Somente após um mês inteiro do desaparecimento de Clarice é que Henrique começou a notar algo estranho.
A princípio, ele pensou que Clarice estivesse apenas jogando algum joguinho de "difícil de alcançar" para atrair sua atenção. Foi apenas quando percebeu que não conseguia contatá-la de forma alguma que ele começou a levar a situação um pouco mais a sério.
Ele ligou para os antigos amigos dela, mas todos diziam que não viam Clarice há tempos.
Impaciente, ele desligou o telefone, foi até o escritório, ligou o computador e acessou as informações da conta bancária dela.
A tela mostrava que o saldo do cartão preto que ele lhe dera permanecia intacto, no zero.
Ao partir, ela levara apenas suas próprias economias; não tocou em um centavo sequer da fortuna da família Henrique.
"Ora, que orgulhosa", ele ironizou com um sorriso frio, fechando o laptop.
Ele acreditava que ela só queria que eles fossem atrás dela. Uma tática tão infantil, pensou ele, jamais surtiria efeito.
No café da manhã do dia seguinte, Vitor e Alice tagarelavam sobre a escola, enquanto Isabela servia a comida com delicadeza, lançando sorrisos doces para Henrique de tempos em tempos.
A cena parecia harmoniosa e perfeita, mas, por algum motivo, Henrique sentia que faltava algo.
"Papai, semana que vem tem a gincana de pais e filhos na escola. Você pode ir com a Tia Bela?" Alice perguntou com os olhos brilhando.
"Claro", respondeu Henrique automaticamente, hesitando logo em seguida. "Antigamente... quem acompanhava vocês? Era a mãe de vocês?"
As duas crianças fizeram simultaneamente uma expressão de desgosto.
"Era ela... mas a gente nem queria que ela fosse!", Vitor fez um bico, com uma expressão fria no rostinho.
"Ela só sabia ficar em casa lavando roupa e cozinhando, nem gostava de sair. Ela não sabia se arrumar, a gente tinha vergonha que ela aparecesse lá."
"Isso mesmo!", concordou Alice. "A Tia Bela sempre se veste de forma maravilhosa, todos os colegas ficam com inveja da gente!"
Isabela sorriu timidamente e serviu uma xícara de café para Henrique:
"Henrique, experimente. Pedi para os empregados prepararem exatamente do seu jeito."
Henrique deu um gole e, involuntariamente, franziu a testa — estava doce demais.
Antigamente, seu café era moído na hora por Clarice, e ela nunca cometia esse erro. Ela lembrava que ele bebia café sem açúcar, apenas com uma colher de leite.
"O que foi? Não está do seu gosto?" Isabela perguntou, preocupada.
"Não é nada." Ele pousou a xícara e, no fim, não disse nada. Apenas ajustou as abotoaduras e declarou: "Vou para a empresa."
Nos dias que se seguiram, a mansão parecia seguir sua rotina normal, mas mudanças sutis ocorriam silenciosamente.
Isabela nunca havia feito tarefas domésticas na vida. Após tentar algumas vezes, acabou deixando tudo nas mãos dos empregados.
Embora tudo na casa parecesse funcionar mecanicamente bem, Henrique e as crianças percebiam, em seus sentidos mais aguçados, que algo havia mudado.
Não havia mais roupas confortáveis e macias, passadas à mão com cuidado. O copo de leite antes de dormir e os jantares preparados meticulosamente de acordo com o paladar de cada um haviam desaparecido.
Embora a vida seguisse sem grandes problemas logísticos, a sensação de acolhimento e o calor familiar que antes preenchiam a casa haviam se esvaído.
Até que, em uma noite, Henrique voltou para casa tarde após um evento de negócios.
Ele sentou-se no sofá com passos vacilantes e dispensou o assistente com um gesto:
"Não preciso de mais nada, pode ir."
Assim que a porta se fechou, o silêncio tomou conta da sala. Henrique massageou as têmporas, exausto, e chamou por instinto:
"Alguém?"
Ao falar, ele subitamente percebeu que a recepção daquela noite era diferente de todas as outras.
Não havia uma luz suave deixada acesa para ele, nem o chá de ressaca fumegante sobre a mesa de centro.
"Lúcia? Eu não disse que tinha um compromisso hoje? Por que não prepararam nada?"
Ele ligou para o dormitório dos empregados e perguntou com voz grave.
Pouco depois, a governanta Lúcia apareceu apressada na sala, visivelmente nervosa:
"Mil perdões, Sr. Henrique... Antes, tudo o que dizia respeito à sua chegada à noite era feito pessoalmente pela patroa, por isso acabamos esquecendo de deixar pronto..."
"E o chá de ressaca que o senhor mencionou... era a patroa quem comprava os ingredientes e ficava na cozinha por horas vigiando o fogo para preparar. Ela nunca deixava a gente tocar em nada..."
"Se o senhor quiser, eu posso tentar descobrir como se faz agora mesmo."
O coração de Henrique pareceu ser atingido por algo pesado. Em um instante, um sentimento estranho começou a brotar.
Então, todos aqueles detalhes... eram preparados por ela, um por um, com as próprias mãos.
Embora ele soubesse que ela se dedicava à casa, nunca, até este momento, o sentimento de arrependimento fora tão nítido... Ele sentiu, pela primeira vez, que tinha uma dívida imensa com ela.