Clarice chegou à Cidade das Nuvens. Embora fosse um lugar desconhecido, era exatamente essa estranheza que lhe proporcionava uma sensação de segurança.
Após uma pesquisa cuidadosa de quinze dias, ela abriu uma pequena livraria chamada "Clarice" em uma rua pacata do bairro histórico.
O espaço não era grande, mas a iluminação natural era perfeita.
Ela dedicou três meses à reforma, transformando o antigo imóvel deteriorado em um espaço de leitura acolhedor e caloroso.
A estação chuvosa na Cidade das Nuvens era longa. Clarice estava parada diante da porta de vidro da livraria, observando a cortina de chuva fina lá fora, perdida em seus pensamentos.
De repente, o sino da porta emitiu um tilintar cristalino.
"Bem-vindo", disse ela, virando-se por instinto, mas paralisou de leve ao ver quem entrava.
O homem parado à porta tinha um porte elegante e segurava um longo guarda-chuva preto; as gotas de água escorriam pela superfície do objeto e pingavam no chão.
Em seus braços, ele carregava uma garotinha de cerca de cinco ou seis anos, com duas trancinhas no cabelo, que se encolhia timidamente contra o peito dele.
"Com licença, você teria livros ilustrados adequados para esta idade?" O homem fechou o guarda-chuva, sua voz soando extremamente gentil.
Só então Clarice conseguiu ver seu rosto com clareza—
Traços definidos, olhos expressivos e um par de óculos de armação dourada sobre o nariz; por trás das lentes, seus olhos carregavam um leve brilho de sorriso.
Ela ficou atônita.
"Veterano Gabriel?"
O homem visivelmente também se surpreendeu. Ele a observou com atenção por alguns instantes até que, de repente, percebeu: "Clarice?"
As memórias vieram à tona como uma maré.
Gabriel, uma figura lendária da faculdade de medicina, dois anos à frente dela. Naquela época, ele já era um gênio renomado na universidade: não apenas tinha notas excelentes, mas também tocava piano divinamente, sendo o "príncipe encantado" de inúmeras estudantes.
"Que coincidência", ela sorriu levemente, apontando para a menina em seus braços. "E esta é...?"
"Minha sobrinha, Mel", Gabriel deu um tapinha carinhoso nas costas da pequena.
"Melzinha, cumprimente a moça."
A menina ergueu o rosto, revelando traços delicados como uma boneca de porcelana, e murmurou timidamente: "Olá."
Sua voz era doce como um marshmallow.
O coração de Clarice derreteu instantaneamente.
Ela se agachou para ficar na altura dos olhos de Mel: "Olá, Melzinha. Que tipo de livro você está procurando? Quer que eu te ajude com algumas recomendações?"
Mel piscou seus grandes olhos e, de repente, estendeu a mãozinha, tocando de leve a bochecha de Clarice.
"Você é muito bonita, parece a minha mamãe", disse ela em voz baixa.
O ar pareceu congelar por um segundo.
A expressão de Gabriel mudou ligeiramente e ele se agachou, abraçando Mel com mais força: "Sinto muito... a mãe dela faleceu de uma doença há alguns anos."
Clarice sentiu um aperto no peito. Olhando para aquela menina que perdera a mãe, ela inevitavelmente pensou em Vitor e Alice—
Eles ainda tinham Isabela, mas esta criança não tinha ninguém.
"Tudo bem", disse ela suavemente, passando a mão com ternura nos cabelos de Mel. "Melzinha gosta de contos de fadas? Eu tenho muitos livros com ilustrações lindas aqui."
Mel assentiu e seus olhos brilharam.
Durante a meia hora seguinte, Clarice apresentou pacientemente diversos livros para Mel.
A menina foi relaxando aos poucos, chegando a segurar a mão de Clarice e pedindo para que ela lhe contasse uma história.
Gabriel ficou ao lado, observando a cena com um olhar sereno.
Quando Clarice chegou à parte de "O Pequeno Príncipe", Mel já estava encostada em seu colo, totalmente absorta.
"Você tem um jeito muito especial de contar histórias", disse Gabriel em voz baixa no momento de pagar. "A Mel costuma ser muito arisca com estranhos, mas se sentiu próxima de você imediatamente."
Clarice sorriu, entregando o livro embalado para Mel: "Senti uma conexão com ela também. Se a Mel fosse minha filha, eu seria muito feliz."
Assim que as palavras saíram, ela se arrependeu. Mas Gabriel apenas assentiu pensativo, sem fazer perguntas invasivas.
"Podemos voltar sempre?" Ao sair, Mel segurou subitamente a ponta da roupa de Clarice, olhando para cima com expectativa.
Clarice se agachou e deu um leve peteleco carinhoso no nariz dela: "Claro que sim, Melzinha. Serei sempre feliz em receber você."
Gabriel abriu o guarda-chuva, carregando Mel enquanto entravam na chuva. A menina ficou apoiada no ombro dele, acenando para a livraria até desaparecerem na esquina.
Clarice ficou à porta, observando as silhuetas sumirem na cortina de chuva, sentindo um calor no coração que não experimentava há muito tempo.