Passei a noite inteira na velha casa. Abraçada àquela caixa de ferro gélida, sentada no chão duro, não consegui pregar o olho por um segundo sequer. Quando o dia amanheceu, levantei-me e alonguei meus membros rígidos. Tranquei a caixa novamente, envolvi-a com cuidado em um pano e a guardei na minha mochila.
Não tirei o bracelete de jade. O toque frio da pedra contra minha pele servia como um lembrete constante para me manter lúcida.
Olhei ao redor daquele quarto pela última vez. Aquele lugar guardava a amargura de uma mulher, o arrependimento de um homem e a covardia de outro. Agora, nada disso tinha mais a ver comigo. Deixei tudo exatamente como encontrei, apagando qualquer vestígio da minha passagem. Coloquei a chave de bronze no lugar mais visível da mesa da sala principal.
Então, saí e fechei a porta de madeira vermelha. Não passei o cadeado. Deixei-a assim, destrancada, para que recebesse seu próximo destino, fosse ele qual fosse.
O beco estava silencioso. A luz do início da manhã entrava inclinada, projetando sombras longas sobre as pedras do calçamento. Não olhei para trás. Saí dali passo a passo, como se estivesse caminhando para fora da primeira metade absurda da minha vida.
Cheguei ao "apartamento" que dividia com Marcos já era tarde da tarde. Ao abrir a porta, aquele odor familiar — uma mistura de poeira e tristeza — veio ao meu encontro. Aquela casa, que um dia decorei com tanto zelo, agora parecia uma enorme gaiola. No sofá da sala, eu ainda parecia ver a silhueta curvada do meu sogro. Na cama do quarto, ainda podia sentir o rastro daquela frieza de quando Marcos partiu. Cada canto me lembrava dos seis meses de agonia e humilhação.
Eu não podia ficar ali nem mais um minuto.
Fui até o quarto e abri o guarda-roupa. Minhas roupas eram poucas; escolhi apenas as que mais usava e as coloquei em uma mala de mão. Depois, peguei tudo o que pertencia a Marcos — sem exceção — e soquei em vários sacos de lixo enormes. Suas roupas, seus livros, seu barbeador, o copo que ele usava. Tudo o que carregava a essência dele precisava ser expurgado.
Feito isso, comecei uma limpeza profunda. Usei desinfetante para esfregar cada centímetro do imóvel três vezes. O chão, as paredes, os móveis, as janelas. Esfreguei para tirar o cheiro de remédio, os vestígios da doença, as sombras da morte. Esfreguei para apagar cada lágrima que derramei ali dentro.
Quando o último raio de sol desapareceu na janela, a casa estava impecável, brilhando como nova. Mas estava vazia. Exatamente como o meu coração.
Peguei o celular e tirei fotos de cada cômodo: sala, quarto, cozinha, banheiro. Então, abri um aplicativo de aluguel e redigi o anúncio:
"Apartamento de dois quartos no centro, totalmente mobiliado, pronto para morar. Preferência para contratos de longa duração."
Coloquei o valor um pouco abaixo do mercado. Não era pelo dinheiro; eu só queria, o mais rápido possível, que aquele lugar deixasse de ter qualquer ligação comigo.
Terminado o serviço, puxei minha pequena mala e saí sem olhar para trás. Eu não tinha para onde ir, então procurei um hotel executivo por perto para passar a noite. Deitada naquela cama de lençóis brancos e esticados, senti o cheiro de sol e lavanderia. Era estranho, mas me trouxe uma paz inesperada.
Meu celular vibrou. Era uma mensagem direta no aplicativo de aluguel. "Olá, o imóvel ainda está disponível para visita?"
A foto de perfil mostrava uma jovem sorrindo com doçura. Olhei para aquele rosto sem sentir emoção alguma. Respondi apenas duas palavras: "Está sim". Marcamos a visita para a manhã seguinte.
No dia seguinte, conheci a moça. Ela se chamava Júlia, era recém-formada e estava estagiando em uma empresa próxima. Era ainda mais vivaz do que na foto, com os olhos brilhando de esperança e planos para o futuro. Ela adorou o apartamento.
— Nossa, moça, sua casa é tão limpa! E bate um sol maravilhoso. Por esse preço e nessa localização, é um achado!
Ela circulava entusiasmada pelos cômodos, planejando onde colocaria uma estante de livros, onde penduraria um quadro. Eu a observava como uma estranha, em silêncio. Vendo-a planejar um futuro brilhante justamente onde eu vivi meus piores pesadelos. Achei irônico, mas senti, acima de tudo, um alívio.
— Você decidiu alugar? — perguntei.
— Sim! Com certeza! — Ela assentiu prontamente, com medo de que eu desistisse.
— Depósito de três meses de aluguel como garantia, contrato mínimo de um ano. Podemos assinar agora — falei em tom profissional.
— Fechado!
Assinamos o contrato rapidamente. Ela transferiu o valor do depósito e do primeiro mês sem hesitar. O som da notificação de pagamento no meu celular — uma quantia considerável — ecoou no ar. Foi o primeiro dinheiro que ganhei por conta própria após deixar Marcos.
Entreguei as chaves a ela. — A partir de agora, esta é a sua casa — eu disse.
Ao proferir essas palavras, senti uma calma absoluta. Júlia pegou as chaves, quase pulando de alegria. — Muito obrigada! Você é uma pessoa maravilhosa!
Maravilhosa? Apenas esbocei um sorriso de canto, sem dizer nada. Eu não era maravilhosa. Eu era apenas uma mulher tentando sobreviver.
Ao sair daquele prédio, o sol brilhava forte. Caminhei pela rua movimentada, observando o fluxo incessante de carros e pessoas. Pela primeira vez em muito tempo, senti que estava restabelecendo meu vínculo com o mundo.
Apertei a mochila contra o corpo, sentindo o peso da caixa de ferro. Marcos, suas mentiras e sua traição... agora chegou a minha vez de acertar as contas com você, uma por uma.