Passei três dias em Chongqing. Nesse período, não procurei Marcos. Como uma turista qualquer, perambulei por essa estranha cidade entre montanhas.
Visitei as cavernas de Hongyadong, admirando a vista noturna que parecia saída de
A Viagem de Chihiro
.
Atravessei o Rio Yangtzé de teleférico, sentindo a adrenalina de flutuar sobre as águas. Comi o
hot pot
mais apimentado que encontrei, até que as lágrimas e o suor escorressem, sentindo minhas entranhas arderem como se estivessem em brasas.
Eu precisava dessa dor física. Ela me mantinha lúcida. Fazia o ódio em meu peito arder com ainda mais força.
A equipe da Dra. Fabiana concluiu todo o trabalho de base. Rastrearam o destino da indenização de rescisão de Marcos: uma pequena fortuna de mais de 600 mil reais que, no terceiro dia após sua chegada a Chongqing, fora transferida para uma conta nova.
A titular da conta era a garota das fotos. Seu nome era Júlia, uma mestranda da Universidade de Chongqing. Descobriram também que o apartamento onde Marcos morava fora alugado no nome dela.
Ele achou que, deixando tudo "limpo" e sem rastro em seu nome, eu não teria como alcançá-lo. Ingênuo.
No quarto dia, decidi puxar a rede. Escolhi um café movimentado e elegante no bairro de Guanyinqiao.
Um lugar perfeito para negociar e, principalmente, para o espetáculo. Enviei a ele uma mensagem de um número novo, sem registro. O conteúdo era curto e direto:
"Eu sei sobre a doença da sua mãe e tenho o seu laudo genético. Hoje, às 15h, no Starbucks de Guanyinqiao. Vamos conversar."
Não assinei meu nome. Mas eu sabia que ele viria.
Aquele laudo era o seu terror mais profundo, o seu calcanhar de Aquiles que ele jamais ousaria mostrar a ninguém.
Às 14h50, eu já estava sentada à mesa junto à janela. Usei uma maquiagem impecável e um vestido preto de corte sob medida.
No pulso, o bracelete de jade emitia seu brilho suave. Eu parecia calma, elegante — uma executiva desfrutando do chá da tarde. Só eu sabia como meu coração martelava contra as costelas.
Às 15h em ponto, Marcos apareceu. Vestia roupas casuais, mas a expressão relaxada de dias atrás sumira.
Ele estava tenso. Pálido, seus olhos varriam o café com desespero. Quando seu olhar cruzou o meu, ele congelou.
Parecia uma estátua de sal. Em seus olhos, havia choque, confusão e um medo impossível de ocultar.
Ele deve ter imaginado mil possibilidades, mas jamais que a pessoa por trás da mensagem seria eu.
Esbocei um leve sorriso e apontei para a cadeira à minha frente. Ele hesitou por um longo tempo antes de caminhar com passos rígidos e se sentar.
— Clara? — Sua voz estava seca, rouca, como se estivesse diante de uma assombração. — O que você está fazendo aqui?
— Por que eu não estaria? — Tomei um gole do café com elegância. — Vim a Chongqing ver como meu marido está se saindo na sua "viagem a trabalho".
Enfatizei as palavras "viagem a trabalho". O rosto dele ficou vermelho instantaneamente.
— Você... você me seguiu?
— Seguir você? — Ri, um riso carregado de escárnio. — Marcos, você se superestima demais. Eu vim apenas buscar o que é meu por direito.
— Eu não sei do que você está falando! — Ele desviou o olhar, a voz perdendo a força.
— Não sabe? — Retirei o celular da bolsa e mostrei a foto dele com a namorada, deslizando o aparelho sobre a mesa. — E sobre isso? Também não sabe do que se trata?
Ao ver a foto, suas pupilas se contraíram. Ele recuou o corpo contra a cadeira, como se quisesse distância da imagem.
— Quer que eu te apresente ela? Júlia, 22 anos, mestranda. Mais jovem que eu, mais bonita que eu e... faz você se sentir mais "seguro", não é?
Cada frase minha era uma estocada precisa em seu peito. Ele abriu a boca, mas as palavras não saíram. Sua cor passou do vermelho para um cinza cadavérico.
— O que... o que você quer de mim? — ele finalmente balbuciou, num tom de súplica.
— O que eu quero? — Guardei o celular e me inclinei para frente, encarando seus olhos esquivos. — O que eu quero é te perguntar uma coisa, Marcos.
Enquanto você vivia esse romance idílico com ela sob o luar, você pensou em como seu pai tossia sangue na cama, noite após noite, sem conseguir dormir?
Enquanto você transferia aqueles 600 mil para ela, pensou em como eu estava usando nossas últimas economias para pagar as sessões de quimioterapia dele?
Enquanto você desfrutava dessa sua "nova vida", pensou em como destruiu a minha?
Minha voz não era alta, mas cada palavra saía cortante, carregada de um gelo mortal. O café ao redor parecia ter ficado em silêncio absoluto. Ele estava sem argumentos, com o suor frio brotando na testa.
— Eu...
Ele tentou se justificar, dizer que tinha seus motivos, que estava com medo. Mas não dei chance. Coloquei a cópia do laudo genético sobre a mesa, calmamente.
— Economize suas desculpas. Eu já sei de tudo. Você não fugiu porque não conseguia cuidar do seu pai; fugiu porque teve pavor de acabar como ele. Você não parou de me amar; teve medo de que eu, sua esposa, me tornasse um fardo pesado demais para carregar. A única pessoa que você ama é a si mesmo. Você é egoísta, covarde e desprezível até a última fibra.
Aquele laudo foi o golpe de misericórdia. Ele desabou na cadeira, com o olhar vago, como se sua alma tivesse sido drenada.
A máscara fora arrancada camada por camada, revelando o núcleo mais feio e sujo do seu ser.
Nesse exato momento, uma voz feminina e alegre soou ao lado da mesa:
— Marcos? Quem é ela? Uma amiga sua?
Era Júlia. Usava um vestido branco, maquiagem leve, parecendo um lírio imaculado.
Ela olhava com curiosidade para mim, depois para o laudo sobre a mesa e para o estado deplorável de Marcos.
Marcos saltou da cadeira como se tivesse levado um choque. — Júlia! O que você está fazendo aqui?
Sua voz transbordava pânico. Júlia não respondeu; apenas me encarou com desconfiança. Olhei para ela e, por um breve segundo, senti pena. Ela estava sendo manipulada por um mestre do engano.
Levantei-me e ofereci a ela um sorriso quase gentil.
— Olá, Júlia. Deixe-me me apresentar. Meu nome é Clara. Eu sou a... esposa do Marcos.