Era a noningentésima nonagésima nona vez que ela dividia um quarto com seu melhor amigo de infância, e ele continuava tão insaciável quanto sempre.
Na manhã seguinte, Cecília acordou com o corpo marcado por beijos. Ao tentar se mover, sentiu cada músculo da cintura protestar com uma dor aguda.
O ar no quarto ainda estava impregnado por uma aura de intimidade. Ricardo estendeu o braço longo, puxando-a para perto para sentir a maciez de seu corpo contra o dele, e disse em um tom descompromissado:
— Amanhã, vista algo mais formal. Você vai para casa comigo.
Ao ouvir isso, Cecília ergueu o rosto num sobressalto, os olhos brilhando com uma centelha de esperança.
— Você finalmente decidiu... assumir o nosso relacionamento?
Ricardo arqueou uma sobrancelha e lançou-lhe um olhar de soslaio, carregado de desdém.
— Assumir o quê? Amanhã terei um encontro às cegas na casa dos meus pais. Quero que você esteja lá para ajudar a animar o ambiente, para que a moça não se sinta desconfortável.
Cada palavra atingiu os ouvidos de Cecília como um trovão em um dia de sol.
Seu coração pareceu parar de bater por um instante e sua mente mergulhou em um vazio absoluto.
— Um encontro às cegas? E eu? O que eu sou para você?
Ricardo já havia se levantado e começava a se vestir. Ao ouvir a pergunta, ele a olhou com preguiça.
— Você? Você é minha parceira para tudo. Parceira de jantar, de jogos e, claro... parceira de cama, para satisfazermos nossos desejos.
Um calafrio percorreu o corpo de Cecília. O sangue sumiu de seu rosto e seus lábios começaram a tremer incontrolavelmente.
Ao notar sua expressão, o sorriso de Ricardo desapareceu aos poucos. Ele se aproximou lentamente, encarando-a:
— Espera aí, Ceci... Você não achou, por um momento sequer, que éramos namorados durante todos esses anos, achou?
Aquele tom sarcástico foi como uma lâmina afiada perfurando o peito de Cecília.
Ela lutou contra o nó que se formava em sua garganta. Sua voz saiu quebrada, quase um sussurro:
— Cla... claro que não. Eu vou tomar um banho primeiro.
Cecília levantou-se às pressas e, com passos instáveis, refugiou-se no banheiro.
Assim que a porta se fechou, sentiu suas forças se esvaírem e desabou no chão.
Aquelas palavras ainda ecoavam em seus ouvidos. Ela olhou para as marcas em sua pele, deixadas por Ricardo na noite anterior, e as lágrimas começaram a cair como chuva.
Eles se conheciam há mais de vinte anos. Cresceram juntos, dividiram o mesmo copo de leite, leram os mesmos gibis.
Aos dezoito anos, após uma noite de bebedeira, acabaram na cama pela primeira vez.
Depois daquela, veio a segunda, a terceira...
À noite, seus corpos eram perfeitamente sintonizados. Durante o dia, viviam todas as intimidades de um casal: caminhavam de mãos dadas em meio à multidão, beijavam-se na virada do ano prometendo união para o ano seguinte e passavam horas ao telefone mantendo a chama acesa.
Cecília sempre acreditou que eles já estavam juntos, apenas não haviam tornado público.
E agora, Ricardo dizia que não eram namorados?
A dor era tão intensa que ela mal conseguia respirar. Com as mãos trêmulas, abriu o chuveiro no máximo para que o som da água abafasse seus soluços.
Não soube quanto tempo passou até que as lágrimas secassem e ela conseguisse se recompor.
Ao sair, Ricardo já estava pronto, sentado no sofá falando ao telefone.
— Amanhã virá muita gente, então reserve uma mesa grande no restaurante. Ela prefere comida leve, algo mais contemporâneo. Para a sobremesa, um bolo Floresta Negra, e flores... rosas em tons de rosa e branco. Tire fotos de tudo para eu conferir. Ah, e separe uns dez ternos pretos para eu escolher quando chegar. É a única cor que a Isadora gosta.
Ao ouvir aquele nome, Cecília estancou.
