Meu marido anunciou, de repente, que precisaria viajar a trabalho por seis meses. Antes que eu pudesse processar a notícia, ele já havia trazido seu pai, debilitado pelo câncer, para morar conosco.
— Deixo o meu pai em suas mãos. Eu confio em você — ele soltou essas palavras e, sem hesitar, virou as costas e partiu.
Eu observava o Sr. Donato na cama, definhando dia após dia, enquanto sentia um nó sufocante apertar minha garganta.
Durante meio ano, cuidei de cada uma de suas necessidades básicas sozinha. Acompanhei suas sessões de quimioterapia, testemunhando sua luta diária contra uma dor que parecia não ter fim.
As ligações de Marcos tornaram-se cada vez mais raras, até que cessaram completamente.
Em seus últimos momentos, o Sr. Donato segurou minha mão com firmeza. Lágrimas pesadas escorriam pelos sulcos de suas rugas.
— Minha querida... volte para a nossa antiga casa. Debbaixo do pote de conservas... eu escondi algo para você.
Sua voz era um sussurro, mas pesou como um martelo golpeando meu coração.
Assenti, trêmula, sem imaginar que aquela viagem ao passado mudaria completamente tudo o que eu acreditava saber sobre esta família.
01 Uma Responsabilidade Imposta
Marcos disse que ficaria fora por seis meses.
Eu estava no meio do caminho, descascando uma maçã; a faca parou no ar.
— Assim, tão de repente?
Ele nem sequer me olhou. Foi direto para o quarto e puxou aquela mala de viagem que não usávamos há muito tempo.
A poeira acumulada subiu, dançando sob os raios de sol que entravam pela janela.
— É um projeto urgente, não tenho escolha.
Sua voz veio abafada de dentro do quarto.
Coloquei a maçã fatiada no prato, engolindo o desconforto que começava a borbulhar no meu peito. Estávamos casados há três anos e ele sempre fora um homem ocupado.
Eu já deveria estar acostumada.
Mas eu não fazia ideia de que, desta vez, seria diferente.
Meia hora depois, a campainha tocou.
Quando Marcos abriu a porta, um cheiro forte e penetrante de antisséptico invadiu a sala. Ele amparava um senhor extremamente magro.
Era o Sr. Donato, meu sogro.
Ele vestia um pijama de hospital desbotado, sua pele tinha um tom amarelado e os lábios estavam secos, rachados. Apoiava-se em Marcos como se cada passo exigisse o último sopro de sua energia.
— O que o seu pai está fazendo aqui? — perguntei, indo apressadamente ao encontro deles.
Marcos ajudou o pai a se sentar no sofá com movimentos leves, mas seus olhos evitavam os meus a todo custo.
— Ele não está bem. O hospital está sem leitos, então decidi trazê-lo para ficar conosco.
Enquanto falava, ele tirou um maço de documentos médicos do bolso e os jogou sobre a mesa de centro. No topo da pilha, o diagnóstico gritava: "Câncer de pulmão em estágio terminal".
Minha mente estancou, como se uma agulha tivesse sido cravada profundamente no meu cérebro.
— Terminal?
— É. O médico disse que, na melhor das hipóteses, ele tem seis meses.
Marcos falou com uma naturalidade assustadora, como se estivesse comentando sobre a previsão do tempo.
Ele abriu a mala e começou a socar as roupas lá dentro. Camisetas, camisas, meias, uma peça após a outra.
Fiquei estática, observando suas costas ocupadas, sentindo minhas mãos e pés gelarem. O cheiro de desinfetante, o odor de mofo das roupas guardadas e um medo indescritível se misturavam no ar, tornando a atmosfera da sala densa, viscosa.
— Marcos... e a sua viagem?
Ele fechou o zíper da mala com um ruído estridente e seco.
— O pessoal do projeto está me pressionando, eu tenho que ir.
Finalmente, ele se virou e me encarou. Em seus olhos não havia culpa, nem saudade; apenas uma determinação fria e inquestionável.
— Clara, deixo o meu pai com você.
— Você é a pessoa mais dedicada que conheço. Eu confio em você.
Aquelas palavras soaram como o estalo de um cadeado se fechando ao redor do meu corpo.
Abri a boca, mas não consegui articular um único som.
O que eu poderia dizer? Que ele estava sendo egoísta? Que era um filho ingrato? Ou simplesmente que eu não aceitava aquilo?
O Sr. Donato permanecia sentado no sofá, observando-nos com olhos turvos, em silêncio absoluto. Parecia uma marionete cujo destino já havia sido selado por terceiros.
Marcos pegou a mala e apanhou as chaves do carro sobre o aparador da entrada.
— Estou indo.
Ele caminhou até a porta sem olhar para trás.
— Me ligue se precisar de algo.
A porta se abriu e se fechou logo em seguida. O estrondo pesado da fechadura ecoou, separando nossos mundos.
Fiquei ali, parada no centro da sala, olhando para o homem debilitado no sofá e depois para a porta trancada.
O ar parecia entalado em meus pulmões. Não subia, nem descia.
Sobre a mesa, as letras do diagnóstico pareciam pequenos insetos negros rastejando para dentro dos meus olhos.
Câncer terminal. No máximo seis meses.
E o meu marido, convenientemente, estaria fora por exatamente seis meses.
Haveria no mundo uma coincidência tão perfeita quanto essa?
Eu não ousava aprofundar esse pensamento.
O prato com a maçã que eu havia descascado para ele continuava ali, intocado. A polpa branca já começava a oxidar, ganhando um tom amarelado e sem vida.
Exatamente como o meu coração naquele momento.