No escritório, Henrique estava imerso em documentos quando seu celular vibrou; era o mordomo.
"Senhor, o patrãozinho está com febre, 39,5 graus. Estamos realmente preocupados que algo grave aconteça..."
Henrique franziu o cenho, perguntando de imediato: "Chamaram o médico?"
"Chamamos, mas a Srta. Isabela disse que não era urgente. Ela... ela saiu para uma festa."
"O quê?" A expressão de Henrique mudou drasticamente, sua voz carregada de surpresa e indignação. "Estou indo agora mesmo. Peça ao médico da família para avaliá-lo imediatamente."
Ao chegar em casa sob uma chuva torrencial, ele encontrou Vitor com o rosto em brasas, o pequeno corpo tremendo sem parar. O médico da família estava administrando o soro, com um semblante pesado.
"Como ficou tão sério?"
"Sr. Henrique, a febre alta persiste há quatro horas. Mais um pouco e poderia ter evoluído para uma pneumonia", explicou o médico em voz baixa. "O organismo dele já é sensível, o tratamento deveria ter começado muito antes."
O peito de Henrique se apertou.
Ele se lembrou... quando Clarice estava lá, bastava um pequeno desconforto para que ela percebesse. Frequentemente, ela nem precisava de termômetro para saber exatamente a temperatura deles.
"Onde está a Isabela? Por que ainda não a vi?"
O mordomo hesitou, mas acabou revelando: "A Srta. Isabela disse... que era apenas um resfriado comum. Ela foi ao aniversário da Sra. Lee, disse que não podia recusar o convite..."
Henrique sacou o celular e discou para Isabela. O aparelho tocou por muito tempo antes de ser atendido, com um fundo ruidoso de risadas e música.
"Henrique?" A voz de Isabela soava levemente ébria e alegre, como se não tivesse a menor preocupação no mundo.
"O Vitor está com quase 40 graus de febre. Onde você está?"
"Ah... eu já estou voltando!" Percebendo a rispidez inédita de Henrique, o tom dela tornou-se subitamente ansioso e vitimista: "Sinto muito, querido, achei que fosse só um resfriado... Estou indo agora mesmo."
Uma hora depois, Isabela surgiu apressada, ainda vestindo o traje de gala da festa, impecavelmente bela. Ela se lançou à frente de Henrique com os olhos marejados, em uma pose de fragilidade: "Henrique, eu realmente não sabia que o Vitor estava tão mal..."
Henrique olhou para a maquiagem perfeita dela e sentiu o cheiro de álcool que emanava de suas roupas. Uma irritação profunda subiu por seu peito. No entanto, diante daquele rosto que ele tanto desejara no passado, seu coração ainda amoleceu um pouco:
"Desta vez passa, mas tenha mais atenção no futuro."
Tarde da noite, a febre de Vitor finalmente baixou. O celular de Henrique tocou novamente; era o assistente com uma emergência da empresa.
"Sr. Henrique, surgiu um problema crítico que exige sua presença imediata."
Henrique olhou para o filho adormecido na cama e hesitou: "Isabela, cuide dele por enquanto. Eu resolvo isso e volto logo."
Isabela assentiu com doçura, exibindo uma expressão serena: "Pode ir tranquilo, cuidarei muito bem do Vitor."
Henrique saiu apressado, mas ao chegar à porta do hospital e tatear os bolsos, percebeu que esquecera a chave do carro no quarto. Ao retornar, antes mesmo de entrar, ouviu a voz estridente de Isabela vindo de dentro:
"Pirralho maldito! Pare de fingir! Por sua causa perdi o resto da festa!"
A voz fraca e chorosa de Vitor ecoou em resposta: "Desculpe, Tia Bela... eu não fiz por mal..."
"Estou te avisando: não tente se fazer de vítima na frente do seu pai!", a voz de Isabela era de uma crueldade aterradora. "Se abrir a boca para reclamar, você vai ver o que eu vou fazer com você!"
"Eu... eu não vou dizer nada...", soluçava Vitor. "Vou ser obediente... por favor, não me bata..."
"Hum, acho bom. Igualzinho àquela vagabunda da sua mãe—"
Do lado de fora, Henrique sentiu o mundo desabar. A imagem da mulher pura e bondosa que ele amara ruiu completamente em um instante.
A porta foi escancarada com um chute violento. Isabela virou-se aterrorizada, encontrando o olhar furibundo de Henrique.
"Hen... Henrique...", o rosto dela ficou pálido como cera. Ela tentou balbuciar: "Eu posso explicar... eu só..."
Mas Henrique já havia avançado e desferido um tapa violento em seu rosto. Isabela cambaleou contra a parede, seu penteado sofisticado desmoronando.
"Eu nunca imaginei que, pelas minhas costas, essa era a 'boa mãe' que você fingia ser...?"
"Se hoje você bate nele e o ameaça, amanhã vai querer mandar em mim?"
"Fora!", a voz de Henrique era gélida. "Pegue todas as suas coisas e saia da mansão agora mesmo."
"Não quero ver a sua cara nunca mais."
Isabela cobriu o rosto, as lágrimas borrando toda a maquiagem: "Henrique, eu só estava estressada... eu realmente amo essas crianças... eu vou tratá-los bem de agora em diante, eu juro."
"Amor?", Henrique deu um riso de escárnio. "Bater e ameaçar é a sua forma de amar?"
Ele voltou-se para a cama; Vitor estava encolhido, o rostinho banhado em lágrimas. O coração de Henrique parecia estar sendo retalhado. Quão cego ele fora para não perceber o terror em que os filhos viviam?
"Papai...", Vitor estendeu a mãozinha, os olhos cheios de pavor. "Eu errei... vou obedecer a tia, por favor, não me jogue fora..."
Henrique ajoelhou-se ao lado da cama e segurou a mão quente do filho: "Não, o papai é quem errou."
Ele olhou para Isabela com um desprezo que a fez recuar um passo. "Nunca pensei que você fosse esse tipo de pessoa."
Isabela tentou argumentar, mas Henrique já apertara o botão de chamada: "Segurança, retirem esta senhora daqui imediatamente."
Quando os gritos de Isabela finalmente sumiram no corredor, Henrique sentou-se exausto à beira da cama. Vitor segurou timidamente sua manga e sussurrou: "Papai... eu sinto falta da mamãe. Você vai trazer ela de volta?"
A garganta de Henrique travou. Ele se lembrou do vulto decidido de Clarice indo embora, e de toda a frieza e dor que ele lhe causara. O peito foi invadido por uma dor surda.
"Papai...", Alice, que acordara sem que percebessem, aproximou-se esfregando os olhos. "Eu também quero a mamãe. Quando ela volta?"
Henrique abraçou os dois filhos, sem saber o que dizer, sentindo apenas um amargor indescritível inundar sua alma.