Ela não pôde evitar olhar para ele e viu o sorriso genuíno que iluminava o rosto de Ricardo.
Isadora?
Então a pretendente era Isadora Menezes?
O brilho nos olhos de Cecília se apagou completamente.
Se fosse Isadora, ela entendia perfeitamente o motivo de tamanha alegria.
No ensino médio, Ricardo era perdidamente apaixonado por Isadora. Ele repetia aquele nome dezenas de vezes por dia nos ouvidos de Cecília.
Infelizmente, antes que ele pudesse se declarar, Isadora se mudou para o exterior.
Desde então, Cecília nunca mais o ouvira mencionar aquele nome.
Depois daquela noite fatídica em que se envolveram, eles se tornaram tão próximos que ela pensou que ele finalmente a tivesse esquecido.
Mal sabia ela que aquela "mulher de branco", sua eterna obsessão, nunca fora esquecida; apenas permanecera guardada em silêncio.
A dor, que havia dado uma breve trégua, voltou a latejar. Cecília apertou o celular com força, sentindo as mãos falharem.
Com um estalo seco do aparelho batendo na mesa, Ricardo virou-se, sorridente:
— Já terminou o banho? Pode fazer o check-out daqui a pouco? A conta já está paga.
Ele pegou o paletó e caminhou em direção à porta. Antes de sair, virou-se para ela com um sorriso enigmático.
— Ceci, eu sempre te vi como uma "parça", como um irmão. No futuro, não faça mais essa cara de quem perdeu o chão na minha frente. Senão vou acabar achando que você tem segundas intenções comigo.
Ele soltou uma risada curta antes de continuar:
— Eu conheço você na palma da minha mão. Um olhar meu e você já sabe o que estou pensando... Você não acha que a vida ficaria sem graça demais assim? Se ficássemos juntos de verdade, sentiria que a minha vida teria chegado ao fim antes de começar.
O som de seus passos foi sumindo no corredor, mas as palavras continuaram ecoando no íntimo de Cecília.
Sentada na cama fria, ela começou a rir. Uma risada amarga que logo se transformou em lágrimas novamente.
Então era assim que Ricardo pensava dela durante todos esses anos.
Ela ficou sentada ali, sozinha, até tarde da noite, antes de descer e entregar as chaves.
Lá fora, caía um temporal. Cecília caminhou sob a chuva, entorpecida, sem sentir o frio, até chegar em casa.
Ao vê-la encharcada como um pinto no lixo, o Sr. e a Sra. Cavalcanti correram com toalhas secas, preocupados.
— Que chuva é essa, filha? Por que não pegou um Uber?
Cecília olhou para os pais com um olhar vago, a voz rouca:
— Pai, mãe... Lembra que vocês queriam se mudar para o exterior por causa dos negócios do grupo? Eu pensei bem. Vamos nos mudar. Vamos embora para sempre e não voltaremos mais.
Após meses tentando convencê-la, os pais ficaram surpresos com a decisão repentina.
— Sério, querida? Você finalmente aceitou? Terminou com aquele namorado?
Ao lembrar das palavras de Ricardo, o coração de Cecília doeu. Ela balançou a cabeça com um sorriso triste.
— Não existe namorado. Nunca existiu. Eu inventei isso só para vocês pararem de me cobrar um compromisso.
Embora não soubessem se ela dizia a verdade, os pais ficaram radiantes. Começaram imediatamente a planejar a documentação da imigração enquanto pediam que ela arrumasse as malas.
Cecília assentiu e foi para o quarto. Lá, começou a jogar fora tudo o que remetia a Ricardo.
Álbuns de fotos guardados com carinho por mais de dez anos, joias, vestidos que ele lhe dera, pequenas esculturas feitas à mão...
Tudo foi parar direto na lata de lixo.
— Senhorita, tantas coisas boas... Vai jogar tudo fora mesmo? — perguntou a governanta, lamentando.
Cecília apenas confirmou com um aceno leve e a voz desprovida de emoção:
— Não quero mais nada disso.
Não apenas os objetos. Aquele sentimento e o próprio Ricardo Almeida... ela não os queria mais.