Muitas chuvas haviam caído recentemente na Cidade das Nuvens, fazendo com que o movimento na Livraria Clarice diminuísse consideravelmente. No entanto, há vários dias, um Maybach permanecia estacionado em frente à porta. O veículo vigiava o local com persistência, sem nunca se retirar.
"Tia Clarice, olha o desenho que eu fiz!", Mel aproximou-se saltitante, erguendo um desenho feito com giz de cera, mas parou abruptamente ao notar a expressão de Clarice.
"Tia," Mel perguntou com cautela, "você está triste de novo?"
Clarice forçou um sorriso, mas em vez de responder, pegou o papel: "Que desenho lindo! Isso é um coelhinho?"
"Sim!", Mel assentiu vigorosamente, e então, com um movimento rápido da mãozinha, apontou para fora da janela. "É por causa daquelas pessoas ruins que voltaram? É por isso que você está sofrendo?"
Gabriel surgiu por trás das estantes, trazendo uma xícara de chá de flores fumegante. Ele se posicionou discretamente diante da janela, bloqueando a visão da rua.
"Quer que eu chame a polícia?", perguntou ele suavemente, lançando um olhar para o carro de luxo que estava ali há uma semana. Através da cortina de chuva, era possível ver dois vultos pequenos colados ao vidro do carro, observando a livraria com olhos ansiosos.
Clarice balançou a cabeça, respondendo com frieza: "Eles vão acabar desistindo."
O som da chuva aumentou e, de repente, a porta do carro do outro lado da rua se abriu bruscamente. Alice, segurando um enorme guarda-chuva preto que parecia pesado demais para ela, correu cambaleante em direção à livraria. A água encharcava seu vestido e seus sapatinhos de couro, mas ela não se importava; apenas batia obstinadamente na porta fechada.
"Mamãe! Por favor, abra a porta!", a voz infantil atravessou a chuva, embargada pelo choro. "Eu sei que você está aí dentro!"
"Mamãe, você está nos vendo! Por que não fala comigo e com o meu irmão? Você não nos quer mais de verdade?"
Os dedos de Clarice apertaram a cortina com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Gabriel postou-se ao lado dela sem dizer nada, cobrindo a mão trêmula de Clarice com sua palma aquecida.
"É a última vez", disse Clarice subitamente, com o olhar tornando-se firme. "Desta vez, vou colocar um ponto final nisso tudo."
Dito isso, ela pegou o celular, buscou aquele número que estava bloqueado há tanto tempo e enviou uma mensagem.
No café, Clarice escolheu uma mesa perto da janela, esperando calmamente pela chegada dos três. Pouco tempo depois, Henrique entrou acompanhado das crianças. Incomumente, ele não vestia terno; usava uma camisa branca simples, toda amassada e colada ao corpo, com olheiras profundas sob os olhos. As crianças também pareciam deploráveis, com roupas sujas e visivelmente mais magras.
"Mamãe!", Alice tentou se jogar sobre ela assim que a viu, mas Clarice esquivou-se suavemente antes de ser tocada.
"Sentem-se", Clarice apontou para as cadeiras à frente, com uma voz assustadoramente calma.
O pomo de adão de Henrique se moveu enquanto ele dizia com dificuldade: "Clarice, as crianças não estão nada bem. Elas já têm a saúde frágil e, sem os seus cuidados..."
"Eu sei", ela o interrompeu, retirando um envelope pardo de sua bolsa.
"Aqui estão os diários de crescimento que fiz para eles, desde o nascimento até agora. Todos os detalhes e cuidados necessários estão anotados. Tem também a lista de alergias e o registro de medicamentos. Eles não são mais bebês, acredito que você será capaz de cuidar deles."
O rosto de Henrique empalideceu instantaneamente. "O que você quer dizer com isso? Eu não quero esses papéis... Clarice, você não entende? Nós só queremos que você volte."
Clarice não olhou para ele. Em vez disso, baixou a cabeça com um sorriso irônico e, lentamente, levantou a manga esquerda, revelando uma cicatriz profunda e feia.
"Lembra-se disto? Foi o vidro quebrado quando o Vitor me empurrou escada abaixo. Naquela noite, levei doze pontos no hospital. Enquanto isso, vocês e a Isabela estavam em casa, em plena harmonia familiar, como se ela fosse a mãe perfeita."
