"Foi a mamãe!" Alice gritou com a voz embargada pelo choro. "Ela sabia muito bem que tínhamos alergia e nos deu de propósito!"
Vitor assentiu com força: "Ela é muito má!"
Os dedos de Clarice agarraram o batente da porta com tanta força que as articulações ficaram brancas: "Vitor, Alice, vocês têm noção do que estão dizendo? É melhor contarem a verdade agora mesmo!"
"Chega!" Henrique levantou-se abruptamente e agarrou o pulso dela. A pressão era tanta que parecia prestes a esmagar seus ossos. "Clarice, é assim que você age como mãe? Além de machucá-los, ainda os obriga a mentir?"
"Eu não fiz nada..." A voz de Clarice tremia levemente.
"Está sugerindo que eles estão te incriminando?" Ele soltou uma risada fria. "Que idade eles têm? Se você não tem sequer a decência de assumir seus erros, você não merece ser mãe."
As duas crianças começaram a chorar mais alto. Henrique soltou Clarice imediatamente e virou-se para consolá-los.
No entanto, quanto mais ele os acalmava, mais eles choravam, com os rostinhos ficando vermelhos.
"Papai..." Alice soluçava. "Dói tanto..."
"O que posso fazer para você se sentir melhor?" Henrique perguntou suavemente, limpando as lágrimas dela com os dedos.
Vitor, com os olhos vermelhos, olhou para Clarice com malícia: "Ela também tem alergia a manga! Façam ela beber o suco também! Ela precisa sentir a mesma dor!"
O coração de Clarice gelou completamente.
Ela olhou para Henrique, e o frio que emanava do olhar dele a fez estremecer por inteiro.
"Está bem."
Ele se empertigou e estalou os dedos. Dois seguranças entraram imediatamente no quarto.
"Segurem-na."
Antes que Clarice pudesse reagir, ela foi forçada a se sentar em uma cadeira.
Um segurança apertou seu queixo, forçando sua boca a se abrir.
Um litro de suco de manga foi despejado goela abaixo. O líquido doce e espesso invadiu suas vias respiratórias, fazendo-a tossir violentamente enquanto sua garganta queimava como brasa.
Manchas vermelhas começaram a surgir em sua pele a uma velocidade visível a olho nu. Seu rosto começou a inchar e a respiração tornou-se cada vez mais difícil, um esforço hercúleo.
Ela arranhava o próprio pescoço em agonia, com a visão turva focada em Henrique.
Ele permanecia ali, observando tudo com indiferença, sem qualquer intenção de interromper a tortura.
As duas crianças pararam de chorar e batiam palmas, excitadas: "Bem feito! Ela merece sofrer também!"
Antes que a escuridão a levasse, a última imagem que Clarice viu foi o olhar gélido de Henrique.
...
Não se sabe quanto tempo passou até que Clarice acordasse na cama do hospital.
Sua garganta ainda ardia e as marcas da reação alérgica permaneciam em seu rosto.
Vindo de fora do quarto, ela ouviu uma voz familiar. Era Isabela.
"Henrique, eu realmente não sabia que eles eram alérgicos... eu só queria fazer um suco natural para eles..."
"A culpa não é sua," a voz de Henrique soou com uma ternura inacreditável. "Você não sabia."
"Se eu tivesse vindo explicar a verdade antes, você não teria entendido mal a Clarice." Isabela continuou com um tom de falso arrependimento. "Vitor, Alice, vocês também... a culpa é toda minha. Como puderam colocar a culpa na mãe de vocês só para me proteger?"
As vozes chorosas e acuadas das duas crianças soaram nitidamente:
"Tia Bela, nós aprendemos a lição..." Alice dizia entre soluços. "É que... nós simplesmente não gostamos da mamãe..."
"É verdade," Vitor concordou. "Ela está sempre nos controlando, não deixa a gente comer doces, nos obriga a dormir cedo... nós só queríamos que ela fosse embora..."
Os dedos de Clarice apertaram os lençóis com força, as juntas brancas.
Aqueles eram os filhos que ela carregou por dez meses, os filhos por quem quase morreu na mesa de cirurgia.
Ela se lembrava do dia em que Vitor nasceu; não havia ninguém do lado fora da sala de parto.
A enfermeira lhe disse que Henrique estava em uma reunião importante e não podia sair.
Ela agonizou de dor, mas teve que aguentar tudo sozinha, cerrando os dentes.
O nascimento de Alice foi ainda mais perigoso. Houve uma hemorragia grave durante o parto difícil; os médicos chegaram a emitir um boletim de estado crítico, avisando que ela corria risco de vida.
E Henrique, devido a uma fusão internacional, havia voado para o exterior.
E agora, as duas crianças por quem ela arriscou a vida para trazer ao mundo, tornaram-se as pessoas que mais a feriam profundamente.