A palavra "esposa" caiu como uma bomba de fragmentação.
No silêncio súbito do café, o impacto foi devastador.
O sorriso no rosto de Júlia congelou instantaneamente. Ela olhou para mim, incrédula, e depois virou-se bruscamente para Marcos.
Seus olhos transbordavam choque e uma exigência muda por respostas.
— Esposa? Marcos, o que ela está dizendo? Ela é sua esposa?
A expressão de Marcos não era apenas feia; era de um cinza cadavérico, uma mistura de desespero, vergonha e pavor.
Ele tentou segurar a mão de Júlia, mas ela o repeliu como se estivesse diante de uma praga.
— Não me toque! Explique isso agora! O que está acontecendo aqui?
O questionamento da jovem foi afiado e direto.
— Ele não te disse que os pais tinham morrido e que ele era órfão? — respondi por ele. Minha voz era baixa, mas cada sílaba chegou perfeitamente aos ouvidos de Júlia.
O corpo de Júlia vacilou. O olhar que ela lançava a Marcos mudou da dúvida para um desprezo e uma repulsa profundos.
— Ele não te disse que era diretor de projetos em uma grande empresa, com um salário milionário? — continuei. — Ele não mencionou que pediu demissão há seis meses e que agora é um desempregado? Ele não te disse que aqueles 600 mil reais eram as economias de uma vida? Ele esqueceu de avisar que esse dinheiro é patrimônio comum do casal e que eu já entrei com o pedido de bloqueio de bens, então ele não pode tocar em um centavo sequer?
A cada frase minha, Júlia empalidecia um tom. E a cabeça de Marcos baixava um centímetro.
No final, ele não tinha coragem de olhar para nenhuma de nós. Parecia um condenado à morte esperando a leitura da sentença.
— E tem mais... — Fiz uma pausa, lançando o golpe final e mais letal. — Ele te contou sobre o histórico de doenças genéticas da família dele? Uma doença... que faz a pessoa morrer lentamente em agonia?
Essa frase quebrou Júlia por completo. Ela olhou para Marcos e o último vestígio de afeto desapareceu, restando apenas medo e nojo.
— Marcos, você é um mentiroso nojento! — ela gritou, pegando a xícara de café intocada sobre a mesa e atirando o líquido no rosto dele.
O líquido marrom escorreu pela face humilhada de Marcos, manchando sua camisa impecável.
No café, todos os olhares se voltaram para eles, acompanhados de sussurros e dedos apontados.
O conto de fadas planejado meticulosamente transformara-se em um espetáculo degradante.
Meu objetivo estava cumprido. Não olhei para trás. Peguei minha bolsa e saí. Eu fora apenas a mestre de cerimônias daquela farsa; os restos do banquete, eles que limpassem sozinhos.
Ao sair do café, a luz do sol estava ofuscante. Respirei fundo o ar úmido de Chongqing, sentindo que o nó de angústia que apertava meu peito há seis meses finalmente se desfazia. Foi uma sensação de liberdade absoluta.
Peguei o celular e enviei uma mensagem para Ricardo, o investigador da Dra. Fabiana:
"Pode entrar."
Minutos depois, já no táxi a caminho do aeroporto, recebi uma foto de Ricardo. Na imagem, Marcos ainda estava paralisado na cadeira do café. Ricardo, vestido formalmente e com expressão severa, estendia-lhe um maço de documentos.
Era a citação judicial. A petição de divórcio litigioso. A decisão de bloqueio de bens. A notificação de congelamento de contas bancárias. Era o meu presente para ele: o prelúdio da sentença.
Ao ver o rosto descorado de Marcos na foto, esbocei um sorriso lento.
Você achou que fugir resolveria tudo? Achou que se escondendo poderia recomeçar? Não. A dívida que você acumulou não terá um centavo de desconto. Você terá que sentar no banco dos réus e pagar por todo o seu egoísmo e crueldade.
Quando o avião decolou, olhei pela janela. Aquela cidade que cheguei odiando tornava-se pequena lá embaixo. Cheguei carregando o inferno no peito; partia com a mente límpida.
Ao voltar para casa, Bia já havia decorado o apartamento com um ar acolhedor. Havia plantas novas na varanda e almofadas coloridas no sofá. Ela cantarolava na cozinha enquanto preparava o jantar. Ao me ver, cumprimentou-me com alegria.
— Clara, você voltou! — Voltei.
Olhei para aquele lar cheio de vida — o lar que eu "descartei" para vê-lo renascer. Senti que, finalmente, o passado era apenas passado. O celular vibrou. Era uma mensagem da Dra. Fabiana:
"Primeiro round: vitória total. Descanse bem e prepare-se para a audiência."
Respondi com apenas uma palavra:
"Certo."
Lá fora, o crepúsculo caía. As luzes da cidade acendiam-se uma a uma.
Eu sabia que a minha luz também tinha voltado a brilhar.
E desta vez, seria mais forte e mais quente do que nunca.