Como é a sensação de cuidar de um paciente com câncer terminal?
É o cheiro de remédios que flutua no ar o tempo todo, impregnando as cortinas e a alma. É o som das tosses suprimidas de dor que rasgam o silêncio da madrugada. São os vômitos e as excreções da incontinência que parecem nunca ter fim. E é, acima de tudo, ver uma vida definhar e murchar diante de seus olhos, pétala por pétala, até que não reste mais nada.
No primeiro mês após a partida de Marcos, eu praticamente esqueci o que era ter uma noite inteira de sono.
O estado do Sr. Donato declinou com uma rapidez cruel. Os efeitos colaterais da quimioterapia tiraram dele qualquer vestígio de apetite. Tentei de tudo: sopas caseiras, caldos de carne, purês de peixe, sucos de vegetais frescos. Mas, na maioria das vezes, ele engolia uma colherada para vomitar duas logo em seguida.
Em pouco tempo, ele se tornou apenas um amontoado de ossos sob a pele, com os olhos profundamente encovados em órbitas escuras.
Marcos ainda ligava todos os dias. Eram chamadas curtas, quase protocolares.
— Como está o meu pai? — Continua na mesma. — Obrigado por se esforçar tanto. — De nada.
E então, o silêncio.
Eu tinha tantas palavras guardadas. Queria perguntar se o projeto estava indo bem, quando ele voltaria para casa... Queria até perguntar se ele tinha sentido, por um segundo que fosse, pena de mim — deixada para trás com o fardo — ou de seu pai moribundo.
Mas, sempre que a voz chegava à garganta, eu a engolia de volta. De que adiantaria? Eu já conhecia a resposta padrão: “Estou muito ocupado por aqui”.
No segundo mês, as ligações passaram a ser a cada dois ou três dias. O conteúdo era o mesmo: breve, frio, mecânico.
Comecei a entrar em um estado de dormência. Durante o dia, levava o Sr. Donato ao hospital para a radioterapia; enfrentava filas, pagava taxas, buscava medicamentos. À noite, voltava para casa para limpá-lo, medicá-lo e lidar com as crises inesperadas. Meu mundo foi compactado em um trajeto de duas pontas: o quarto e o hospital.
Minhas conversas com meu sogro eram raras. Por causa da dor e da medicação, ele passava a maior parte do tempo em um sono letárgico. Quando estava lúcido, apenas mantinha os olhos abertos, fitando o teto em silêncio.
Certa vez, enquanto eu limpava suas costas e sentia a proeminência de suas escápulas, não consegui evitar comentar:
— Pai, o senhor está magro demais.
Ele não se virou. Sua voz saiu rouca, como o fole de um instrumento velho e quebrado:
— Clarinha... sinto muito por você estar passando por tudo isso.
Minhas lágrimas caíram instantaneamente, pesadas. Não era autocomiseração. Era a dor aguda de ser, finalmente, compreendida. Neste teto, a única pessoa que parecia se importar com o meu sofrimento era justamente ele.
No terceiro mês, a ligação de Marcos se tornou semanal. Às vezes, o intervalo era ainda maior.
Parei de esperar pelo toque do celular. Mas, ocasionalmente, no meio da noite, eu olhava para a tela iluminada e me perdia em pensamentos: O que ele estaria fazendo? Como estaria o tempo na cidade onde ele estava? Haveria outra pessoa ao lado dele?
No quarto mês, o corpo do Sr. Donato colapsou por completo. Ele perdeu o controle das funções fisiológicas e sua consciência tornou-se nebulosa. O médico foi direto: era hora de se preparar para o pior.
Naquela noite, liguei para Marcos. Chamou por muito tempo, sem resposta. Insisti obstinadamente, discando de novo e de novo. Finalmente, quando a ligação estava prestes a cair na caixa postal, ele atendeu.
O som do outro lado era caótico. Havia música alta e risadas femininas. Meu coração afundou, atingindo o fundo de um abismo.
— Alô? Quem é? — A voz de Marcos soava embriagada e impaciente.
— Sou eu, Clara.
A música ao fundo baixou um pouco de volume.
— Ah... aconteceu algo? Estou no meio de um compromisso de negócios aqui.
“Compromisso de negócios”. Que pretexto conveniente.
— O seu pai está morrendo — ouvi minha própria voz dizer, em um tom assustadoramente calmo.
Houve silêncio do outro lado. Um silêncio longo, sufocante. Tão demorado que cheguei a pensar que a linha havia caído.
— ... Entendi — ele disse, por fim. — Vou tentar resolver as coisas por aqui o mais rápido possível.
E então, desligou.
Segurei o celular, ouvindo o sinal de linha ocupada, e de repente senti vontade de rir. “Resolver”? Resolver o projeto ou resolver a situação com aquela mulher?
A partir daquele dia, as ligações de Marcos desapareceram por completo. Eu não conseguia mais completar as chamadas. Do outro lado, ouvia apenas a mensagem eletrônica gelada: “O número discado encontra-se desligado ou fora da área de cobertura”.
Eu me senti abandonada pelo mundo inteiro. Ou melhor, abandonada por ele.
Junto com seu pai, que estava prestes a dar o último suspiro.