Ela abriu a boca, mas apenas um sorriso amargo escapou antes de perguntar:
"Me empurrar escada abaixo, me acusar falsamente de dar mangas para vocês comerem... essas coisas não foram feitas pelas suas próprias mãos?"
"Não querer que eu fosse a mãe de vocês, desejar apenas a Isabela naquele lugar... essas palavras não saíram de suas próprias bocas?"
"Eu acredito que, embora não tenha sido uma mãe perfeita, sempre fiz o meu melhor, dedicando todo o meu cuidado e amor a vocês."
"Não sei por que, no fim, recebi este resultado em troca."
As duas crianças ficaram com os rostos arfando de vergonha, incapazes de dizer uma palavra. Mas Vitor ainda não queria desistir e implorou mais uma vez:
"Mamãe, era porque não tínhamos juízo antes... Agora eu já sei que errei. Por favor, perdoe a gente, sim?"
Antes que Clarice pudesse responder, Mel disse timidamente:
"Tia Clarice..." A mãozinha dela apertou com força a barra da roupa de Clarice, e seus grandes olhos brilhantes se encheram de lágrimas. "Você vai embora?"
Gabriel inclinou-se para pegar a sobrinha no colo, confortando-a suavemente: "Mel, não tenha medo. A tia não vai te abandonar... Onde quer que ela escolha ir, devemos respeitar a decisão dela."
"Além disso, mesmo que a tia não esteja aqui, ela virá brincar com você no futuro."
Henrique, observando a cena, sentiu uma fúria sem nome arder em seu peito.
Com que direito esse estranho usava um tratamento tão íntimo? Com que direito ele segurava uma criança ao lado de Clarice, como se fossem uma família?
"Clarice," ele deu um passo à frente, com a voz grave. "Pare de ser teimosa. As crianças precisam de você."
"Será que você, como mãe, não quer criar seus próprios filhos biológicos e prefere cuidar da criança de outra pessoa?"
"Eu, teimosa... Eles precisam de mim?" Clarice levantou-se, e seus olhos brilharam com uma luz fria que Henrique jamais vira.
"Quando eles me empurraram escada abaixo, precisavam de mim?"
"Quando disseram na frente de todos que me odiavam, precisavam de mim?"
"Quando chamavam a Isabela de 'mamãe', eles precisavam de mim?"
Cada questionamento era como um tapa que deixava Henrique sem palavras. As crianças choravam ainda mais alto, agarrando-se desesperadamente à roupa de Clarice.
"Nós erramos... mamãe..." Alice chorava de forma soluçante. "De agora em diante só vamos amar você... nunca mais vamos te machucar."
Os olhos de Clarice ficaram marejados, mas sua postura permaneceu inabalável. Gabriel estendeu silenciosamente um lenço de papel, um gesto sutil que enfureceu Henrique completamente.
"Quem você pensa que é?", questionou ele friamente. "Que autoridade você tem para interferir em nossos assuntos familiares?"
Gabriel ajustou os óculos com calma e respondeu com a voz firme: "Sou amigo da Clarice. Quanto à autoridade..." Ele lançou um olhar para as crianças debulhadas em lágrimas. "Creio que aqueles que a feriram não têm autoridade para me fazer essa pergunta."
Os punhos de Henrique estalaram. No momento em que o clima parecia prestes a explodir, Mel disse baixinho: "Tia Clarice, a tigela que estamos fazendo ainda não terminou..."
Essas palavras fizeram Clarice finalmente tomar sua decisão. Ela respirou fundo e voltou-se para Henrique:
"Por favor, leve as crianças e saia... Vou dizer mais uma vez: não temos mais nada para conversar."
"Mamãe!" As duas crianças gritaram simultaneamente, abraçando as pernas dela com força. "Por favor, não nos deixe!"
A cena tornou-se um caos total. O dono do ateliê hesitava em chamar a polícia, enquanto outros clientes começavam a filmar com o celular.
Clarice estava no centro da tempestade, com o rosto pálido como papel. Henrique, ao olhar para as mãos trêmulas dela, percebeu subitamente que cometera um erro fatal. Ele achou que trazer as crianças a comoveria, mas esqueceu-se de considerar os sentimentos dela. Aquelas feridas não seriam apagadas com um pedido de desculpas; tal como uma porcelana estilhaçada, por mais que se conserte, as rachaduras permanecem.
"Vitor, Alice..." ele disse com dificuldade. "Vamos embora primeiro."
"Não!", gritou Vitor de forma mimada, sem soltar Clarice. "Queremos a mamãe! Você disse que hoje levaria a mamãe para casa com a gente, você prometeu!"
Clarice fechou os olhos e as lágrimas rolaram em silêncio. Gabriel colocou a mãozinha de Mel sobre a dela; a menina segurou o dedo de Clarice imediatamente, como se quisesse lhe dar forças.
"Henrique," Clarice disse com determinação, sua voz fria como gelo, sem qualquer hesitação. "Leve-os embora. Eu já disse: não sou capaz de perdoar o que vocês fizeram no passado."
"Se você veio para falar sobre a pensão deles, eu posso transferir o dinheiro sem hesitar."
"Quanto ao resto, não mencione mais nada. Se voltarem, eu não me importarei em chamar a polícia."
Aquelas palavras foram como um martelo pesado, estilhaçando completamente a autoconfiança de Henrique. Ele pensara que Clarice amoleceria, que voltaria por causa dos filhos. Mas não imaginava que a determinação dela em partir fosse tão absoluta.
Ele se curvou e pegou as duas crianças à força, ignorando o choro e a resistência delas, e caminhou em direção à porta. Antes de sair, ele olhou para trás uma última vez—
Clarice estava agachada confortando Mel, com Gabriel ao lado delas. As silhuetas dos três pareciam tão íntimas, tão repletas de uma felicidade que não lhe pertencia mais.