O rosto de Vitor perdeu toda a cor. Ele olhou aterrorizado para a cicatriz, com os lábios tremendo: "Mamãe, não foi por querer..."
Clarice balançou a cabeça suavemente e levantou a saia, revelando outra marca terrível na perna. Era uma cicatriz enorme, parecida com uma centopeia, que atravessava sua pele como se um pedaço de carne tivesse sido arrancado.
"Isto foi daquela vez em que eu e a Isabela ficamos presas no elevador. Você disse que ela precisava dançar e, por isso, me abandonou sem hesitar. Por pouco, muito pouco, eu não perdi esta perna."
"Todos vocês dizem que 'não foi por querer'", a voz de Clarice era baixa, mas afiada como uma navalha. "Assim como mentiram deliberadamente dizendo que eu lhes dei manga, ou quando disseram na frente de todos que me odiavam."
Ela voltou o olhar para Henrique, com um sarcasmo indisfarçável.
"E quanto a mim? Todo o dano que sofri deve ser simplesmente ignorado só porque vocês dizem, com leveza, que 'não foi por querer'?"
Alice começou a chorar desesperadamente, tentando agarrar o braço da mãe: "Mas agora nós já sabemos que erramos! Mamãe, volta, por favor! Nunca mais faremos aquilo!"
Clarice olhou para a filha debulhada em lágrimas e sentiu uma paz estranha; a dor lancinante de antes não existia mais. Ela apenas esperou que o pranto diminuísse.
"Houve um tempo...", começou ela lentamente, cada palavra parecendo ser arrancada do peito. "Houve um tempo em que eu realmente amei muito vocês. A Alice nasceu prematura, pesando menos de dois quilos e meio; eu fiquei sete dias e sete noites sem dormir ao lado da incubadora. O Vitor sofria bullying e tinha medo de ir à escola; eu o acompanhava até a porta da sala todos os dias... O aniversário de cada um de vocês estava gravado no meu coração, eu fazia os bolos com minhas próprias mãos..."
"Mas o amor se desgasta até acabar."
"Quando vocês me empurraram da escada, disseram que nunca mais queriam me ver e escolheram a Isabela como mãe... ali, qualquer vínculo que tivéssemos chegou ao fim."
"Eu vim aqui hoje para lhes dizer uma coisa", Clarice levantou-se, deixando o dinheiro do café sob a xícara, e disse pausadamente: "Eu não vou voltar. Isso não é um castigo para vocês; é apenas porque eu já tenho uma vida nova. Não quero mais me afundar no lamaçal do passado nem ter qualquer envolvimento fútil com vocês."
Ela se virou e caminhou para fora sem hesitar. O choro dilacerante de Alice ecoou atrás dela, mas seus passos não vacilaram.
"Mamãe! Por favor! Não nos abandone!"
Clarice abriu a porta do café. Do outro lado da rua, Gabriel segurava a mão de Mel, esperando por ela ao lado do carro. Ao vê-la, a menina soltou-se do tio e correu em sua direção.
"Tia Clarice!", Mel jogou-se em seus braços, tocando o rosto dela com as mãozinhas ansiosas. "Você está bem? Eles te machucaram?"
Clarice abaixou-se, pegou a menina no colo e beijou sua bochecha macia: "A tia está bem. Vamos para casa."
Gabriel aproximou-se. Não perguntou nada, apenas envolveu os ombros dela com o braço em um gesto protetor. As silhuetas dos três caminhando em direção ao carro pareciam perfeitamente harmoniosas sob o sol.
Dentro do café, o choro de Alice perdia a força. Henrique observava a cena pela janela, paralisado, vendo Clarice entrar naquele carro desconhecido. Ele viu a garotinha encostar-se carinhosamente no colo dela, enquanto o homem de óculos, com toda a ternura do mundo, colocava o cinto de segurança nela...
"Papai," Vitor puxou a ponta de sua camisa, com uma voz carregada de um pavor inédito, "a mamãe... ela nos deixou de verdade?"
Henrique não respondeu. Toda a convicção que trazia consigo ao chegar havia desaparecido. Desta vez... parecia que eles realmente haviam perdido Clarice para sempre.