localização atual: Novela Mágica Moderno A Herança no Vaso de Conservas Capítulo 3

《A Herança no Vaso de Conservas》Capítulo 3

O Sr. Donato partiu no final do quinto mês.

Era um dia cinzento e chuvoso. A chuva lá fora caía persistente, batendo contra o vidro da janela em um ritmo melancólico. O quarto estava mergulhado em um silêncio profundo, quebrado apenas pelo som fraco e rítmico do respirador.

Meu sogro estava em coma há três dias. O médico havia sido claro: ele poderia nos deixar a qualquer momento.

Fiquei ao lado de sua cama, segurando sua mão ressequida. Aquela mão estava gélida, desprovida de qualquer calor vital. Limpei seu rosto e suas mãos repetidamente, querendo que ele partisse com o mínimo de dignidade que lhe restava.

Não tentei ligar para Marcos novamente. Sabia que seria inútil. O que eu poderia esperar de um homem que se recusava a voltar até para a despedida final de seu próprio pai?

A indignação que eu sentia antes já havia se dissipado. O que restava agora era apenas um vazio gelado e desolador.

Ao entardecer, o Sr. Donato despertou subitamente. Seus olhos se abriram como frestas, e suas pupilas turvas giraram lentamente até encontrarem o meu rosto. Uma névoa branca de condensação embaçou a máscara do respirador.

— Pai, o senhor acordou? — aproximei-me, surpresa.

Ele tentou articular algo, mas apenas um som gutural e arranhado saiu de sua garganta. Retirei a máscara apressadamente. Ele buscou o ar com avidez, o peito subindo e descendo em espasmos violentos.

— Água...

Corri para pegar um copo e, com um cotonete, umedeci seus lábios rachados, gota a gota. O brilho em seus olhos parecia ter recuperado uma clareza momentânea.

Ele agarrou minha mão com uma força inesperada. Seus dedos, pele e osso, prenderam-me como pinças de ferro.

— Clarinha... — Sua voz era um sopro, como a chama de uma vela prestes a se apagar no vento. — Minha boa menina... sinto tanto por você...

Lágrimas rolaram pelos sulcos de suas rugas, perdendo-se nos fios grisalhos de suas têmporas.

— O Marcos... ele não te merece... ele falhou com você...

Balancei a cabeça, sentindo um nó na garganta.

— Pai, não se esforce. Não diga nada agora.

— Não... deixe-me falar...

Ele arquejava pesadamente, os olhos fixos em mim. Havia culpa naquela expressão, mas também uma determinação que eu não conseguia decifrar.

— Você... precisa voltar para a nossa antiga casa... no interior...

— Vá até o quintal... procure o pote de conservas... aquele grande...

— Debbaixo dele... eu... eu escondi algo...

Sua voz tornava-se cada vez mais tênue. Cada palavra parecia ser extraída das últimas reservas de sua vida.

— Pegue... é... é seu...

— Proteja-se... cuide de si mesma...

Após pronunciar a última frase, a luz em seus olhos apagou-se completamente. A mão que me prendia relaxou, caindo sem vida sobre o lençol. O monitor cardíaco emitiu um som contínuo e agudo, uma sirene ensurdecedora anunciando o fim.

Eu sabia. Ele havia partido.

Segurei sua mão, que esfriava gradualmente, e me ajoelhei ao lado da cama, deixando as lágrimas fluírem como um rio. A última pessoa neste mundo que realmente se importava comigo tinha ido embora.

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No quarto, restavam apenas o som da chuva lá fora e aquele alarme estridente.

Não sei por quanto tempo chorei. Chorei até que meus olhos ardessem e não houvesse mais uma única gota para derramar. Levantei-me, limpei o rosto e, metodicamente, comecei a organizar os trâmites do funeral.

Liguei para a funerária. Enviei o obituário aos parentes. Na minha lista de contatos, passei pelo nome "Marcos" sem hesitar por um segundo sequer. Para mim, aquele homem também estava morto.

O velório do Sr. Donato foi simples. Poucos parentes compareceram, e os olhares que me lançavam eram carregados de piedade e compaixão. Eles sussurravam uns com os outros. Diziam que a família tinha sorte por ter uma nora tão dedicada, e que era uma vergonha o filho que eles haviam criado.

Ouvi tudo com o rosto impassível. Nada daquilo importava mais.

No dia da cremação, caminhei à frente segurando a urna cinerária. Marcos não apareceu. Enterrei as cinzas de seu pai em um cemitério na periferia da cidade. Na lápide, mandei gravar apenas o nome do Sr. Donato. Sem menção a esposa, sem menção a filhos. Ele veio ao mundo sozinho, e sozinho deveria partir.

Após resolver tudo, tranquei-me em casa por três dias. As cenas dos últimos seis meses passavam pela minha mente como um filme em tons de cinza. A frieza de Marcos. O sofrimento do meu sogro. E aquele pedido estranho no leito de morte.

O pote de conservas... Debbaixo dele... Algo escondido...

O que poderia ser? A imagem de mim mesma assentindo trêmula ainda estava vívida em minha memória. Eu havia prometido a ele. Não poderia quebrar minha palavra.

No quarto dia, comprei a primeira passagem disponível de trem para a cidade natal da família. Não sabia o que me esperava naquela viagem de volta às raízes. Mas eu tinha um pressentimento avassalador.

Aquelas respostas mudariam completamente tudo o que eu pensava sobre aquele lar, e sobre o homem que um dia chamei de marido.

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