotas diziam que Ricardo era bonito de qualquer jeito, mas que se ele se esforçasse na aparência, deixaria qualquer galã de novela no chinelo.
Mas Ricardo sempre fora rebelde e despojado, preferindo camisetas básicas. Ele odiava se produzir.
Então é assim que um pavão abre as caudas diante de quem realmente ama?
— pensou ela.
O homem que, no dia anterior, se perdia em lençóis com ela, hoje agia como se mal a conhecesse. Ele lhe deu um olhar fugaz e logo voltou toda a sua atenção para Isadora.
Conversavam sobre tudo: hobbies, o clima, trabalho, marcas de joias e memórias de infância.
Ao ver Ricardo se esforçando tanto para manter o assunto fluindo, Cecília baixou os olhos em um riso autodepreciativo.
Ele também sabe ser proativo quando quer conquistar alguém.
— No colégio foi uma coincidência engraçada — dizia Isadora, sorrindo. — Você era um ano mais velho que eu, estávamos em prédios diferentes, mas vivíamos nos esbarrando. Parecia destino.
Ao ouvir Isadora falar do passado, Cecília notou as orelhas de Ricardo ficarem vermelhas. Ela sorriu em silêncio.
Destino?
Na verdade, eram todos encontros milimetricamente planejados por Ricardo. Naquela época, Cecília andava atrás dele, observando-o mover céus e terra por aquela garota, sentindo o próprio coração se despedaçar a cada passo.
Quando Isadora foi para o exterior, Cecília pensou que finalmente teria sua chance. Mas agora percebia que quem havia finalmente alcançado o que queria era Ricardo.
Subitamente, Cecília foi arrancada de seus pensamentos ao ouvir seu próprio nome.
— Eu ouvi dizer no ensino médio que você tinha uma "amiga de infância" inseparável. Deve ser a senhorita Cavalcanti, não é? — perguntou Isadora, com um olhar perspicaz e inquisitivo.
Cecília hesitou, mas antes que pudesse abrir a boca, os pais de Ricardo responderam alegremente:
— Sim, são ótimos amigos! Cresceram grudados, como unha e carne. Até pensamos em casar os dois quando eram pequenos...
No meio da frase, o semblante de Ricardo escureceu e ele interrompeu bruscamente:
— Pai, mãe, parem com essas bobagens. Eu me apaixonaria por qualquer pessoa, menos pela Cecília.
Cecília abaixou a cabeça para esconder a decepção profunda em seus olhos, forçando um sorriso logo em seguida:
— Digo o mesmo. Eu ficaria com qualquer um, menos com o Ricardo Almeida.
Ao ouvir isso, a expressão de Ricardo congelou por um milésimo de segundo, mas ele logo recuperou a compostura.
Ele passou o braço pelos ombros de Cecília, como se estivesse abraçando um "brother", com total indiferença:
— Exatamente! O que temos é amizade pura.
Imediatamente, o clima na sala ficou mais leve. Cecília forçou uma risada junto com os outros e, por um instante, ouviu Ricardo sussurrar para ela, num tom de alívio:
— Mandou bem. Obrigado por me ajudar a disfarçar.
Ela não disse nada. Apenas, de forma discreta, deu alguns passos para o lado, afastando-se do toque dele.
Disfarçar?
Não. O que ela tinha dito era a mais pura verdade.