localização atual: Novela Mágica Moderno A Herança no Vaso de Conservas Capítulo 17 Luta na Lama

《A Herança no Vaso de Conservas》Capítulo 17 Luta na Lama

Enquanto eu me preparava para as entrevistas, Marcos estava sendo cozido no inferno. Sua vida, que antes parecia estar nas nuvens, despencou direto para a lama.

Após a sentença do tribunal, ele se tornou um homem verdadeiramente solitário. Seus parentes o evitavam como se ele fosse uma praga.

No corredor do fórum, sua tia olhou para ele e disse apenas uma frase:

— Marcos, você foi a maior decepção da vida do seu pai. Então, ela liderou a família para longe, sem olhar para trás.

Ninguém estava disposto a acolhê-lo. Com todos os cartões bancários bloqueados, restavam-lhe apenas algumas centenas de reais em notas amassadas no bolso. Com esse dinheiro, ele alugou o quarto mais barato que encontrou em uma favela urbana.

O cômodo era minúsculo, escuro, com uma janela voltada para um muro alto coberto de lodo.

O ar fedia a mofo e umidade constante. As paredes eram finas; ele ouvia tudo: as brigas do casal vizinho, o choro das crianças, a descarga do andar de cima.

Deitado naquela cama de tábuas duras, ele não conseguia dormir. Aquele lugar era um universo de distância do condomínio de luxo onde vivera em Goiânia. Um era o paraíso; o outro, o abismo.

Ele começou a procurar emprego freneticamente, mas logo descobriu que fora banido pelo setor.

A história do divórcio e os detalhes sórdidos haviam vazado na internet. Embora seu nome completo não estivesse no título, todos no meio de TI sabiam de quem se tratava:

"O programador que fugiu da doença genética, abandonou o pai moribundo e a esposa, e roubou o patrimônio para fugir com a amante"

. O post tornou-se o escândalo oficial do círculo profissional dele.

Seus currículos eram ignorados. Quando conseguia uma entrevista em empresas minúsculas, o olhar de desprezo dos recrutadores doía mais do que a própria rejeição.

— Sr. Marcos, nossa empresa é pequena demais para alguém com o seu... perfil — diziam, convidando-o gentilmente a sair.

As economias acabaram.

O trabalho não vinha. Ele começou a penhorar tudo o que tinha de valor: o relógio, o celular reserva, até o terno que usara no tribunal.

O dinheiro mal dava para mantê-lo vivo. Passou a comer o macarrão instantâneo mais barato e a beber água da torneira. Emagreceu rápido, os olhos afundaram e sua fisionomia ficou irreconhecível.

Mas a tortura física não era o pior.

O pior era o terror psicológico. Aquele laudo genético era um pesadelo que o perseguia a cada segundo. Ele tornou-se paranoico.

A primeira coisa que fazia ao acordar era checar o próprio corpo:

Minha lombar está doendo de novo? Meus olhos estão inchados? Estou indo ao banheiro mais vezes do que o normal?

Qualquer alteração mínima o deixava em pânico por horas.

Ele não ousava ir ao hospital. Tinha pavor de que um exame confirmasse a sentença de morte que ele tanto tentou evitar.

Vivia em um medo constante: medo da doença, medo da morte, medo da solidão. Todas as coisas das quais ele fugiu voltaram para cobrar a conta, com juros.

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O golpe de misericórdia veio com a notificação extrajudicial do advogado de Júlia.

Ela o estava processando, exigindo o reembolso de todos os gastos do período em que moraram juntos em Goiânia, além de uma indenização por danos morais. No total, mais de 300 mil reais.

Ao ler o documento, ele riu. Riu até que as lágrimas escorressem. Lembrou-se dos dias em Goiânia: o sol, o café, o corpo macio da jovem e seus sorrisos doces.

Tudo parecia um sonho irreal. Agora, o sonho acabara, restando apenas uma montanha de dívidas e uma carcaça vazia.

Ele desistiu. Começou a beber cachaça barata todos os dias até cair em um estado de estupor. Só embriagado conseguia esquecer o medo e a humilhação.

Certa noite, bêbado, ele cambaleou até a frente do prédio onde costumávamos morar. Ergueu a cabeça e olhou para a janela familiar.

A luz estava acesa. Uma luz quente, amarelada, atravessava o vidro. Ele sabia que ali já viviam novos donos.

Talvez estivessem jantando, vendo TV, desfrutando da felicidade que ele um dia possuiu e jogou fora com as próprias mãos.

De repente, ele teve vontade de chorar. Lembrou-se de mim. Lembrou-se da maçã que eu descascava para ele, das camisas que eu passava com cuidado.

Lembrou-se da minha mão cobrindo-o com o lençol tarde da noite. Lembrou-se de como eu estive ao seu lado desde que ele não tinha nada até o momento em que construímos nossa vida.

Aquele calor que ele antes desprezava, por considerar garantido, tornara-se agora um luxo inalcançável.

Ele se agachou ao lado do canteiro de flores do prédio, como um cão abandonado, e uivou de dor. Um choro rouco e desesperado.

Ele me odiava — odiava minha frieza, minha vingança. Mas o que ele mais odiava era a si mesmo. Odiava sua covardia, seu egoísmo e sua estupidez.

Foi ele quem destruiu a própria vida. Foi ele quem se empurrou para aquele beco sem saída.

Sua vida transformara-se em ruínas, e o arquiteto da destruição era ele mesmo. Naquelas ruínas que ele mesmo criou, ele lutava em silêncio enquanto apodrecia. E nunca mais voltaria a ver a luz.

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