O trem era antigo, daqueles que sacodem e rangem, movendo-se com uma lentidão exasperante.
Tum-tum, tum-tum.
Cada batida dos trilhos parecia ecoar diretamente nos ossos do tempo.
Pela janela, a paisagem transformava-se: os arranha-céus davam lugar a campos sem fim. O ar, aos poucos, tornava-se denso com o perfume de terra molhada e grama recém-cortada.
A cidade natal de Marcos era um pequeno município do interior onde eu não pisava há muito tempo. A última vez fora no dia do nosso brinde de casamento. Naquela época, o céu exibia um azul impecável e o sol brilhava com generosidade. Ele segurava minha mão, levando-me de casa em casa para cumprimentar os parentes, com um sorriso impossível de esconder.
Ele me disse: “Clara, a partir de hoje, este lugar também é a sua casa”.
Minha casa.
Olhei para o meu reflexo pálido no vidro da janela e um sorriso amargo, quase de escárnio, surgiu em meus lábios. Uma casa para a qual eu sequer possuía a chave.
Ao desembarcar, peguei um ônibus sacolejante e, finalmente, parei na entrada de um beco que me parecia ao mesmo tempo familiar e estranho. O caminho de pedras, as paredes descascadas, o contraste entre o branco do reboco e o cinza das telhas. No topo dos muros, o lodo e ervas daninhas cresciam livremente. No ar, flutuava o aroma do refogado de algum vizinho.
Tudo estava exatamente como na minha memória. E, ao mesmo tempo, parecia que tudo havia mudado.
A velha residência da família ficava no fundo do beco. Uma porta de madeira, outrora pintada de um vermelho vivo, agora exibia a cor descascada, revelando as fibras secas da madeira por baixo. Pendurado nela, um cadeado de bronze coberto de ferrugem.
Eu não tinha a chave. Nunca imaginei que, um dia, eu me sentiria como uma estranha, barrada na porta da minha própria "casa".
Fiquei ali parada por um longo tempo. Um vazio imenso tomava conta de mim, sem saber o que fazer. Deveria chamar um chaveiro e forçar a entrada? Ou simplesmente dar meia-volta e ir embora?
Ir para onde? Para aquela "casa nova" onde morava com Marcos? Aquele lugar saturado com o cheiro de antisséptico e a aura da morte? O lugar que ele abandonou sem o menor remorso?
Eu não queria voltar para lá.
Justo quando o desespero começava a me vencer, a porta ao lado rangeu ao abrir. Uma senhora de cabelos brancos como a neve saiu carregando uma bacia com água. Ela me viu e parou, surpresa. Seus olhos turvos me estudaram por alguns instantes.
— Você é... a esposa do Marquinhos?
Assenti com a cabeça. — Sim, vovó. Sou eu.
— Oh, Clarinha! — O rosto da senhora iluminou-se com um sorriso caloroso. Ela pousou a bacia no chão e veio segurar minhas mãos. Eram mãos ásperas, mas carregavam um calor genuíno. — O que faz aqui sozinha? Onde está o Marcos?
— Ele... está viajando a trabalho — respondi.
— Viajando? — Ela franziu a testa, claramente descontente. — O Sr. Donato se foi e ele ainda está viajando? Que absurdo.
Abaixei os olhos, permanecendo em silêncio.
— Você está... trancada para fora? — perguntou ela, apontando para o cadeado.
Assenti, constrangida.
— Que cabeça de vento! — resmungou ela, sem que eu soubesse se falava de Marcos ou do meu sogro que já partira.
Ela entrou em casa e voltou rapidamente, balançando um molho de chaves.
— Antes de partir, seu sogro deixou uma chave reserva comigo.
Ela remexeu no molho, falando sem parar:
— Ele disse que, se acontecesse qualquer coisa, era para eu te ajudar a abrir a porta. Aquele homem pensava em tudo, coitado... mas não teve sorte na vida. Não aproveitou quase nada.
Ela colocou em minha palma uma chave que ainda conservava um brilho acobreado.
— Aqui está. Entre logo, o vento está ficando forte aqui fora.
Segurei a chave fria, sentindo um turbilhão de emoções. O Sr. Donato... ele tinha pensado até nisso. Será que ele já prevera que Marcos me deixaria desamparada? Será que ele sabia, no fundo, que o próprio filho não era alguém em quem se pudesse confiar?
— Muito obrigada, vovó — minha voz saiu ligeiramente rouca.
— Não precisa agradecer, querida. Vizinhos servem para isso. — Vovó Mercedes acenou e me lançou um último olhar profundo, carregado de compaixão. — Menina, você também tem tido uma vida difícil, não é?
Dito isso, ela suspirou, pegou sua bacia e voltou para dentro. A porta se fechou novamente.
O beco ficou em silêncio, restando apenas eu. Aproximei-me da porta de madeira vermelha e ergui a chave. Ela era antiga, com pequenos entalhes detalhados. Encaixei-a no buraco da fechadura, movendo-a lentamente. Encaixou perfeitamente. Girei com delicadeza.
Click.
O estalo nítido ecoou no silêncio do beco. O cadeado abriu.
Empurrei a porta. Um cheiro de lugar fechado, uma mistura de poeira e naftalina, veio ao meu encontro. Por trás daquela entrada, havia um mundo que parecia ter sido esquecido pelo tempo.
Respirei fundo e entrei. Eu sabia que a resposta que meu sogro me deixou estava em algum lugar ali dentro.