A partir de então, sob as ordens implícitas de Isabela, os empregados da casa começaram a negligenciar as duas crianças.
Não apenas ninguém mais os levava à escola, como também, gradualmente, pararam de preparar refeições específicas para eles. Vitor e Alice eram obrigados a comer apenas as sobras do que restava após Isabela se satisfazer.
O sol escaldante do verão castigava a capital, e o zumbido do ar-condicionado na mansão da família Henrique era constante.
Vitor e Alice estavam deitados no tapete da sala de jogos montando Lego, lançando olhares furtivos para Isabela, que testava tons de batom diante do espelho da penteadeira.
"Tia Bela," Alice começou timidamente, "podemos tomar sorvete? Você tinha prometido..."
Na semana passada, Henrique havia presenteado Isabela com novas joias. Em um momento de euforia, ela chutara levemente as crianças que brincavam no chão e dissera que as levaria para tomar sorvete mais tarde.
Isabela, contudo, sequer virou a cabeça. Respondeu com impaciência: "Não está vendo que estou ocupada?"
"Mas..." Vitor reuniu coragem e murmurou com receio: "Você disse na semana passada que nos levaria..."
"Que irritação!" Isabela virou-se abruptamente, fazendo o batom borrar e criar um rastro vermelho sinistro no canto de sua boca. "Vocês só pensam em comer! Olhem só como estão ficando gordos!"
As duas crianças se encolheram, aterrorizadas.
Desde que a mãe partira, eles nunca mais sentiram um pingo de carinho vindo de Isabela. O sorriso doce e afável de outrora desaparecera, dando lugar a uma testa sempre franzida de irritação e gritos agudos.
"Sumam daqui e voltem para os seus quartos!" Isabela puxou um lenço umedecido para limpar o batom, berrando com desprezo: "Só de olhar para vocês eu sinto náuseas!"
As lágrimas inundaram os olhos de Alice, mas ela não ousou emitir um som. Da última vez que chorou, Isabela beliscou sua coxa com força e a ameaçou, dizendo que se contasse ao papai, jogaria todos os seus brinquedos favoritos no lixo.
Naquele dia, Henrique notificou, de forma incomum, que voltaria para dormir em casa.
Quando ele chegou à noite, as crianças já estavam dormindo.
Isabela o recebeu vestindo uma camisola de seda, exalando um perfume suave. Sua pele, meticulosamente tratada, parecia mais delicada do que nunca sob a luz suave.
"Finalmente o trabalho deu uma trégua e você resolveu aparecer em casa?" ela perguntou com uma voz doce e manhosa, pegando a pasta dele.
"Houve um problema em um processo de fusão, mas agora poderei ficar mais presente por uns dias." Henrique afrouxou a gravata, olhou ao redor e perguntou subitamente: "Onde estão as crianças? Faz tempo que não as vejo."
"Já dormiram. Não se preocupe, estou cuidando muito bem deles", Isabela sorriu enquanto entrelaçava seu braço no dele, pedindo com dengo: "Henrique, amanhã tem um jantar beneficente e eu não tenho um colar que combine... Você poderia...?"
Henrique mal esperou ela terminar e assentiu distraído: "Pode escolher o que quiser. Use o meu cartão preto diretamente."
No café da manhã do dia seguinte, ele finalmente viu os filhos descerem para comer.
No entanto, o que intrigou Henrique foi o silêncio atípico de Vitor e Alice. Olhando com atenção, percebeu que ambos pareciam mais magros, com os queixos mais protuberantes.
Henrique pousou a xícara de café e franziu o cenho: "O que houve? Estão se sentindo mal?"
"N-não! Nada!" Ao ouvir a pergunta, Vitor negou imediatamente com a cabeça, com as mãos tremendo levemente, fazendo a colher tilintar contra a borda da tigela.
Isabela saiu da cozinha trazendo uma travessa de frutas e, ao presenciar a cena, soltou um riso leve: "Henrique, não se preocupe, os meninos estão ótimos."
Ela se inclinou e acariciou o cabelo de Vitor com uma ternura forçada.
"Não é mesmo, Vitor querido?"
Vitor paralisou completamente e murmurou: "É..."
O celular de Henrique tocou de repente. Ele olhou para o identificador de chamadas e levantou-se da mesa: "Assunto da empresa, preciso ir."
Assim que a porta se fechou, o sorriso de Isabela evaporou instantaneamente.
Ela arrancou o copo de leite das mãos de Alice, com o rosto transfigurado pela impaciência: "Beba logo isso! Quer chegar atrasada? Comam rápido!"
"Enquanto o pai de vocês estiver em casa nestes dias, tratem de ir para a escola direitinho e não me causem problemas."
"Caso contrário, não me culpem pelo que vai acontecer."
A ameaça foi extremamente eficaz. Alice estremeceu e começou a enfiar o pão na boca às pressas, acabando por se engasgar, com o rosto ficando roxo.
"Inútil!", Isabela franziu o cenho com nojo, sem sequer prestar socorro. Vociferou com desprezo: "Que fracasso de criança... Igualzinha àquela sua mãe!"